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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/06/2021

22 de Junho de 2021

Estrado para os pés

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22 de Junho de 2021

Estrado para os pés

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19/04/2021 12:49
Por: Redação

Estrado para os pés 0

É bem capaz de você já ter aberto a Sagrada Escritura, edição Pastoral, da Paulus, para leitura e não ter notado na página 10 um dos poemas mais bonitos que já li na vida. Quatro versos simples que tentam revelar poeticamente o que ainda está para além da compreensão humana: Quem é Deus?

Como cristãos, sabemos que Jesus nos ajuda a responder a essa pergunta, pois Ele mesmo é o ponto mais alto da revelação de Deus. Foi através do seu Filho Unigênito que Deus Pai se deslindou a nós (Jo 1.18).

 Jesus Cristo é o Verbo eterno e divino que, cheio de graça e de verdade, se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). Sua glória é a glória do Unigênito do Pai do Céu. Jesus é a exegese de Deus.

Quem O vê, vê O Pai. Os dois são um. Jamais podemos ir a Deus de outra maneira, apenas por meio de Cristo. O próprio Jesus afirmou: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14.6). É o Emmanuel a revelação máxima e final de Deus

Contudo, o ser humano ainda está longe de compreender a grandeza de Deus em sua totalidade, talvez porque insista em querer que essa compreensão se dê mais através da razão, pelos estudos, teologias e filosofias, e menos pelo sentimento, o afeto, a oração.

Jesus sabia disso, tanto que usou um termo muito afetivo, especial, para se referir a Deus: chamou-O de “Abba”, uma palavra aramaica que, traduzindo para o português, significaria 'papai', ou 'paizinho', uma forma carinhosa das crianças normalmente se referirem a seus pais e que Jesus talvez pode até ter usado ao dirigir-Se a seu pai adotivo, José.

Com efeito, o sentimento, o alumbramento das coisas, ajuda-nos sim a compreender Deus. E não há nada mais comovente, que sensibiliza e desperta sentimentos do que a poesia, manifestação de estética e de beleza retratada por um poeta em forma de palavras.

O poema de Rabindranath Tagore (1861-1941), que podemos encontrar nas primeiras páginas da Bíblia, edição Pastoral, apresenta um sujeito poético em busca de um Deus aparentemente oculto:

Aqui é o estrado para os teus pés,
que repousam aqui,
onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
Quando tento inclinar-me diante de ti,
a minha reverência não consegue alcançar
a profundidade onde teus pés repousam,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
O orgulho nunca pode se aproximar
desse lugar onde caminhas
com as roupas do miserável,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
O meu coração jamais pode encontrar
o caminho onde fazes companhia
ao que não tem companheiro,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.

 

 

Note que as expressões repetidas, “teus pés” e também as ações “caminhar”, “descansar” e “seguir”, nos remete a uma peregrinação do “Tu” juntos aos excluídos do mundo: “os mais pobres, humildes e perdidos.”, os preferidos Deus. E que os “pés”, que remetem aos que peregrinam nesta vida, recordam-nos o lava-pés dos discípulos, na Última Ceia: “Se eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.” (João 13, 14).

Neste sentido, vale frisar que a proposta do poema não é tentar explicar ipsis litteris Deus, longe disso, mas marcar o espanto e o reconhecimento sincero de que quanto mais abraçamos nossa missão neste mundo, de servi-Lo, quanto mais O buscamos com entrega, mais longe de alcançarmos ficamos. Mas mesmo assim, nunca devemos desistir! A humildade, a misericórdia e a solidariedade são os caminhos mais seguros para nós nos aproximarmos de Jesus e, consequentemente, desvendarmos Deus cotidianamente, cada vez mais: “Acreditai que estou no Pai e o Pai está em Mim” (João 14, 11).

Pode parecer contraditório, mas é justamente por conta desse não conhecimento de Deus em sua completude, afirma S. Tomás de Aquino, “que estamos mais perfeitamente unidos a Ele nesta vida”.

Só seguindo sem pressa, passo a passo, abrindo nossos sentidos para sentir Deus verdadeiramente como um Pai, é que seremos conduzidos da pequenez à grandeza, da nossa ignorância à sabedoria. 

Rabindranath Tagore, prosador, educador, poeta, reformador social e filósofo, Prêmio Nobel de Literatura em 1913, é considerado um dos poetas mais importantes da Índia Moderna.

Os poemas que mais gosto desse autor estão na antologia poética “O coração de Deus”, Ediouro Editora. São poemas místicos, cotidianos. Comoventes orações de um ser consciente dos desafios da vida, porém louco de amor, em busca de um Deus que se esconde e se revela, que é só silêncio, mas principalmente suave presença.

É uma obra que nos impulsiona a nos entregarmos a este coração em meditação também, com confiança, e nos convida a Lhe servir verdadeiramente neste mundo.

Tagore soube expressar de maneira profunda seu honesto relacionamento com Deus, sua experiência apaixonada e extremamente pessoal, permeada de tristeza e alegria.

O livro é mais do que uma celebração da vida, do momento presente, lugar onde Deus verdadeiramente está, é a celebração da certeza de que apesar de todas as dificuldades, Ele é o “estrado para nossos pés”, quem nos sustenta sempre, nos ampara e nos ama, profundamente.

Paz e bem!

Dinair Fonte


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