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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/04/2021

13 de Abril de 2021

Haimo de Halberstadt: o Nome do Rei

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Haimo de Halberstadt: o Nome do Rei

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18/03/2021 00:00 - Atualizado em 23/03/2021 15:23
Por: Redação

Haimo de Halberstadt: o Nome do Rei 0

A diocese alemã de Halberstadt foi um principado episcopal criado na Idade Média e extinto em 1648. Haimo de Halberstadt nasceu por volta de 780, entrou jovem na abadia de Fulda, onde residiu e ensinou por algumas décadas. Tornou-se bispo de Halberstadt em 840 por vontade do imperador Ludwig II. Com Rábano Mauro, foi discípulo de Alcuíno e um dos escritores mais ilustres de seu século. Em outubro de 847, participou do terceiro Concílio de Mogúncia, presidido por Rábano Mauro, que acabara de ser promovido a arcebispo de Mogúncia. Faleceu em 853. Escreveu, sobretudo, comentários às Escrituras, como: ‘Sobre Isaías’, ‘Sobre os Doze Profetas’, ‘Sobre as Epístolas de Paulo’, ‘Sobre o Apocalipse’ e ‘Sobre os Salmos’.

‘Tem piedade de mim, ó Deus’ (v. 3). O tema deste Salmo é Davi penitente, o rei que se humilha em razão do grave pecado que cometera. Haimo divide-o em cinco partes: 1) a humildade de Davi; 2) sua confiança em Deus; 3) o reconhecimento de que Deus não olha nossos pecados; 4) a Igreja que deve oferecer a Deus um sacrifício agradável, isto é, igualmente humilde; 5) a reconstrução da Igreja em Cristo. A intenção deste salmo é, pois, confessar que por mais grave que sejam nossas faltas, se quisermos nos converter a Deus, não desesperemos, porque a misericórdia de Deus é inefável e, por isso, essas primeiras palavras do versículo 3 querem dizer: “olha-me, Senhor, com olhos de misericórdia, reformando-me, pois não pretendo mérito algum, mas peço tua piedosa misericórdia” (Haimo de Halberstadt, ‘Comentarius in Psalmos’, in: Migne, J.-P.“Patrologia Latina’. Paris, 1852,vol. 116, col. 369, tradução nossa). E “o profeta diz corretamente, ‘segundo a tua grande misericórdia’, pois ele prevê, no Espírito Santo, que o Filho seria dado à morte para a redenção do gênero humano” (ibid.). Assim, testemunha a história dos nossos pais, pois o Pai dispensou muita misericórdia a todos os que a Ele se queriam converter. A intenção, pois, deste salmo é a conversão dos corações a Deus.

Haimo inicia seu comentário à primeira parte do salmo com a lembrança da posição de Davi: como rei, como maior autoridade do povo, somente a Deus ele pode confessar sua falta. Este importante detalhe não pode ser dissociado de Davi como figura de Cristo, pois também o Cristo se dirige diretamente ao Pai, neste caso, para interceder por nós. Diz Davi: ‘Lava-me inteiramente da minha culpa, purifica-me do meu pecado, porque eu reconheço a minha maldade, e o meu pecado está sempre diante de mim’ (v. 4-5). E a consciência de estar só, como rei, diante de Deus: ‘Pequei contra ti só, fiz o que é mau diante dos teus olhos, para que te manifestes justo na tua sentença’ (v. 6). Somente Deus pode dar a sentença ao rei. Por outro lado, o rei despoja-se de seu poder diante de Deus, apresenta-se na mais profunda humildade. E, ainda, comenta Haimo, Davi reconhece que somente Deus tem o poder de perdoar os pecados.

A partir dessa confissão de seus pecados, Davi prossegue numa confissão de fé. Assim se inicia a segunda parte deste salmo, com uma declaração de confiança em Deus:‘Asperge-me com o hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e me tornarei mais branco que a neve’ (v. 9). “O hissopo, qual erva humilde, representa a humildade pela qual Cristo derramou seu sangue e pela qual nós pelo mesmo sangue recebemos a fé, e como o hissopo penetra a pedra e expulsa o tumor do pulmão, assim a humildade penetra o nosso coração de pedra e expulsa o tumor da soberba, conforme se pede: Asperge-me com o hissopo, isto é  com o sangue de Cristo, com humildade derramado, e com humildade por mim recebido e, assim, ‘ficarei limpo’ dos meus pecados, e não somente ficarei limpo com esta aspersão, mas também receberei o candor das virtudes: ‘lava-me’ naquele sangue e ‘ficarei branco’, isto é a brancura que receberei é maior do que a da neve, isto é, mais do que a brancura de qualquer corpo” (Haimo de Halberstadt, ‘Comentarius in Pslamos’..., col. 370).

No versículo 11, um pedido que é o reconhecimento de que Deus não olha os nossos pecados:‘Aparta o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas’.Assim se inicia esta terceira parte, que prossegue até o versículo 14, com uma série de imprecações confiantes: ‘Cria em mim, ó Senhor, um coração puro...; ...não retires de mim o teu Espírito Santo; dá-me a alegria da tua salvação...’ Todas estas imprecações revelam, na verdade os dons com que Deus nos cumula, antes mesmo de ver os nossos pecados.

Quarta parte. O coração contrito é que permite que ensinemos aos outros os caminhos do Senhor. Isto significa que a doutrina não nasce do coração e da inteligência humana, e que, ao contrário, somente aquele que se esvaziou do tumor da soberba, portanto, se converteu a Deus, é capaz de ensinar o que é de Deus: ‘Ensinarei aos iníquos os teus caminhos,e os pecadores se converterão a ti... Senhor, abrirás os meus lábios, e a minha boca anunciará os teus louvores... O meu sacrifício é um espírito contrito, ...um coração contrito e humilhado’ (v. 15-19). Haimo insiste: “se eu for libertado, a minha língua exultará a tua justiça, e ‘Senhor, abre os meus lábios’, isto é, torna falantes os meus lábios e ‘minha boca anunciará o teu louvor’, isto é, ainda que muito fale, tudo será para teu louvor” (Haimo de Halberstadt, ‘Comentarius in Pslamos’...col. 372).

A quinta parte inicia-se no versículo 20: ‘Senhor, sê benigno com Sião por tua bondade, reconstruindo os muros de Jerusalém’. Esta benignidade divina que permite que se ofereçam os sacrifícios sagrados, pois não brotam do mérito do penitente: ‘Então, aceitarás os sacrifícios legítimos, as oferendas e os holocaustos; então, se oferecerão bezerros sobre o teu altar’. Os muros de Jerusalém são os muros da Igreja. A Igreja é reconstruída, isto é, renasce quando seus membros são renovados pela benignidade de Deus, que, neste salmo, se manifesta pela misericórdia que não vê o pecado nem o holocausto oferecido, mas a atitude de quem se apresenta diante dele. Santo Agostinho dissera o mesmo sobre este versículo: “Vê quem está aqui: Davi parece estar orando sozinho, porém vê aqui a nossa imagem e o tipo da Igreja. Mostra-te bondoso, Senhor, em tua bondade para com Sião. Trata Sião benignamente. Quem é Sião? É a cidade sagrada. Qual é a cidade sagrada? É a cidade que está situada na montanha e que não pode ficar escondida. Sião contempla, porque vê algo que espera. Na verdade, Sião significa contemplação e Jerusalém uma visão da paz. Portanto, reconhecei-vos em Sião e em Jerusalém, e esperai com confiança a esperança futura, se estais em paz com Deus, e que os muros de Jerusalém sejam construídos. Sê bom, Senhor, na tua bondade para com Sião, e que os muros de Jerusalém sejam construídos. Que nenhum crédito seja dado a Sião, mas mostra-te gentil com ela. Que os muros de Jerusalém sejam construídos. Que as fortalezas da nossa imortalidade sejam construídas, na fé, na esperança e na caridade” (Agostinho, ‘Enaraciones sobre los Salmos’, Vol. 1. Madri: Bac, 1964, p. 269, tradução nossa).

            Este salmo, dividido em cinco partes por Haimo, é como um novo pentateuco, e poderia ser recitado por qualquer um ainda que não soubesse da história do rei Davi. Com efeito, sua estrutura e beleza poética falam por si sós, têm uma linguagem universal, exprimem paradoxalmente a conversa íntima de cada homem com Deus. Por isso mesmo, um homem da estatura social de Davi, o rei de uma nação, iguala-se a todos os homens diante de Deus. O profeta Natan, conforme o ícone aqui ao lado, exorta o rei à penitência. O rei humilha-se diante de Deus, rebaixa-se. Esta cena também pode ser vista como figura da encarnação do Verbo: ‘Jesus Cristo não Se apegou ciosamente à Sua igualdade com Deus, mas esvaziou-Se, fez homem...’ Sofreu a morte, pois o grão de trigo deve morrer, como ele mesmo diz no Evangelho, porém, ‘Deus O exaltou e Lhe deu um nome acima de todo nome’ (Fl 2,6-11). O nome mais elevado naquela nação era o de Davi, mas este se humilhou; o nome mais elevado acima de todos os nomes é o de Jesus Cristo, mas ele se humilhou até a morte e, por isso, ressuscitou. Os cristãos receberam dele o nome.

https://pbs.twimg.com/media/EcFs6s2U8AIl8Wa.jpg

Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio


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