Arquidiocese do Rio de Janeiro

22º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/06/2021

22 de Junho de 2021

Leôncio de Constantinopla: Cristo, o leão que dorme de olhos abertos

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

22 de Junho de 2021

Leôncio de Constantinopla: Cristo, o leão que dorme de olhos abertos

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

19/04/2021 12:53
Por: Redação

Leôncio de Constantinopla: Cristo, o leão que dorme de olhos abertos 0

            ‘Judá é um leãozinho’, lê-se em Gn 49, 9. O leão é um símbolo ambivalente nas Escrituras. Ora, indica a realeza, ora a força, ora o abismo, o Hades. Enfim, pode ser imagem de coisas boas e de coisas ruins. Lembremo-nos da carta de Pedro: ‘Sede sóbrios e vigilantes! Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar’ (1Pd 5, 8).

            Leôncio de Constantinopla (séc. VI) relaciona a imagem do ‘leão que dorme de olhos abertos’ aos símbolos pascais, que têm a força de um alimento espiritual. O leão é nomeado duas vezes, um vez em cada uma de suas duas homilias pascais como o símbolo de Cristo no túmulo: assim como o animal não fecha os olhos enquanto dorme em seu covil, também Cristo manteve os olhos de sua divindade abertos na tumba: “Todos os símbolos da ressurreição do Senhor são para nosso reparo corporal e nossa salvação espiritual: a astúcia cessou, o ciúme foi banido, a contenda foi repelida, a inimizade espezinhada, a guerra acabou e a paz é respeitada, o afeto cresce, a caridade é reconhecida, as disposições acompanham, cumpre-se a palavra que dizia: 'Ah! O que há de bom ou agradável senão vivermos juntos como irmãos?’” (Léonce de Constantinople et alii. ‘Homélies pascales’. Org. Michel AUBINEAU. Sources Chrétiennes. Paris: Éditions du Cerf, 1972).

Leôncio foi um sacerdote de língua grega que nasceu no final da segunda metade do século V e desempenhou seu ministério na primeira metade do século VI. Conhecido por suas homilias, somente cerca de uma dezena e meia delas chegaram até nós, precisamente 14, consoante a mais recente edição e tradução inglesa de Pauline Allen e Cornelis Datema, 1991, da excelente editora Brill. Estes escritos revelam um importante conhecimento da retórica, assim como sua capacidade de criar neologismos e, enfim, de ornar seu discurso. Seguiremos aqui tanto a edição inglesa da Brill, como a francesa da Sources Chrétiennes, donde fazemos as traduções.

            Vê-se logo de início que as homilias de Leôncio recorrem continuamente às Escrituras e, no caso de suas homilias pascais, tanto para relatar os fatos da Páscoa de Cristo como sua profecia no Antigo Testamento. Os fatos pascais de Cristo são repletos de sinais que se reportam pois, aos patriarcas e profetas:

"Hoje, de fato, Cristo, nosso Mestre, ressuscitou dos mortos nas profundezas da noite, apareceu pela primeira vez a Maria Madalena e à outra Maria dizendo-lhes: 'Alegrai-vos e, por vossa causa, se alegrem todas as do vosso sexo', diz o Senhor às mulheres. Alguns dirão certamente: 'Por que o Senhor que ressuscitou dos mortos não foi visto primeiro pelos apóstolos, mas por mulheres e lhes disse: 'Alegrai-vos'? Por quê? Exatamente por isto: porque a aflição brotou por uma mulher, o Senhor fez surgir a alegria novamente por uma mulher, conforme diz sua Palavra: 'Onde abundou o pecado, superabundou a graça'. Mas quando o Senhor foi crucificado e conheceu o túmulo por nós, não por si, todos os apóstolos encontraram sua salvação na fuga e 'foram feridos como ovelhas sem pastores'. Ora, essas mulheres, mantidas acordadas pelo temor e sem dormir a noite toda, que acolheram o Salvador: é por isso que até os nossos dias o sexo feminino ama as vigílias. Depois que elas permaneceram no túmulo, o Senhor, encontrando-as necessariamente, disse-lhes: 'Alegrai-vos, porque também chorastes: na verdade os que semearam em lágrimas colherão com alegria. Alegrai-vos, reconhecei a minha voz. Mudei. na verdade, em minha aparência exterior, não do ponto de vista da realidade, mas quanto ao que a envolve. Alegrai-vos, mulheres "(Léonce de Constantinople et alii. ‘Homélies pascales’, n. 3, p. 371-373).

            Uma característica constante do texto de Leôncio é a chamada que faz aos judeus: “Por que não sondas as Escrituras? Com efeito, foi apenas no tempo da Encarnação que o Senhor disse: 'Depois de três dias eu ressuscitarei'? Aprendei com Ele, ó judeus, que muito antes, por meio do profeta Sofonias, Ele já havia dado a conhecer e predito a sua futura ressurreição, para que reconheçais que o assunto não é recente e que a decisão é antiga”(n. 5, p. 375). Esta referência ao povo judeu justifica-se, entre outras razões, porque eles foram testemunhas do que os antigos profetizaram a respeito de Cristo. E por isso, judeus ou gregos, ou qualquer outro povo, estejam todos atentos aos sinais do Senhor: “Ouvi o Espírito Santo que tem falado por muito tempo por meio do profeta Davi sobre esses 'novos iluminados': 'Que falem os redimidos do Senhor, os quais foram resgatados das mãos dos inimigos e reunidos de todos os países, Leste e Oeste, Norte e Mar!'. Estas palavras não enganam: na verdade, de todas as raças, de todas as tribos e de todas as regiões, os Apóstolos, como pescadores que foram, capturaram estes peixes espirituais na rede da piscina (baptismal). Esta é a arte dos pescadores de Cristo: não lançam redes de linho, mas capturam pela fé” (n. 7, p. 379).

            Voltemos à imagem do leão. A lenda de que o leão dorme de olhos abertos inspira a interpretação de Leôncio, mas não é original. Ela pertence a uma tradição antiga que precede o nosso autor e trata de exprimir propriedade muito verdadeira do rei dos animais: sua capacidade de estar alerta ainda quando dorme. Como se sabe, a imagem do leão é tirada sobretudo das bênçãos de Jacó a seus filhos no livro do Gênesis: ‘Judá é um leãozinho. Correste, meu filho, para a presa, deitaste-te para descansar como o leão, e como a leoa, quem o despertará?’ Gn 49, 9.

Então, a partir desse versículo, Leôncio discorre: “Estas palavras, Jacó as disse de antemão, em vista de nosso Mestre, Cristo. Por que Cristo ‘se deitou como um leão’? Por causa de sua dignidade real e de sua capacidade de ressuscitar a si mesmo: assim como ninguém pode acordar um leão adormecido de seu sono, a menos que ele mesmo saia desse sono, também ninguém ressuscitou dos mortos o Cristo, nosso Mestre, mas ele acordou enquanto o ouvíamos dizer: 'Eu tenho o poder de dar a minha vida e o poder de recuperá-la', e de novo: 'Destruí este templo e, em três dias, eu o levantarei'” (n. 9, p. 385). Por que Cristo é chamado de leão? – pergunta-se Leôncio e nos dá esta resposta:“Assim como o leão corpóreo, enquanto dorme, mantém os olhos abertos - é de fato esta a natureza do leão - assim Cristo, nosso Mestre, nos três dias que dormiu por causa de sua encarnação, não fechou os olhos da divindade” (ibid.).

            O Salmo 121 também insiste na vigilância de Deus sobre seu povo: ‘Sim, não dorme nem cochila o guarda de Israel’ (v. 4). Este estar em vigília é uma atitude pascal, cuja imagem é o leão: “Alegremo-nos. Os filhos dos fariseus estão realmente de luto. Por quê? - Porque não acreditaram em seu patriarca Jacó, que por muito tempo clamou sobre a real ressurreição do Senhor: 'Depois de se deitar, ele adormeceu como um leão e como um leãozinho: quem o faz se levantar? ' Que dizes, ó judeu? 'Dá-nos outro que se tenha erguido de maneira real, como um leão, e acreditaremos no que dizes.' Se ninguém mais, exceto Cristo, nosso Mestre, dormiu como um leão por três dias, e se levantou como um filhote de leão - como é possível ouvir o Senhor dizer muito antes de sua encarnação: 'Eu sou como uma pantera de Efraim e como um leão da casa de Judá '- por que não adoras o Ressuscitado? É bem possível dizer o que o Senhor fez na tumba, como o leão, e por que o fez. Por quê? - Por causa do comportamento natural do leão: o leão, cochilando na cova onde dorme, mantém os olhos abertos; da mesma forma, Cristo ...” (II, nº 6, p. 439-441).

            Enfim, em Apocalipse 5, 5, Jesus Cristo é chamado de leão vencedor: ‘Não chores! Eis que o Leão da tribo de Judá, o Rebento de Davi, venceu para poder abrir o livro e seus sete selos’. Não se trata mais de chorar a morte, mas de celebrar a vitória sobre a morte. O olhar de Cristo é também o olhar da vitória. O ícone aqui ao lado é de antiga representação e exprime a mensagem que vimos expondo até aqui. Jesus é retratado quase como uma criança num berço, que dorme de olhos abertos. Unem-se aí os mistérios da encarnação, da morte e da ressurreição de Jesus pelo olhar vigilante do Salvador.

https://i.pinimg.com/736x/16/75/79/1675794754611b74eca252e9f23c5028--byzantine-icons-byzantine-art.jpg

Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio.

 

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.