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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 07/12/2021

07 de Dezembro de 2021

'Bendito sejas tu, Deus misericordioso!'

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'Bendito sejas tu, Deus misericordioso!'

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02/08/2021 15:07
Por: Redação

'Bendito sejas tu, Deus misericordioso!' 0

Há um fragmento que podemos encontrar no livro “Componentes da Banda”, escrito por Adélia Prado, de 1987, que eu sempre lembro quando me vejo tentada a questionar Deus quando algo de ruim acontece comigo. É uma obra que recomendo muito a leitura de todo o livro, mas Adélia, com sua escrita desafiadora, somente neste trecho nos dá uma pequena amostra da alma exposta de uma cristã consciente, reflexiva e, mesmo que não pareça, de bastante fé:

“sei que devo confiar em Deus e dormir, mas não controlo o pânico me envolvendo como nuvem preta, o sobressalto em carne viva (...) ‘cair é bom, é Deus quem deixa, boba, pra gente não ficar presumida, se não vamos pensar que a nossa fortaleza provém de nós. Você se leva a sério demais, deixa rolar um pouco, Violeta. Nunca me iludo de que vai ficar tudo maravilhoso de repente, você experimenta o bom e acha que não tem fim.’ É verdade. Experimento o ruim e acho que o mundo desabou”.

Reconhecer a própria queda, ou melhor, admiti-la, é aderir de forma incondicional à certeza de que, como nos ensina São Paulo, “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” (Hebreus 11:1).

Nas diversidades da vida temos sempre algumas escolhas, como o desespero ou a confiança, a fuga ou a permanência fiel a Deus de todo coração. E uma das leituras importantes para melhor decidirmos o que fazer, para iluminarmos e enfrentarmos o caminho escuro que algumas vezes precisamos atravessar na vida, para nosso crescimento pessoal, é o livro de Tobias, que não se encontra na Bíblia hebraica, mas faz parte da Bíblia católica, por isso é chamado de deuterocanônico, e pertence ao gênero sapiencial.

Escrito no 2º século a.C., o livro possui 14 capítulos e é numa narração antiga de origem judaica. Não conta uma história real, é considerado uma novela ou romance, cujo objetivo é transmitir conhecimento.

O livro trata de duas famílias judaicas aparentadas deportadas. Tobit, pai de Tobias, um homem justo e fiel a Deus, fica cego e envia seu filho Tobias para buscar um dinheiro, guardado na casa de um amigo em uma cidade muito distante e perigosa. Mas durante toda a viagem Tobias é protegido pelo Arcanjo Rafael. Ao chegar no lugar de destino, Tobias encontra e casa-se com sua prima Sara, atormentada por um demônio chamado Asmodeu, que matara sete maridos na noite de núpcias, antes mesmo que consumassem o casamento.

Claro que eu estou resumindo a história. Não vou contar, porque se você ainda não parou para ler, certamente já está com muita vontade, não é? Vale mesmo a pena a leitura. É uma história que peguei muito amor depois de conhecer. Nos mostra que a verdadeira sabedoria e o caminho para a fidelidade consiste em nunca nos afastarmos de Deus, amá-Lo acima de todas as coisas e confiar e obedecer à Sua vontade, independentemente das circunstâncias adversas que aparecerem no caminho.

É exatamente o que o Anjo Rafael ensina a Tobias, pois ele tem medo de se casar com Sara e morrer por conta de todo o histórico dela. Rafael afirma que o demônio só tem poder sobre as pessoas que casam e banem Deus dos seus corações e do seu pensamento. Sobre as pessoas que não colocam Deus no centro de suas vidas e de seus relacionamentos é que o Demônio se apodera.

Percebam que o livro de Tobias vai muito além do que só retratar a importância da família e do matrimônio, dentro do contexto histórico do Antigo Testamento, não podemos esquecer. É possível uma reflexão desse texto, trazendo-o para a realidade dos nossos dias, tanto para os namorados, noivos, os já casados, mas também para qualquer pessoa que escolheu servir a Deus com entrega.

Sara e Tobias nunca tinham se encontrado, mas a providência de Deus foi conduzindo as coisas. Depois de muitas provações e situações difíceis, a vontade de Deus se fez na vida dos dois, uniu dois caminhos em um só no sentido mais intenso e profundo de completude. O que prova que o amor entre um homem e uma mulher, quando é experiência do em Deus, sempre conduzirá para o próprio Deus, que instrui como e o que é de fato um amor real e verdadeiro.

Com efeito, é uma história para qualquer pessoa que deseja aprender sobre como caminhar para um matrimônio nobre e feliz, não baseado em sexo, não pelo prazer que o casal pode se oferecer, mas voltado acima de tudo para um amor não egoísta, que se preocupa com o bem-estar do outro e se inclina, enxergando-o como ser humano, para a amizade entre duas pessoas, queridas e afetuosas em si mesmas, que se respeitam, se cuidam e se amam exatamente como são.

Também é uma história que ensina um amor que teme a Deus e que se manifesta de forma concreta na solidariedade e na partilha com o próximo. A misericórdia e o amor de Deus agem na vida dos personagens o tempo todo através das pessoas.

Sara, por exemplo, foi humilhada, criticada, julgada, até mesmo amaldiçoada, pela morte dos maridos e também porque naquele tempo, a honra da mulher era ser esposa e mãe. Assim, não se casar, não gerar filhos ou ser estéril eram as maiores desgraças, a mulher não servia para absolutamente nada.

No entanto, Sara soube esperar a vontade de Deus em sua vida. Chorou, sofreu, mas esperou resiliente o homem que Deus tinha preparado para ela.  E mesmo na hora de maior desespero, já pensando em tirar a própria vida, ela não perdeu a fé, estendeu os braços para a janela de seu quarto e suplicou:

“Bendito sejas tu,

Deus misericordioso!

Bendito seja o teu Nome eternamente,

e que tuas obras

te bendigam para sempre.

Para Ti levanto meu rosto

e meus olhos.

Manda que eu desapareça da terra,

para não ouvir mais insultos.

Tu sabes, Senhor, que eu estou pura

e que homem algum me tocou.

Nunca desonrei o meu nome,

nem o nome de meu pai,

na terra do meu exílio.

Sou filha única,

e meu pai não tem outro filho

como herdeiro,

nem irmão ou parente próximo

com quem eu possa me casar.

Já perdi sete maridos.

Para que viver mais?

Se não me quiseres tirar a vida, Senhor,

trata-me com compaixão,

paraque eu não ouça mais insultos”.

 

E Deus se compadeceu de Sara enviando Tobias, que reza assim no dia de seu casamento:

“Somos filhos dos santos (patriarcas), e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus […]. Ora, vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer a minha paixão que recebo a minha irmã como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade, pela qual o Vosso nome seja eternamente bendito”.

Vejam que por mais que Tobias ame Sara, ele não se permite obcecar, ele se volta em primeiro lugar para Deus, pois ele sabe que Deus é o único capaz de dar as graças necessárias para que ele possa amá-la sem ser dominado pelo egoísmo e pelo apego. A posse, o controle, ficar aficionado por alguém, sufocar não só podem destruir o amor como podem impedir uma pessoa de verdadeiramente amar. É só a presença de Deus que pode conceder ao casal tranquilidade, confiança, para fazer dar certo, porque o amor que vem de Deus, é passaporte de eternidade e infinitude.

Neste sentido, o livro de Tobias é uma obra que nos abraça, que nos ajuda a confiar em Deus e dormir... Repousar, que é mais do que simplesmente descansar é abandonar-se ao/no Senhor, confiar de forma abnegada em suas promessas de vida, não de morte.

Aprendemos que devemos crer com o coração na providência divina no nosso dia a dia, seguir o maior mandamento e nunca deixar de praticar a caridade, ainda que seja apenas guardando o silêncio, como Sara fez ao não devolver o mal que fizeram a ela. É continuar sonhando, sabendo esperar pelo novo, permanecer amando com ternura os pais, os filhos, jejuar sem murmuração, cultivar a honestidade, lealdade, idoneidade e a integridade no matrimônio, ser fiel e sempre respeitar.

Ao finalizar a leitura temos a certeza de que o homem justo nunca está sozinho, está sempre acompanhado, amparado, cuidado e protegido por Deus.

Paz e bem!

Dinair Fonte

 

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