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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/09/2021

19 de Setembro de 2021

Fim dos tempos

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Fim dos tempos

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27/08/2021 00:00
Por: Carlos Moioli

Fim dos tempos 0

Diante do atual momento em que estamos vivendo com pandemia, aquecimento global, catástrofes naturais, conflitos entre povos, fragmentação das famílias, conflitos ideológicos e tanto mais, muitas pessoas questionam seus padres – porque os têm como referências espirituais – a respeito do fim do mundo ou fim dos tempos. Mas, será mesmo que somos a geração que assistirá ao fim do mundo, à parusia, ao fim da história?

O fim do mundo é antes de tudo a sua renovação, o início de uma nova dimensão da vida. E esta renovação, de certo modo, já é real e antecipada nesta terra, antes de tudo pela Ressurreição de Jesus, que “ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15, 20), mas também continuada e atualizada pela ação da Igreja, que é o Reino de Cristo já presente em mistério, constituindo o seu germe e início (Lumen Gentium 3). O Reino de Deus é anunciado por Cristo, mas também inaugurado por sua presença e atuação. De modo a ser realidade presente no tempo, mas cuja realização plena dar-se-á somente quando a história terminar ou se consumar. Contudo, enquanto a consumação da história não é levada a cabo, a missão da igreja deve ser a de anunciar o Reino de Deus e de Cristo e de instaurá-lo entre todos os povos, visto que desse Reino, como já dito, ela é germe e início (Lumen Gentium 5). Assim, a Igreja peregrina em meio à transitoriedade e às agruras deste mundo presente vive a eternidade, a transcendência, a santidade e a perfeição em mistério da vida futura. E é precisamente esta sua identidade vital que levou e ainda leva tantos homens e mulheres a lançarem-se inteiramente à construção do Reino de Deus, isto é, a trabalhar pela libertação do mal sob todas as suas formas. 

A história é fruto e obra do amor criativo de Deus. De modo a ser exatamente o meio em que o ser humano é salvo e santificado. Pois é na história, ou no tempo, que o divino e o humano se fundem na única pessoa de Jesus Cristo, Verbo de Deus feito homem no ventre de Maria sempre Virgem, por isso verdadeiro Deus e verdadeiro homem. N'Ele o eterno e o tempo se fundem, o sagrado assume o profano e o sacraliza. Pelo poder redentor do mistério de sua paixão, morte e ressurreição, o mal é derrotado. Contudo, o homem continua a fazer experiência do mal, mas este já não mais o escraviza, visto que a esperança que a vitória de Cristo comunica o projeta para uma realidade futura e plenificada, mas presentemente atuante. Tal esperança está fundada, como já referido, na vitória de Cristo, cuja graça inspira, motiva e orienta a ação da Igreja no mundo e ilumina a inteligência e a atividade daqueles que de coração sincero e humilde buscam a Verdade. A partir desta compreensão já não vemos mais a história meramente como história humana, mas sim como história da salvação humana. Pois nela Deus age intervindo a favor da libertação e plenificação humanas. 

O Reino de Deus foi inaugurado por Cristo na terra e manifesta-se lucidamente aos homens na Sua palavra, nas Suas obras e na Sua presença redentoras. Porém, este Reino, que já se faz presente na Igreja, que é sua semente e princípio, ainda não está consumado com poder e grande glória pelo advento do Rei na terra. Este Reino ainda é atacado pelos poderes malignos, embora estes já tenham sido vencidos em suas bases pela Ressurreição do Senhor. Mas enquanto toda criação não for submetida a Ele, isto é, enquanto não houver novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça (2Pd 3,13), a Igreja leva consigo em seus sacramentos e em suas instituições, que pertencem à idade presente, a figura deste mundo que passa, e ela mesma vive entre as criaturas que gemem e sofrem como que dores de parto até o presente e aguardam a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8, 19-22)

Neste sentido, nós já vivemos o escatón, estamos inseridos nele, o tempo presente é a última etapa da história; estamos sim no fim dos tempos. Com efeito, esta fase da história da salvação apela a nossa esperança cristã, que não corresponde meramente ao ato de esperar algo que não sabemos ou não temos certeza se ocorrerá, mas já é posse, ainda que em princípio, daquilo que se espera.

Do mistério pascal provém e tende toda a fé cristã, mas este tender segue em direção a realização da promessa do retorno universal e glorioso de Cristo. É precisamente aí que consiste o problema escatológico, em última análise no futuro. Esperamos algo que nos é apresentado como totalmente novo, mas que só podemos imaginar e pensar a partir das experiências que temos da realidade. Neste sentido, somos levados a compreender o futuro escatológico como algo que se estende e desenrola a partir do presente, de modo que ao falar do retorno universal e glorioso de Cristo, a escatologia toma como referência a realidade da ressurreição de Jesus.

A esperança se impõe a partir da dinâmica da contradição. Ela nos coloca em confronto com a realidade. Experimentamos a dura realidade de nossa natureza decaída, mas a esperança nos projeta para além, ela transcende a dura realidade e nos transporta para o esperado já revelado, mas ainda não consumado. Nesta dinâmica a fé que nos leva ao conhecimento de Cristo e a Ele nos une está irrevogavelmente unida à esperança, pois a primeira é o fundamento da segunda e a segunda alimenta a primeira.

É neste sentido que vivemos em meio à tensão do já possuir e viver as realidades que esperamos, porém ainda em germe, não em plenitude. E é exatamente aí, nesta tensão, que se insere a ação da Igreja mediada pelos cristãos, homens e mulheres de fé, capacitados para a missão pelo batismo, sacramento através do qual somos configurados a Cristo, e assim constituídos povo de Deus, participantes, cada um de acordo com o seu estado de vida, na função sacerdotal, profética e real do Senhor. E neste sentido, somos chamados a exercer, cada um segundo a sua condição, a função que Deus confiou a sua Igreja, para que ela cumpra no mundo sua missão, estendendo e atualizando na história a ação salvífica de Cristo.

Sendo assim, o tempo presente, repleto de situações conturbadas, apela antes de tudo a nossa esperança cristã e ao compromisso de cada cristão para com a missão evangelizadora num mundo cuja esperança é insegura ou, na melhor das hipóteses, meramente imanente.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.

 

 

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