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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/04/2021

13 de Abril de 2021

A Irmandade do Patriarca São José e seu culto no século XVIII

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A Irmandade do Patriarca São José e seu culto no século XVIII

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18/03/2021 00:00 - Atualizado em 23/03/2021 15:09
Por: Redação

A Irmandade do Patriarca São José e seu culto no século XVIII 0

A proximidade do dia 19 de março, assim como o estabelecimento do Ano de São José pelo Papa Francisco, nos permite refletir sobre como o calendário católico tem sido uma espécie de cunha da nossa sociedade e da nossa cultura. Além disso, é boa ocasião para tratarmos, brevemente, da história de uma das mais antigas, ainda ativa, irmandade na cidade do Rio de Janeiro.

O surgimento da irmandade está associado à Igreja de São José, cuja ermida é de c. 1608. Em 1633, foi reconstruída, mas o templo atual situado na Rua 1º de março é de 1842. A irmandade, como muitas outras da cidade do Rio de Janeiro, é uma instituição católica e leiga que se organizava em torno da devoção do santo, comparticipando de outras festas religiosas. Mas era também uma irmandade de ofícios, formada por carpinteiros, pedreiros, marceneiros, canteiros e outros ofícios anexos, acessíveis a livres, mas também executados por escravos. Esse tipo de irmandade participava do controle sobre a produção e o comércio de produtos realizados pelos artífices que congregavam.

A Irmandade de São José do Rio de Janeiro seguiu o modelo da sua congênere de Lisboa, apesar de ter se diferenciado da reinol, principalmente no século XVIII. Em Lisboa, a irmandade surgiu em 1503, associada aos carpinteiros e pedreiros, e adotou, posteriormente, o santo como patrono. Em 1545, adquiriu templo próprio, as expensas dos agremiados. Seu crescimento foi incrementado pelo terremoto de 1531, pois a calamidade demandou o trabalho de reconstrução realizado por aqueles artífices. No terremoto de 1755, cuja memória permanece viva, pelos diversos impactos causados não apenas na sociedade portuguesa, a irmandade adquire ainda maior importância. Para além da demanda dos artífices – que incluiu desde o enterramento dos corpos insepultos até a reconstrução da Baixa Lisboa –, a única capela remanescente do templo passou a abrigar a Casa dos Vinte e Quatro, uma instituição que representava os artífices na Câmara Municipal e lhes assegurava algumas prerrogativas e honra.

O culto de São José é difundido após o Concílio de Trento (1545-1563). Esse longo Concílio foi um marco da reforma católica, inclusive quanto ao seu posicionamento frente ao protestantismo. Nele, o papel dos santos como intercessores privilegiados, junto a Deus, foi reforçado e o matrimônio tornou-se um sacramento. São José era um santo relativamente secundário durante a Idade Média, como se pode observar na iconografia. Um exemplo de fins deste período é o tríptico Adoração dos Reis Magos de Hieronymus Bosch (1450-1516). São José está na lateral, cuidando das vestes de Jesus. O teológo Jean Gerson (1363-1429) se destacou na promoção de São José, mas apenas 50 anos após a sua morte, em 1479, o Papa Sisto IV tornou o 19 de março, dia do santo.

Entretanto, pode-se observar que o santo é não só reabilitado entre fins do século XV e XVI. Ele adquire centralidade e seu culto é difundido na Europa, particularmente na Espanha dos Habsburgo e, consequentemente, em Portugal.  Isso está relacionado, como já indicado, com perspectivas que vigoram a partir de Trento. São José é um culto cristocêntrico e passa a representar importante papel na Sagrada Família, um modelo na longa transformação da família alargada em família nuclear. Esposo de Maria, que concebeu sem pecado, contribuía para a ideia de uma aliança espiritual. Além disso, é um pai zeloso e presente. A partir do século XVII, particularmente na pintura e escultura ibérica, ocorre a difusão dessa representação da Sagrada Família, encontrada também na Igreja do Patriarca São José do Rio de Janeiro. No conjunto escultórico, pode-se observar a Virgem, o menino e São José carregando as flores da amendoeira, símbolo da virgindade dos esposos. São José também contribui para a ideia de trabalho honesto e honroso. Por fim, gostaria de lembrar que ele é também patrono da boa morte. Considerando sua inevitabilidade, veicula a ideia de uma morte cristianizada, ou seja, sacramentada, ritualizada e acompanhada.

A difusão do culto de São José é atestada pelo hábito de se atribuir o seu nome a pessoas, a instituições e a lugares. O rei português D. João V, devoto do santo, nomeou seu filho José. Esse foi o caso da freguesia que se desenvolveu em torno da Igreja de São José, em Lisboa, em 1567.

Em 1752, D. Antônio do Desterro, bispo do Rio de Janeiro (1745-1773), num relatório enviado à Santa Sé, descreveu em detalhes o estado da diocese do Rio de Janeiro. Nele, mencionou a Freguesia de São José, onde se situava a igreja e a irmandade. A freguesia fora criada pelo mesmo em 1749, quando então a cidade passou a ter quatro paróquias: Sé, Nossa Senhora da Candelária, Santa Rita e São José. Esta última, segundo o bispo, continha 7.440 paroquianos, quando a cidade no momento em que assumira o cargo tinha 24.379 homens de comunhão, ou seja, acima de 7 anos. Dividiam o espaço da igreja seis confrarias, entre elas a do padroeiro de São José.

A história da irmandade apresenta pontos ainda obscuros, mas sabemos que sua história se mistura com a Irmandade de São José de Lisboa. Em 1744, o juiz e irmãos que administravam a irmandade do Rio de Janeiro enviaram ao reino um requerimento para fazer uso de mesmo compromisso dos carpinteiros e pedreiros de Lisboa, solicitando poder eleger seus juízes, já que na cidade não havia Casa dos Vinte e Quatro. O compromisso de 1709 lisboeta foi adotado, assim como algumas normas sobre o trabalho dos seus ofícios, como a proibição de tomar ofício alheio, a obrigatoriedade de exame do ofício para ter acesso à carta de ofício e um número máximo de dois aprendizes por mestre. Contudo, alguns pontos serão alvo de disputa nos anos vindouros entre os irmãos de São José e a Câmara.

Nas Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, Vieira Fazenda (1875-1917) diz que na cidade o dia do santo era celebrado com luminárias, fogos de artifício e cabeças de alcatrão. Talvez haja algum exagero na descrição pelo memorialista, que é impreciso na composição social da irmandade. Podemos assegurar que a irmandade gozava de grande prestígio, como em Portugal. Em Lisboa, por sua antiguidade tinha precedência na ordenação de Corpus Christi. Na procissão do Rio de Janeiro de 1772, participavam 28 irmandades, organizadas em “alas” de cada freguesia, com seus estandartes e símbolos. Na Freguesia de São José, a irmandade do santo era a sexta. Corpus Christi era um rito político religioso obrigatório, sancionado pela própria irmandade no seu surgimento e, em 1808, pois os irmãos solicitaram ao rei que aumentasse a multa aplicada aos irmãos que dela se ausentassem. O rito previa a participação das autoridades leigas e religiosas, das comunidades religiosas e das irmandades, ordenando-se do menos ao mais importante socialmente.

Na linguagem informal, Zé (abrev. de José) é um anônimo; Zé-ninguém, um destituído de importância social. Tomara José seja evocado para amenizar os valores hierárquicos que permeiam a nossa sociedade. Que os ideais de solidariedade mútua, assistência aos desvalidos e honra ao trabalho, que inspiravam no passado os irmãos de São José, se reestabeleçam, para que a vida prospere.
 
Beatriz Catão Cruz Santos
Doutora pela UFF, 2001
Professora de história moderna da UFRJ e membro do PPGHIS



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