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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/12/2021

06 de Dezembro de 2021

Cirilo de Alexandria: 'que é isto?'

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Cirilo de Alexandria: 'que é isto?'

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02/08/2021 15:05
Por: Redação

Cirilo de Alexandria: 'que é isto?' 0

Trata-se da bênção mística (eulogia mystikês), isto é,‘o pão que Deus vos deu como alimento’, disse Moisés, Ex 16, 15. Trata-se, pois, do maná, mas também uma bênção, sobretudo a bênção das bênçãos, que é o alimento eucarístico, conforme a interpretação espiritual da Escritura feita pelos padres da Igreja. Para Cirilo de Alexandria, por exemplo, a experiência sensível do maná caído do céu é justamente imagem, figura, da ‘bênção mística’.

Cirilo de Alexandria nasceu em Teodósia do Egito no ano de 370 e morreu em Alexandria do Egito aos 27 de junho de 444. Participou das disputas cristológicas de sua época e escreveu em grego abundantemente. Em "Glaphyra sobre o Pentateuco", Cirilo comenta com elegância (glaphyra) os primeiros livros bíblicos. Concentramo-nos desta vez no seu comentário à passagem do Êxodo que relata a história do maná enviado por Deus para alimentar seu povo.

Que é isto? É a experiência do maná caído dos céus que produziu um maravilhamento no povo de Deus: “Agora, o Deus de todos realiza maravilhas, de modo que os fiéis progridam com todo vigor, como está escrito no Salmo 83, 8. Ele encontra um meio de prover os desamparados, em cada lugar, em vista de Sua glória, mostrando de muitos modos que, somente com Ele, se podem realizar, sem esforço, ações que transcendam as meras palavras. E é certo que nos devemos maravilhar com tais coisas, que Deus possa ser percebido por meio de todas elas, não como se fossem feitas pela arte dos homens, por aqueles que se entregam à impiedade, mas ações realizadas verdadeiramente de acordo com sua natureza. Pois daquelas coisas que são realizadas mais gloriosamente, pode-se também perceber prontamente sua natureza pura, à qual pertencem Sua bondade, Sua onipotência e o poder irresistível de fazer absolutamente qualquer coisa que Ele escolher” (Cyril of Alexandria, ‘Glaphyra on the Pentateuch Vol. 2’. Washington: The Catholic University of America Press, 2019 p. 54-55, tradução do autor).

Quando o povo de Deus foi libertado da escravidão do Egito, não obstante esta providencial conquista, ainda assim murmurou contra Moisés e Arão, pois não pensava ser suficiente o que Deus lhes fizera ou não reconhecera a glória divina, de modo que “o povo de Israel lhes disse: ‘oxalá tivéssemos sido feridos pelo Senhor e morrido na terra do Egito, quando nos sentamos junto a panelas de carne e comemos pão a fartar! Pois você nos trouxe a este deserto para fazer toda esta congregação morrer de fome’. Então o Senhor disse a Moisés: ‘Eis que farei chover pão do céu para vocês, e o povo sairá e colherá a quantidade de que precisam para o dia, a fim de que eu os experimente para ver se seguem minha lei. No sexto dia, eles prepararão o que trouxerem, e será o dobro do que recolheram nos outros dias’, Ex 16, 1-5” (p. 55).

Embora as maravilhas de Deus em favor de seu povo sejam constantes, é igualmente constante o desânimo religioso que acomete os fiéis, seja do povo antigo, seja dos cristãos. Por isso, os cristãos precisam do alimento da bênção:  “O próprio Salvador ensinou-nos a dizer em nossas orações: ‘O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje’, Mt 6, 11. Quando dizemos isso, é claro que não estamos de forma alguma acusando o Mestre, mas lhe pedindo o que é necessário à vida (...). Deus foi longânimo e prometeu [ao povo de Israel] uma abundância além da expectativa. E assim, em seu poder inefável, Ele enviou codornizes à noite e o maná pela manhã. Como disse o divino Davi: ‘deu-lhes um pão do céu. O homem comeu o pão dos anjos’, Sl 78, 24-25. Ele nos assegura através das provações e fatos da vida de que Deus é capaz de dar comida e preparar uma mesa no deserto, como também fez nosso Senhor Jesus Cristo quando realizou o mesmo milagre. Ele partiu cinco pães e satisfez muitas pessoas no deserto, e 12 cestos de pedaços que sobraram foram recolhidos, Mt 14, 14-21.A maneira como os milagres são operados está completamente além de qualquer investigação e, contudo, essas coisas que não podem ser compreendidas devem ser reverenciadas com fé. Que Deus ouça de todos aqueles que estão maravilhados: ‘Sei que podes tudo,e que nenhum projeto é, para ti, demasiadodifícil’, Jó 42,2” (p. 56-57).

Que é isto? É o sentido espiritual do maná: “Nestes assuntos, no entanto, nossa discussão tem sido sobre coisas sensíveis. Mas, para nós, que estamos especialmente ansiosos para buscar a verdade, é necessário investigar mais de perto qual pode ser a interpretação decorrente da contemplação espiritual, ou quais figuras da lei essas coisas podem significar.  (...) Está escrito: ‘Aconteceu, pois, de tarde, virem codornizes, que cobriram os acampamentos: pela manhã, havia uma camada de orvalho em roda dos acampamentos. Quando esta camada de orvalho apareceu no deserto, uma coisa miúda, granulosa, se evaporou, à semelhança de geada sobre a terra. Tendo visto isto os filhos de Israel, disseram entre si: Que é isto? De fato, não sabiam o que era. Moisés disse-lhes: ‘este é o pão que o Senhor vos dá para comer’”.

Que é isto? Trata-se da comunhão de todos os bens que o Senhor Deus oferece a seu povo, seus ensinamentos, sua Palavra, suas bênçãos: “Agora, consideremos o maná como sombra e figura dos ensinamentos e dos dons espirituais dados por meio de Cristo, coisas que vêm do alto do céu e nada têm de terreno, nem estão contaminadas com abominações carnais. Verdadeiramente, estes não são os alimentos apenas dos homens, mas também dos anjos. Pois, em si mesmo, o Filho nos manifestou o Pai, e por meio d'Ele passamos a crer no ensinamento sobre a sagrada e consubstancial Trindade, e fomos bem e verdadeiramente guiados em todos os caminhos da virtude. Portanto, o conhecimento correto e inadulterado dessas coisas é, de fato, alimento espiritual.O suprimento dos ensinamentos de Cristo foi dado, por assim dizer, à luz do dia. Igualmente, o maná foi dado aos antigos ao amanhecer, quando a luz começou a brilhar. Portanto, para nós que cremos, o dia amanheceu, como está escrito: ‘A estrela da manhã se ergueu em todos os nossos corações’, 2Pd 1,19, e ‘o sol da justiça apareceu’, Ml 4, 2, isto é, Cristo, o doador do maná espiritual. Pois aquele maná físico era, por assim dizer, uma imagem, mas Cristo é o verdadeiro maná. Isso é certo pelo que Ele disse aos judeus: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que qualquer um dele coma, não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que darei é a minha carne, a qual darei pela vida do mundo’, Jo 6, 49-51” (p. 60).

Por tudo isso, podemos concluir que a mensagem espiritual do maná, que nos vem do Êxodo, forma uma unidade que culmina com a bênção da comunhão: “Nosso Senhor Jesus Cristo provê o alimento para a vida eterna, tanto por seus conselhos, que conduzem à piedade, quanto pela bênção mística [a Eucaristia]. Portanto, Ele mesmo verdadeiramente é, e por meio d'Ele vem, o maná divino e vivificante. E aquele que come este maná, o qual está livre de corrupção, escapa da morte, não, contudo, aqueles que comeram o maná material. Pois a figura não foi capaz de salvar, mas era apenas aparência da realidade. Tendo enviado o maná como chuva do alto, Deus ordenou que cada um juntasse o quanto fosse necessário (...). Assim, tanto aos grandes como aos pequenos, Cristo concede a graça de si mesmo na mesma medida, e da mesma forma nos supre a todos para que tenhamos vida. Além disso, Ele deseja que aqueles que são mais fortes se reúnam pelos outros, trabalhem em favor de seus irmãos,  lhes conceda o benefício de seus labores e  também se tornem participantes dos dons celestiais. E isso, creio, é exatamente o que foi dito aos santos apóstolos: ‘De graça recebestes, de graça dai’, Mt 10, 8. Quando estes juntam muito maná para si, ficam ansiosos para compartilhá-lo com aqueles que vivem na mesma tenda, isto é, a Igreja(p. 61).

            Que é isto, enfim? É vida do Corpo de Cristo, que abraça os pequenos e os grandes; Corpo que agrega povos ‘do Oriente e do Ocidente’, Mt 8, 11, ontem, hoje e pelos séculos, Hb 13, 8.

 

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Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio

 

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