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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/03/2021

05 de Março de 2021

Otlo de Santo Emerão: Vós não sabeis de que espírito sois!

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Otlo de Santo Emerão: Vós não sabeis de que espírito sois!

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21/02/2021 00:00
Por: Redação

Otlo de Santo Emerão: Vós não sabeis de que espírito sois! 0

O versículo que dá título a este artigo pertencia ao Evangelho de Lucas 9, 55, provavelmente para indicar que os cristãos não estão sujeitos à lei antiga, mas ao Espírito de Deus. A crítica bíblica moderna retirou-o por considerá-lo um acréscimo indevido posterior. Mas não deixa de exprimir uma verdade que é, ao mesmo tempo, uma indagação: a que espírito pertencemos? Na Bíblia Vulgata, lida na Idade Média e, portanto, pelo monge Otlo, trazia essa passagem, por ele citada, como veremos.

Monge beneditino de Ratisbona, Alemanha, Otlo nasceu por volta de 1010. Transcorreu sua vida na abadia de São Emerão (Reichsabtei Sankt Emmeram), que fora fundada no século VIII, tornando-se logo um importante centro de cultura cristã. Faleceu por volta de 1072. Foi um grande calígrafo, por isso muitas de suas obras nos chegaram em manuscritos autógrafos. Escreveu um livro de provérbios, hagiografias, um importante opúsculo chamado de “Diálogo sobre três questões”, entre outras obras. Sua obra mais importante é o pequeno ‘Livro das Tentações de um Monge’. Este opúsculo autobiográfico, que nos lembra as ‘Confissões’ de Agostinho, tem como tema central a tentação. Dividido em duas partes, o autor trata de expor a experiência humana da tentação com o olhar da fé.

Otlo mostra que o objetivo de suas meditações não é simplesmente exibir as tentações a que estava submetido, mas, sobretudo, manifestar a assistência diuturna de Deus em suas aflições: “Já que falei um pouco sobre os enganos diabólicos que surgiram de meus pecados e se levantaram contra mim, parece bastante lógico e razoável que, por escrito, também esclareça os caminhos da inspiração divina através dos quais minha mente estava sendo preparada para resistir. Que ninguém acredite que esses enganos são relatados aqui sem não infere desta leitura os instrumentos de ajuda celestial, ou ache que atribuí a mim mesmo a vitória alcançada, a qual de forma alguma é minha. Também ninguém há de temer que, imaginando que me faltou proteção divina em minhas tentações, o mesmo deva acontecer com ele em suas tentações”(Otlone di Sant’Emmerano, ‘Le tentazioni di un monaco’, tradução de P. R. ROMANELLO, Mimesis Edizioni, 2007, p. 49).

Embora grande parte de seus argumentos revele uma meditação pessoal, conforme o hábito que se vai fixando na vida contemplativa cristã nesse período, especialmente na Alemanha e que culminará com a figura de Nicolau de Cusa, passando por toda a mística renana, Otlo não abandona a objetividade da fonte bíblica, e, diria, que é aí que alcança sua mais profunda reflexão sobre a tentação. Para os cristãos, todas as tentações convergem para as tentações de Cristo no deserto, e a vitória de Cristo é figura da vitória da Igreja. Por isso, o autor percorre passagens bíblicas para mostrar-nos a constante profecia sobre a vitória da fé sobre a tentação.

Primeiramente, o Antigo Testamento é rico em exortações para a conversão do homem a Deus: “Isaías, em nome do Senhor, diz: 'Convertei-vos a mim e sereis salvos, vós todos os povos da terra', Is 45, 22.  E de novo o mesmo profeta diz: ‘Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos; volte-se ao Senhor, que se compadecerá dele; e para o nosso Deus, porque é generoso em perdoar’ Is 55, 7. Também no profeta Ezequiel encontrarás palavras semelhantes. Na verdade, ele escreve: 'Eu vivo, diz o Senhor Deus, e não quero a morte do ímpio, mas que se converta e viva', Ez 33, 11. Em seguida, o profeta apresenta um paradoxo que, embora lembre aos justos do temor de Deus para que não tenham a presunção de esperar algo por si, ainda assim conforta os injustos com palavras que transcendem qualquer uso da misericórdia humana: se eu disser ao justo ‘vais viver, e ele, confiando em sua justiça, cometer iniquidade, suas ações justas cairão no esquecimento. Mas se eu disser ao ímpio: vais morrer, e ele se arrepender de seu pecado e provar isso por sua conduta e retidão, viverá e não morrerá', Ez 33, 8(Otlone di Sant’Emmerano, ‘Le tentazioni di un monaco’..., p. 63).  E continua:

“Encontramos também em outros profetas sobre quanta graça de Deus está sobre todos aqueles que o invocam. O profeta Joel diz: ‘Convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque ele é benigno e compassivo, paciente e de muita misericórdia’, Jl 2, 13. E eis o que diz o profeta Amós: 'Buscai-me e vivereis', Am 5, 4. Encontrarás essa doutrina de fé e esperança também no profeta Jonas, em cujo livro ele lembra a imensa benevolência de Deus para com os pecadores ninivitas” (Otlone di Sant’Emmerano, ‘Le tentazioni di un monaco’..., p. 63).

No Novo Testamento, não temos somente a confirmação destas passagens proféticas, mas também o relato dos primeiros que sofreram as tentações depois da vinda do Messias, de modo que podemos ouvir dos apóstolos e de Paulo testemunhos sublimes do consolo divino: “Assim, os mesmos elementos e consolos são encontrados em todos os livros da Escritura, como o apóstolo Paulo testifica, ao dizer: ‘Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça’, 2Tm 3, 16. Da mesma forma, Paulo, especialmente entre os inúmeros ensinamentos de suas epístolas, lembra quão gratuitamente Deus protege aqueles que estão na tribulação e na tentação: ‘Não vos sobreveio tentação que não fosse comum aos seres humanos. Mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além do que podeis resistir. Pelo contrário, juntamente com a tentação, proverá uma saída para que a possais suportar’, 1Cor 10, 13. Ele a chama de 'saída' porque, exaustos por várias tentações, mas libertados pela invocação do Senhor, aprendemos quão grande é o mal do diabo que se opõe a nós, e quão grande é a graça de Deus que nos liberta imediatamente depois”(Otlone di Sant’Emmerano, ‘Le tentazioni di un monaco’..., p. 64).

Num terceiro nível de perfeição, temos o testemunho do próprio Deus feito homem, que também provou a tentação de que cada um de nós prova:“Mas se tu de alguma forma desconfias de todos os ensinamentos que até agora foram extraídos das Sagradas Escrituras, ou que vêm da sombra da lei, ou que não foram ditos por homens puros, tu deves pelo menos acreditar firmemente nas coisas que foram ditas pelo Senhor Jesus Cristo, que é Deus e homem. Na verdade, como diz o evangelista Mateus: 'Não vim chamar justos, mas pecadores', Mt 9, 13. E sempre Mateus: ‘Vinde a mim, todos vós que vos fatigais e vos achais oprimidos, e eu vos revigorarei’, Mt 11, 28. Igualmente, como Lucas afirma, ele repreende duramente seus discípulos, dizendo: ‘Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do Homem não veio para perder as almas dos homens, mas para salvá-las', Lc 9, 56. E, pela boca do mesmo evangelista, diz: ‘Assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento’, Lc 15,7. Em João, Jesus diz a seus discípulos: ‘Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida’, Jo 5, 24”(Otlone di Sant’Emmerano, ‘Le tentazioni di un monaco’..., p. 64).

            Neste terceiro nível, sem excluir o primeiro nem muito menos o segundo, não podemos mais ignorar a que espírito pertencemos. Se lemos atentamente todas as passagens bíblicas citadas por Otlo, entendemos que a tentação é superada com um creio:  ̶  Creio, mas aumentai a minha fé! E é por esta fé que experimentamos o consolo, pois o Cristo venceu a tentação e prefigurou a nossa vitória. Lembremos ainda que foi o Espírito que conduziu Jesus ao deserto (Mc 1, 12); Ele é a vitória de Jesus e o modo que Jesus escolheu para nos consolar, para ficar presente entre nós.
 
 
 
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Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio
 


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