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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/04/2021

13 de Abril de 2021

‘Cuidar do sacerdote é cuidar do próprio Cristo’

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14/03/2021 00:00 - Atualizado em 15/03/2021 15:30
Por: Redação

‘Cuidar do sacerdote é cuidar do próprio Cristo’ 0

Quem visita o Palácio São Joaquim, na Glória, a residência episcopal, certamente, se depara com religiosas sorridentes e bem animadas. As religiosas fazem parte do Instituto de Nossa Senhora do Bom Conselho, fundado por Madre Maria Bernadete, no dia 31 de julho de 1963, no próprio palácio episcopal, com as bênçãos do então arcebispo, Cardeal Jaime de Barros Câmara. 

A congregação de direito diocesano nasceu com o carisma de rezar e imolar-se pelos sacerdotes, conforme o chamado que a fundadora recebeu: “por eles eu me consagro” (Jo 17,19), e que teve continuidade com as demais religiosas, hoje presente em várias dioceses, tendo a sede na cidade de Maricá, pertencente à Arquidiocese de Niterói (RJ).  Na Arquidiocese do Rio de Janeiro estão presentes no Palácio São Joaquim, Seminário São José, Casa do Padre, Centro de Estudos e Formação do Sumaré, Morro Santa Marta e Colégio Santo Inácio.

As irmãs do Bom Conselho dedicam suas vidas à oração constante pela santificação dos sacerdotes, mas, também, a exemplo de Marta, irmã de Maria e de Lázaro, elas cuidam, zelam e servem a Cristo na pessoa de cada sacerdote ou bispo.

Quando o Cardeal Eusébio Oscar Scheid chegou ao Palácio São Joaquim para governar a Arquidiocese do Rio, no dia 22 de setembro de 2001, ele foi acompanhado por uma comunidade de irmãs do Bom Conselho, entre elas a irmã Maria Evangelina de Jesus, e também, a irmã Zilá de Carvalho.

“Dom Eusébio tinha um carinho especial por nós religiosas. Ele sempre perguntava como estava a nossa vida espiritual, que livros estávamos lendo, como estava nossos familiares. Além de acompanhar, ele também investia em formação acadêmica, quando alguma das irmãs queria estudar. Ele prestava tanto a atenção em nós, que quando não estávamos bem, ele sentia e perguntava o que estava acontecendo”, contou irmã Zilá, que até hoje continua trabalhando no Palácio São Joaquim. 

Já irmã Evangelina, além de trabalhar com Dom Eusébio por mais de oito anos, enquanto arcebispo titular do Rio, também o acompanhou no período em que ele residiu em São José dos Campos (SP), sua primeira diocese, como arcebispo emérito, por quase 12 anos, até o seu falecimento no dia 13 de janeiro de 2021.

“É com muita alegria e louvor a Deus que homenageamos Dom Eusébio, que passou em nossas vidas, deixou marcas e agora lá do céu continua cuidando de nós. Cuidar de um sacerdote - como dizia nossa fundadora, Madre Maria Bernadete,  é cuidar do próprio Cristo”, afirmou irmã Maria Imaculada de Jesus, que também acompanhou Dom Eusébio desde a ida para São José dos Campos, quando ele foi nomeado bispo emérito, até a sua partida para a eternidade.

Após atingir os 75 anos, Dom Eusébio renunciou ao ofício – conforme estabelecido pelo Código de Direito Canônico – e ao ser aceito pelo Santo Padre passou a ser arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Por sua iniciativa, decidiu residir em São José dos Campos, onde foi o primeiro bispo.

Dom Eusébio também manifestou o desejo de levar quem sempre esteve ao seu lado nos momentos de alegria, mas também difíceis: irmã Evangelina. “Quando ele se tornou emérito, nos chamou para acompanhá-lo e pediu permissão à Madre Bernadete, que autorizou. Ele dizia que só o deixaríamos após sua morte e foi o que aconteceu. Foi um presente cuidar dele, porque vivíamos como irmãos”, declarou.

Nesse período, irmã Imaculada atuava junto à madre Maria Bernadete, na sede  no instituto. Porém, seu maior desejo era servir a Cristo, presente nos sacerdotes. “Quando eu era mais jovem, vocacionada, eu olhava as irmãs mais experientes, trabalhando nas casas dos padres, bispos e seminário, e sentia o desejo de realizar o mesmo. Sempre trabalhei de forma direta com nossa fundadora. Eu queria trabalhar com os padres e os bispos, e deu certo, quando surgiu a oportunidade de acompanhar Dom Eusébio”, contou.

De acordo com irmã Evangelina, “o trabalho com os bispos e padres é de santificação e mortificação. É um serviço necessário, porque eles precisam de algum apoio e estamos ali para ajudar. Creio que essa ajuda faz com que eles se sintam mais seguros”, reforçou.

Um homem que amou a Deus e à Igreja
Na Diocese de São José dos Campos, Dom Eusébio e as irmãs permaneceram inicialmente, durante quatro meses, na casa do então bispo diocesano, Dom Moacir Silva, até que as instalações da casa onde morariam ficassem prontas. “Quando nos mudamos, cada dia era diferente. Dom Eusébio era uma pessoa que ia à mesa não só para comer, mas também para conversar, nos orientar. Era um mestre, um doutor, que estava conosco no dia a dia. Ele nos deixou um legado do amor a Deus, à Igreja e ao Santo Padre”, recordou irmã Imaculada.

Segundo irmã Evangelina, “ele era como um pai. Sempre acolhia a todos sem fazer distinção de pessoas. Vivíamos em comunidade, tanto nas refeições quanto nas orações e celebrações diárias. Era alguém que socorria a todos, como filhos amados de Deus. Ele sempre teve esse espírito paternal para com os padres e as irmãs do Bom Conselho”, lembrou.

Irmã Imaculada acrescentou que “Dom Eusébio nos passou a mensagem de que Deus é bom, aliás, esse era o lema dele. Sempre dizia que éramos uma comunidade. Ele participava conosco no dia a dia, e nunca deixou de rezar a Liturgia das Horas e o Terço. Víamos que ele também estava conosco em tudo, inclusive nas orações. As missas eram celebradas diariamente em nossa casa, e quando convidado, nas paróquias da diocese. Quando já não tinha mais forças, acompanhava as celebrações pela televisão, nunca deixando as orações em segundo plano”, frisou.

Em fevereiro de 2020, com o início da pandemia, as irmãs precisaram permanecer em casa e as visitas para Dom Eusébio, por segurança, foram suspensas. Em dezembro do mesmo ano, as consequências da idade avançada e da Doença de Alzheimer começaram a dar os primeiros sinais de que a vela da vida de Dom Eusébio, como disse irmã Imaculada, poderia estar se apagando.

Nesse período, houve uma piora no quadro de sua saúde. Ele já não tinha mais ânimo para fazer as refeições. “O dia 8 de dezembro, quando completou 88 anos de vida, foi que se sentiu um pouco melhor. Em momento algum ele ficou no leito, nós não deixávamos. Sempre o tirávamos da cama e fazíamos com que ele caminhasse um pouco pela casa, para aliviar as dores e também tomar banho de sol. Fizemos de tudo para que ele se sentisse bem”, ressaltou irmã Imaculada. Nesta época, duas outras religiosas do mesmo instituto vieram ajudar, as irmãs Maria Inês e Maria Letícia.
No dia 10 de dezembro, Dom Eusébio foi internado com pneumonia no Hospital Antoninho da Rocha Marmo, em São José dos Campos, administrado pelas Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, permanecendo em isolamento até o resultado da Covid-19. Ele testou negativo por duas vezes, sendo liberado para o quarto. As religiosas se revezavam dia e noite para cuidar de Dom Eusébio no leito hospitalar. O retorno para casa só aconteceu no dia 24, às vésperas do Natal, com home care e sonda, uma vez que ele já não conseguia mais se alimentar.

No dia 27 de dezembro, Dom Eusébio recebeu a visita do arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta. “Somos muito gratas a Dom Orani e a toda arquidiocese. Jamais o esqueceremos em nossas orações, porque ele nos deu todo suporte para que Dom Eusébio tivesse tudo o que necessitava. Além disso, ele estava sempre em contato conosco e visitou Dom Eusébio, durante a doença, por duas vezes. Nessa última, padre Márcio Luiz da Costa e irmã Zilá, também do instituto, o acompanharam. Era um momento quase que de despedida. Ele também recebeu a visita dos bispos auxiliares Dom Juarez Delorto Secco e Dom Tiago Stanislaw. Foram visitas confortadoras para nós”, recordou irmã Imaculada.

No dia 1º de janeiro de 2021, Dom Eusébio teve uma piora, com febre incessante. Nesse momento, a glicose passou de 500 mg/dl e foi necessária a ida ao hospital. Sem leitos disponíveis na UTI, ele foi transferido, por Providência Divina, para o Hospital São Francisco, em Jacareí.

“Nesse local, Dom Eusébio fundou a Comunidade Senhor da Vida. Atualmente, essa comunidade é responsável pelo hospital que, inicialmente, era uma maternidade. Mas, agora, é um hospital de referência na região. O hospital nasceu com Dom Eusébio e o então padre, hoje Dom Dimas Lara Barbosa, e, agora, o acolhia nos momentos finais de vida”, afirmou a religiosa.

Nesse mesmo período, ambas as religiosas testaram positivo para a Covid-19, o que as impediu de estarem ao lado de Dom Eusébio durante a internação. “os membros da Comunidade Senhor da Vida, que administram o hospital, cuidaram muito bem de Dom Eusébio, tal como um filho. Deus nos privou de estarmos no hospital, mas unimos nosso sofrimento ao sofrimento de Dom Eusébio e os entregamos todos nas mãos de Deus, para que Ele cuidasse de nós. No hospital, Dom Eusébio testou positivo para a Covid-19, no dia 2 de janeiro, e morreu no dia 13 de janeiro de 2021, às 12h25. O resultado só foi confirmado dois dias antes da morte”, declarou a irmã Imaculada.

Quando as religiosas receberam a notícia da morte de Dom Eusébio, segundo elas, houve uma forte chuva na região. “Parecia que o mundo ia acabar, porque houve raios, trovões e até o som da Catedral de São Dimas queimou. Parece que o céu queria nos avisar que chegaria alguém para fazer uma revolução. Não houve velório e o enterro aconteceu às 18h30, na cripta da Catedral de São Dimas, em São José dos Campos, cumprindo, assim, o desejo dele. Na hora do sepultamento, houve novamente uma forte chuva”, disse a religiosa.

De acordo com irmã Imaculada, “cuidamos dele não só nos momentos bons, mas no limiar de sua vida, quando chegou a doença e nos últimos momentos. Nos preocupamos se daríamos conta, mas Deus não nos abandonou. Ele nos deu forças, as mesmas que nos dera há 11 anos, para chegarmos com ele até o fim de sua vida. Dom Eusébio nos fez conhecer o coração de Deus. Ele tinha um amor muito grande à Eucaristia e nos deixou esse grande legado, para que, agora, possamos enfrentar a vida e ir aonde a congregação nos mandar, começando tudo de novo. Cuidar do sacerdote é cuidar do próprio Cristo”, completou irmã Imaculada.

Para irmã Evangelina, “apesar da perda, estamos aqui para servir. E vamos para onde a congregação nos enviar, sempre servindo com amor e alegria. Onde formos chamadas, cumpriremos com amor o nosso carisma. O mérito está na obediência e no despojamento. O objetivo sempre é Jesus. Dom Eusébio tinha um coração enorme. Não é à toa que seu lema era ‘Deus é bom’. Ele nos deixou muitos ensinamentos de amor a Deus e à Igreja”, finalizou.

Carlos Moioli



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