Arquidiocese do Rio de Janeiro

29º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/10/2021

24 de Outubro de 2021

Segundo Domingo da Quaresma – Ano B 04.03.2012

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24 de Outubro de 2021

Segundo Domingo da Quaresma – Ano B 04.03.2012

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28/02/2021 00:00

Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Sl 115 (116B)
Rm 8, 31b-34
Mc 9, 2-10 (Transfiguração)
 
Mestre, é bom ficarmos aqui  (Mc 9,5)
 
No primeiro domingo da Quaresma, a liturgia sempre nos apresenta o evangelho da tentação do Senhor, segundo algum dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos ou Lucas). Assim também, no segundo domingo deste tempo, nos vem apresentado sempre o evangelho da Transfiguração do Senhor, conjugado com outras leituras que mudam de acordo com o ciclo litúrgico.

Neste ano B, a primeira leitura nos apresenta o “sacrifício de Abraão”. É importante conhecer o gênero literário do texto em questão. Segundo os estudiosos do livro do Gênesis, este capítulo 22 seria uma “lenda cultual”, ou seja, uma narrativa que tinha como objetivo demonstrar porque Israel não realizava sacrifícios humanos, como faziam alguns povos circunvizinhos. Tal explicação parece ter sentido, uma vez que o monte onde Abraão subiu com o intuito de sacrificar Isaac foi identificado pela tradição judaica como o monte sobre o qual, mais tarde, Salomão construiu o Templo de Jerusalém, onde sacrifícios de animais e oferendas vegetais eram oferecidos ao Senhor.

Contudo, do ponto de vista da teologia do texto, outros elementos podem ser ressaltados. Em primeiro lugar, a obediência de Abraão. Assim como em Gn 12,1, o patriarca deixa para trás sua família e a casa paterna - abandonando, de certa forma, seu passado - agora ele deve, outra vez, sair do lugar onde está, dirigir-se a um local designado por Deus e sacrificar aquele que aponta para o seu futuro: seu filho único, aquele a quem ele “ama” (Gn 22,2).

Em segundo lugar, poderíamos destacar a fé de Abraão. Ele acredita que Deus há de “providenciar” tudo o que for necessário para o sacrifício. A liturgia não nos apresenta todos os versículos dessa narrativa, mas, no v. 7-8 somos confrontados com a pergunta do filho a respeito da vítima para o holocausto. Tal questionamento deve ter sido, podemos imaginar, doloroso para o patriarca, mas sua resposta vem cheia de fé: “É Deus quem proverá o cordeio para o holocausto, meu filho” (Gn 22,8).

A narrativa destaca, ainda, que pai e filho andavam juntos, subindo o monte do sacrifício. Isaac seria imolado, mas Abraão já sofria um longo martírio desde que foi confrontado com esta situação tão dolorosa que, sabemos através unicamente do narrador, constituía para ele uma “prova” (Gn 22,1). Isaac foi poupado, mas Abraão sofreu o “martírio da obediência”, aprendendo a sacrificar sua vontade para obedecer unicamente a Deus.

Os sacrifícios humanos eram comumente praticados por alguns povos do Antigo Oriente Próximo. Facilmente podemos imaginar como Abraão deve ter compreendido que, a semelhança do que acontecia em povos circunvizinhos, o seu filho primogênito deveria, também, ser oferecido a Deus. As Escrituras, contudo, demonstram não só aqui, mas em muitas outras passagens, que Deus sempre reprovou tal atitude e, desde o início, quis que tais sacrifícios fossem substituídos por outros, até que um único sacrifício, o de Cristo, pusesse fim aos sacrifícios antigos que não eram senão sombra do sacrifício perfeito que foi oferecido de uma vez por todas sobre a cruz.

Os Padres da Igreja sempre leram este texto a partir da tipologia, ou seja, vendo nas imagens da narrativa algo que apontava para a realidade plena a ser manifesta no Novo Testamento. Isaac é um typos Cristo, ou seja, ele representa nesta cena o próprio Cristo. Vários são os sinais que ajudam a estabelecer a comparação, por exemplo, o fato de Isaac levar às suas costas o feixe de lenhas sobre o qual deveria ser sacrificado, assim como Cristo levará a Cruz às costas; também o fato de Isaac obedecer em tudo a Abraão indo em direção ao seu próprio sacrifício, ainda que sem saber, como um manso cordeiro que é levado ao matadouro. Cristo também, silenciosamente e obediente em tudo ao Pai assumiu a cruz por nós e para nossa salvação. Todavia, enquanto Deus poupou Isaac e poupou também, de certa forma, Abraão, que se via angustiado em ter de sacrificar o “seu único”, Ele não se poupou e não poupou o seu Filho, mas aceitou que Ele se oferecesse no madeiro da cruz por nós. O Pai viu o seu Cordeiro imolado por amor dos homens. É o que Paulo nos fala na segunda leitura partindo, talvez, da tradição contida em Gn 22.

O salmo 115 canta a alegria do homem que é liberto por Deus dos apuros e que decide “erguer o cálice da salvação” e pronunciar uma berakah como forma de ação de graças a Deus que o livrou de seus inimigos. O salmista canta ainda a alegria de cumprir a vontade do Senhor. Abraão se encaixa neste salmo, porque cumpriu até o fim a vontade de Deus e também porque experimentou a libertação que Deus lhe concedeu poupando-o de oferecer “seu único”.

O Evangelho deste segundo domingo da quaresma é o Transfiguração de Cristo numa "montanha alta” e “retirada”. A transfiguração acontece seis dias depois do primeiro anúncio da paixão - anúncio que Cristo faz com “parresia” (Mc 8,32), palavra grega que indica desassombro” - diante do qual Pedro se escandalizou e foi mandado para a sua posição de ovelha, atrás do pastor que deve ensinar o caminho a seguir (cf. Mc 8,33).

Uma vez que o ânimo dos discípulos foi abalado pelo escândalo da Cruz, Cristo fez a sua metamorfose (transfiguração, em grego), ou seja, Ele que antes havia tomado a “forma de servo” (cf. Fl 2,5-11), agora manifestou-se na sua “forma de Deus”, expressa aqui pela brancura sobrenatural das suas vestes (que nenhuma lavadeira sobre a terra poderia ter produzido, segundo Marcos) e pela presença de Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, que estão voltados para ele e com ele dialogam.

Cristo, nosso Isaac, é a plenitude da Lei e dos Profetas; Ele próprio é a Palavra contida também na Lei e nos Profetas e que se fez carne para a nossa salvação. Ele morrerá, mas a sua morte será gloriosa. A aparente derrota é, na verdade, a vitória. Assim como Abraão cumpre a sua prova, demonstrando obediência à Palavra de Deus advinda a Ele por meio do anjo, assim também Cristo manifesta toda a sua obediência, assumindo a morte de cruz, que redundará na grande glória, na mais triunfal de todas, a sua ressurreição.

Duas conclusões podemos tirar desse trecho do Evangelho para a nossa vida espiritual. A primeira delas é saber que Deus nos chama a uma vida de obediência à sua Palavra. Abraão, nosso pai na fé, deu-nos o exemplo. Cristo, nosso Senhor, numa carne semelhança à nossa, deu-nos o exemplo. Na Transfiguração, o Pai falou-nos: Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz! Escutar e obedecer: eis a primeira lição que tiramos das leituras bíblicas de hoje e que ilumina o nosso caminho quaresmal.

A segunda conclusão a que chegamos é que, no caminho quaresmal, não devemos temer as cruzes e a morte que nos espera, porque sabemos que sairemos vencedores com Aquele que se transfigurou e que ressuscitou dos mortos para a nossa salvação.

Diante da certeza desse amor que assume a morte e a vence por nós, podemos fazer nossas as Palavras do Apóstolo Paulo na segunda leitura: “O que devemos temer se o Cristo morreu por nós e pela nossa salvação? Se Ele desceu à mansão dos mortos por nós, quem nos acusará?” Como diz o salmista: Ele é quem nos defende do inimigo mentiroso, do diabo, daquele que quer nos fazer perder a salvação. Ergamos o nosso cálice, o cálice da Eucaristia e demos graças a Deus que nos fez justiça, enviando o “Seu único” para a nossa salvação.




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Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Sl 115 (116B)
Rm 8, 31b-34
Mc 9, 2-10 (Transfiguração)
 
Mestre, é bom ficarmos aqui  (Mc 9,5)
 
No primeiro domingo da Quaresma, a liturgia sempre nos apresenta o evangelho da tentação do Senhor, segundo algum dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos ou Lucas). Assim também, no segundo domingo deste tempo, nos vem apresentado sempre o evangelho da Transfiguração do Senhor, conjugado com outras leituras que mudam de acordo com o ciclo litúrgico.

Neste ano B, a primeira leitura nos apresenta o “sacrifício de Abraão”. É importante conhecer o gênero literário do texto em questão. Segundo os estudiosos do livro do Gênesis, este capítulo 22 seria uma “lenda cultual”, ou seja, uma narrativa que tinha como objetivo demonstrar porque Israel não realizava sacrifícios humanos, como faziam alguns povos circunvizinhos. Tal explicação parece ter sentido, uma vez que o monte onde Abraão subiu com o intuito de sacrificar Isaac foi identificado pela tradição judaica como o monte sobre o qual, mais tarde, Salomão construiu o Templo de Jerusalém, onde sacrifícios de animais e oferendas vegetais eram oferecidos ao Senhor.

Contudo, do ponto de vista da teologia do texto, outros elementos podem ser ressaltados. Em primeiro lugar, a obediência de Abraão. Assim como em Gn 12,1, o patriarca deixa para trás sua família e a casa paterna - abandonando, de certa forma, seu passado - agora ele deve, outra vez, sair do lugar onde está, dirigir-se a um local designado por Deus e sacrificar aquele que aponta para o seu futuro: seu filho único, aquele a quem ele “ama” (Gn 22,2).

Em segundo lugar, poderíamos destacar a fé de Abraão. Ele acredita que Deus há de “providenciar” tudo o que for necessário para o sacrifício. A liturgia não nos apresenta todos os versículos dessa narrativa, mas, no v. 7-8 somos confrontados com a pergunta do filho a respeito da vítima para o holocausto. Tal questionamento deve ter sido, podemos imaginar, doloroso para o patriarca, mas sua resposta vem cheia de fé: “É Deus quem proverá o cordeio para o holocausto, meu filho” (Gn 22,8).

A narrativa destaca, ainda, que pai e filho andavam juntos, subindo o monte do sacrifício. Isaac seria imolado, mas Abraão já sofria um longo martírio desde que foi confrontado com esta situação tão dolorosa que, sabemos através unicamente do narrador, constituía para ele uma “prova” (Gn 22,1). Isaac foi poupado, mas Abraão sofreu o “martírio da obediência”, aprendendo a sacrificar sua vontade para obedecer unicamente a Deus.

Os sacrifícios humanos eram comumente praticados por alguns povos do Antigo Oriente Próximo. Facilmente podemos imaginar como Abraão deve ter compreendido que, a semelhança do que acontecia em povos circunvizinhos, o seu filho primogênito deveria, também, ser oferecido a Deus. As Escrituras, contudo, demonstram não só aqui, mas em muitas outras passagens, que Deus sempre reprovou tal atitude e, desde o início, quis que tais sacrifícios fossem substituídos por outros, até que um único sacrifício, o de Cristo, pusesse fim aos sacrifícios antigos que não eram senão sombra do sacrifício perfeito que foi oferecido de uma vez por todas sobre a cruz.

Os Padres da Igreja sempre leram este texto a partir da tipologia, ou seja, vendo nas imagens da narrativa algo que apontava para a realidade plena a ser manifesta no Novo Testamento. Isaac é um typos Cristo, ou seja, ele representa nesta cena o próprio Cristo. Vários são os sinais que ajudam a estabelecer a comparação, por exemplo, o fato de Isaac levar às suas costas o feixe de lenhas sobre o qual deveria ser sacrificado, assim como Cristo levará a Cruz às costas; também o fato de Isaac obedecer em tudo a Abraão indo em direção ao seu próprio sacrifício, ainda que sem saber, como um manso cordeiro que é levado ao matadouro. Cristo também, silenciosamente e obediente em tudo ao Pai assumiu a cruz por nós e para nossa salvação. Todavia, enquanto Deus poupou Isaac e poupou também, de certa forma, Abraão, que se via angustiado em ter de sacrificar o “seu único”, Ele não se poupou e não poupou o seu Filho, mas aceitou que Ele se oferecesse no madeiro da cruz por nós. O Pai viu o seu Cordeiro imolado por amor dos homens. É o que Paulo nos fala na segunda leitura partindo, talvez, da tradição contida em Gn 22.

O salmo 115 canta a alegria do homem que é liberto por Deus dos apuros e que decide “erguer o cálice da salvação” e pronunciar uma berakah como forma de ação de graças a Deus que o livrou de seus inimigos. O salmista canta ainda a alegria de cumprir a vontade do Senhor. Abraão se encaixa neste salmo, porque cumpriu até o fim a vontade de Deus e também porque experimentou a libertação que Deus lhe concedeu poupando-o de oferecer “seu único”.

O Evangelho deste segundo domingo da quaresma é o Transfiguração de Cristo numa "montanha alta” e “retirada”. A transfiguração acontece seis dias depois do primeiro anúncio da paixão - anúncio que Cristo faz com “parresia” (Mc 8,32), palavra grega que indica desassombro” - diante do qual Pedro se escandalizou e foi mandado para a sua posição de ovelha, atrás do pastor que deve ensinar o caminho a seguir (cf. Mc 8,33).

Uma vez que o ânimo dos discípulos foi abalado pelo escândalo da Cruz, Cristo fez a sua metamorfose (transfiguração, em grego), ou seja, Ele que antes havia tomado a “forma de servo” (cf. Fl 2,5-11), agora manifestou-se na sua “forma de Deus”, expressa aqui pela brancura sobrenatural das suas vestes (que nenhuma lavadeira sobre a terra poderia ter produzido, segundo Marcos) e pela presença de Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, que estão voltados para ele e com ele dialogam.

Cristo, nosso Isaac, é a plenitude da Lei e dos Profetas; Ele próprio é a Palavra contida também na Lei e nos Profetas e que se fez carne para a nossa salvação. Ele morrerá, mas a sua morte será gloriosa. A aparente derrota é, na verdade, a vitória. Assim como Abraão cumpre a sua prova, demonstrando obediência à Palavra de Deus advinda a Ele por meio do anjo, assim também Cristo manifesta toda a sua obediência, assumindo a morte de cruz, que redundará na grande glória, na mais triunfal de todas, a sua ressurreição.

Duas conclusões podemos tirar desse trecho do Evangelho para a nossa vida espiritual. A primeira delas é saber que Deus nos chama a uma vida de obediência à sua Palavra. Abraão, nosso pai na fé, deu-nos o exemplo. Cristo, nosso Senhor, numa carne semelhança à nossa, deu-nos o exemplo. Na Transfiguração, o Pai falou-nos: Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz! Escutar e obedecer: eis a primeira lição que tiramos das leituras bíblicas de hoje e que ilumina o nosso caminho quaresmal.

A segunda conclusão a que chegamos é que, no caminho quaresmal, não devemos temer as cruzes e a morte que nos espera, porque sabemos que sairemos vencedores com Aquele que se transfigurou e que ressuscitou dos mortos para a nossa salvação.

Diante da certeza desse amor que assume a morte e a vence por nós, podemos fazer nossas as Palavras do Apóstolo Paulo na segunda leitura: “O que devemos temer se o Cristo morreu por nós e pela nossa salvação? Se Ele desceu à mansão dos mortos por nós, quem nos acusará?” Como diz o salmista: Ele é quem nos defende do inimigo mentiroso, do diabo, daquele que quer nos fazer perder a salvação. Ergamos o nosso cálice, o cálice da Eucaristia e demos graças a Deus que nos fez justiça, enviando o “Seu único” para a nossa salvação.