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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/04/2021

13 de Abril de 2021

O Sacramento da Penitência: Celebração da ‘Páscoa de Cristo’

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13 de Abril de 2021

O Sacramento da Penitência: Celebração da ‘Páscoa de Cristo’

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18/03/2021 00:00 - Atualizado em 23/03/2021 15:13
Por: Redação

O Sacramento da Penitência: Celebração da ‘Páscoa de Cristo’ 0

O Sacramento da Penitência: Celebração da ‘Páscoa de Cristo’ e Percurso de ‘Reconciliação’ e ‘Conversão’ pessoal e eclesial.

Padre doutor Pedro Paulo Alves dos Santos

O Senhor Jesus Cristo, médico das nossas almas e dos nossos corpos, que perdoou os pecados ao paralítico e lhe restituiu a saúde do corpo quis que a sua Igreja continuasse, com a força do Espírito Santo, a sua obra de cura e de salvação, mesmo para com os seus próprios membros. É esta a finalidade dos dois sacramentos de cura: o sacramente da Penitência e o da Unção dos enfermos (CIC, 1421).

 

1. O Pecado, a Misericórdia Divina e a Reconciliação

Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

            No contexto litúrgico da Quaresma, que se conclui passo a passo, é mister explorar a centralidade deste gesto pessoal e Eclesial de reconciliar-se com Deus, com a Igreja, e com os irmãos.

            Estes quarentas dias, de peregrinação eremítica, de jejum e de tentação, têm como objetivo no Plano de Deus, como em Israel em figura, reconduzir-nos a Deus, restaurar a ‘amizade perdida’, salvar nossas almas da ‘morte e do castigo’ eternos.

            De um lado, ainda nesta vida, os sacramentos possuem, como ‘economia sacramental’ o poder de mudar ‘aqui e agora’, nosso destino eterno, do mal e do pecado, para a graça e a Salvação.

Do outro, é bem verdade que pela celebração da Eucaristia, os fiéis que dela participam neste mundo, podem por uma especial ‘solidariedade’ compartilhar o Perdão e a Comunhão com os mortos no purgatório, assegurando-lhes as ‘indulgências’, tão necessárias à consecução da Salvação das almas.

Segundo o CIC 1422, ‘Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e, ao mesmo tempo, são reconciliados com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversão’.

A obtenção da Misericórdia. Deus ofendido pela nossa escolha pervertida em desobedece-lo, revela-nos a imensidade do seu Amor (Ser de Deus), pois gratuitamente, ‘a priori’, não esperando nada de nossas fragilidades, dispensa o Perdão e o retorno à Comunhão com Ele, a nossa reintegração.

Uma página icônica deste Amor, da grandeza de Deus em relação à nossa infidelidade e desobediência, nossa livre participação no ‘Mysterium Iniquitatis’ (2 Ts 2.3) é a Parábola do Filho Pródigo’ (Lc 15, 11-32).

Nas estupendas palavras do saudoso Papa João Paulo II, no documento Pós-Sinodal ‘Reconciliatio et Paenitentia’ (1984) o significado desta Parábola ultrapassa a ação e desemboca na Revelação da identidade mesma de Deus em relação a nós:

A parábola do filho pródigo é, antes de mais, a história inefável do grande amor de um Pai — Deus — que oferece ao filho, que a Ele retorna, o dom da reconciliação plena. (RP 6).

À esta acão pecaminosa, desobediente e insolente do filho mais novo que feriu a relação com Deus (o Pai) e com seu ‘rancoroso’ irmão corresponde um gesto inusitado, ao invés do castigo, da rejeição e do abandono às consequências do mal perpetrado, encontramo-nos diante do abraço paterno e da restituição da dignidade perdida.

É preciso ainda pensar que se somos ‘capazes’ de pecar, somos incapazes do restaurar a inocência e a ordem, isto é um Dom e depende do Deus ofendido, mas amoroso.

A situação do homem no pecado reflete-se muito bem no ensinamento do Papa João Paulo II ao afirmar que:

O Homem, — cada um dos Homens — é este filho pródigo: fascinado pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai (RP 5).

Neste horizonte o Cristo com sua Morte e Ressurreição restitui-nos dignidade, paz e comunhão, com Deus e com os irmãos.

Esta ação de Deus em Cristo, desde Pentecoste perpetua-se eficazmente na Igreja, ela mesma ‘Sacramento de Reconciliação’ para o mundo no pecado e no arrependimento. Como reza o Sl. 135:

Lembrou-Se de nós, humilhados na desgraça: é eterna a sua bondade. E libertou-nos dos nossos opressores: é eterna a sua bondade. Ele dá o alimento a todo o ser vivo: é eterna a sua bondade. Dai graças ao Deus do céu: é eterna a sua bondade.

Antes de aprofundarmos o sacramento da Penitência ou da ‘Cura’, é preciso sublinhar a gravidade da doença e de seus devastadores efeitos sobre nossa relação com Deus e com os irmãos, além da ´ferida’ íntima na alma, pois o pecado é a exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua existência: é o fenômeno chamado ateísmo.

E dado que com o pecado o homem se recusa a submeter-se a Deus, também se transtorna o seu equilíbrio interior; e, precisamente no seu íntimo, irrompem contradições e conflitos (RP 14).

 

2. O Sacramento da Penitência

Ora este poder de perdoar os pecados Jesus confere-o, mediante o Espírito Santo, a simples homens, sujeitos também eles próprios à insídia do pecado, isto é, aos seus Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes ficar-lhes-ão retidos». Esta é uma das mais formidáveis novidades evangélicas! Jesus confere tal poder aos Apóstolos também como transmissível — assim o entendeu a Igreja desde o seu dealbar — aos seus sucessores, investidos pelos mesmos Apóstolos na missão e na responsabilidade de continuar a sua obra de anunciadores do Evangelho e de ministros da obra redentora de Cristo (RP 29)

            Segundo o CIC 1423-1424, há uma lógica teológica própria neste Sacramento, sua eficácia, sua celebração da parte de ministros e fiéis que precisa ser compreendida, e assimilada de modo a usufruirmos de seus efeitos ‘salutares’:

É chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai da qual o pecador se afastou pelo pecado. É chamado sacramento da Penitência, porque consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador (CIC 1423).

            ‘(…) sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão’ esta ação própria da Igreja torna eficaz o primeiro apelo do Quérigma de Jesus

Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho (Mc 1, 14s).

            Mudança de rumos e de conduta. Apelo bimilenar de Deus a Israel pelos Profetas, que agora cumpre-se escatologicamente em Jesus, o Reconciliador:

Por isso, agora ainda – oráculo do Senhor –, voltai a mim de todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes; voltai ao Senhor, vosso Deus, porque ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, pronto a arrepender-se do castigo que inflige (Jl 2, 12-13).

Deste modo, o sacramento inicia-se na alma e na consciência dos que acolhem este dramático apelo ‘fazei penitência e crede no Evangelho’. Ir ao confessionário é o passo seguinte ao acolhimento de uma clara consciência de pecado e de grave perigo de morte ‘eterna’.

Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado. Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento. Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado (Sl 50, 5-7).

A celebração sacramental ratifica na alma do penitente um ‘processo sanatório’, pois age ritual e eficazmente, de modo pessoal e eclesial, como um equivalente mecanismo de conversão pessoal, de renúncia à lógica nefasta do diabo, na persistente desobediência a Deus.

Uma ação conjunta e sincrônica.

De um lado, um ato humano, nossa consciência do mal, do erro e de engodo do pecado, a renúncia ao destino de perdição, do outro, um ato Divino, perdão, que surge das ‘entranhas de nosso Deus’, como diria Zacarias. ‘Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus’ (Lc 1, 78).

Trata da redenção da ‘liberdade’, que paradoxalmente levara ao pecado. ‘(…) sacramento da Penitência, porque consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador’.

            O Sacramento é a ação redentora e eficaz da Páscoa de Cristo em nós, pois que que funda a ‘existência cristã’, pelo Batismo, que é a porta dos Sacramentos. Cada Sacramento no decorrer da nossa existência, cristianiza e torna-a autêntica, pois semelhante a Cristo, vivemos e peregrinamos na direção da ‘Verdade e da Vida’.

É chamado sacramento da confissão, porque o reconhecimento, a confissão dos pecados perante o sacerdote é um elemento essencial deste sacramento. Num sentido profundo, este sacramento é também uma «confissão», reconhecimento e louvor da santidade de Deus e da sua misericórdia para com o homem pecador. E chamado sacramento do perdão, porque, pela absolvição sacramental do sacerdote. Deus concede ao penitente «o perdão e a paz» (CIC 1424).

            Comumente chamado de ‘confissão’, porque ‘o reconhecimento, a confissão dos pecados perante o sacerdote é um elemento essencial deste sacramento’. Daí não ser razoável dizer, como se ouve, inclusive entre as fileiras dos católicos; ‘eu me confesso diretamente com Deus’. Jesus Pascal, fonte e conteúdo dos Sacramentos é quem declara. ‘Ninguém vai ao Pai senão por mim’ (Jo 14, 6; Lc 10,22). E o regime do Encontro do Pai pelo Filho é exclusivamente sacramental, como se vê na passagem de Emaús, Lc 24,30s:

Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho. Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu

            Outro elemento que a Igreja nos ensina sobre o Sacramento da ‘confissão’ é a ocasião de proclamar a ´glóriosa Bondade e Santidade divinas’ por ocasião de nossa imersão sacramental: ‘«confissão», reconhecimento e louvor da santidade de Deus e da sua misericórdia para com o homem pecador.’

            Nossa confissão deve ser frequente e profunda, não esquecendo-se que os pecados ‘veniais’ (cotidianos), aqueles que, ao contrário dos ‘mortais, (contra os mandamentos de Deus e da Igreja) não ferem de modo tão profundo a ‘amizade com Deus’, mas maculam o ‘Estado de Graça’ da alma, devem ser também confessados com acuidade.

            Por fim, este sacramento é celebrado, da parte do fiel católico com profunda ‘contrição’, assim diz a Igreja:

Entre os atos do penitente, a contrição ocupa o primeiro lugar. Ela é «uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro» (CIC 1451).

            Diz o Catecismo que o ‘exame de consciência’ é indispensável a uma eficaz aproximação deste sacramento. Não se celebra bem a confissão sem dar vazão a esta ‘dor da alma’ que reconhece e enumera nossas péssimas e dissimuladas ações:

É conveniente que a recepção deste sacramento seja preparada por um exame de consciência, feito à luz da Palavra de Deus. Os textos mais adaptados para este efeito devem procurar-se no Decálogo e na catequese moral dos evangelhos e das cartas dos Apóstolos: sermão da montanha e ensinamentos apostólicos (CIC 1454).

            Para concluir, ‘last but not least’ (ultimo, mas não menos importante), a satisfação, comumente chamada de ‘penitência. Hoje, quase reduzida à recitação de orações, muitas vezes breves.

Muitos pecados prejudicam o próximo. Há que fazer o possível por reparar esse dano (por exemplo: restituir as coisas roubadas, restabelecer a boa reputação daquele que foi caluniado, indemnizar por ferimentos). A simples justiça o exige. Mas, além disso, o pecado fere e enfraquece o próprio pecador, assim como as suas relações com Deus e com o próximo. A absolvição tira o pecado, mas não remedeia todas as desordens causadas pelo pecado. Aliviado do pecado, o pecador deve ainda recuperar a perfeita saúde espiritual. Ele deve, pois, fazer mais alguma coisa para reparar os seus pecados: «satisfazer» de modo apropriado ou «expiar» os seus pecados. A esta satisfação também se chama «penitência» (CIC 1459).

            Trata-se da ‘reparação’ das ofensas a Deus, a sua Glória e Santidade e ao devido amor fraterno. Desfazer o que realizara no regime do pecado para não deixar na alma, a ‘manchas da culpa’, que nos levarão ao ‘purgatório’.

Este sacramento com suas ações prévias e posteriores, desde o ‘exame de consciência’ até a ‘reparação penitencial’ nos recoloca nos afetuosos braços do Pai, e na bem-aventurada Comunhão dos Santos.

            É o caminho seguro a santa Páscoa litúrgica, anual e semanal, e por fim, para celebrarmos dignamente a Páscoa Definitiva e eterna.

Neste sacramento, o pecador, remetendo-se ao juízo misericordioso de Deus, de certo modo antecipa o julgamento a que será submetido no fim desta vida terrena. É aqui e agora, nesta vida, que nos é oferecida a opção entre a vida e a morte. Só pelo caminho da conversão é que podemos entrar no Reino de onde o pecado grave nos exclui? (78). Convertendo-se a Cristo pela penitência e pela fé, o pecador passa da morte à vida «e não é sujeito a julgamento» (CIC 1470).


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