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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/06/2021

22 de Junho de 2021

As statio quaresmais: sinal de unidade na oração e na fé

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22 de Junho de 2021

As statio quaresmais: sinal de unidade na oração e na fé

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21/02/2021 00:00
Por: Redação

As statio quaresmais: sinal de unidade na oração e na fé 0

Quem abrir um missal anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II na Quarta-feira de Cinzas encontrará, antes dos textos próprios da liturgia desse dia, nas tradicionais letras vermelhas, as rubricas, a seguinte informação: Statio ad S. Sabinam – 'Estação em Santa Sabina'. Também nos dias seguintes encontrará as indicações dessas statio, estações, sempre indicando uma igreja específica da cidade de Roma. Essas indicações refletem uma antiquíssima tradição da Igreja de Roma e dos Papas: as chamadas estações quaresmais.

Desde o século IV, desenvolveu-se em Roma o costume do povo e do clero de se reunir com o Papa em uma determinada igreja da cidade durante os dias Quaresma, onde então celebrava-se uma procissão, a solene missa pontifical e a oração das vésperas. Essa reunião do povo romano acontecia nas basílicas e nas principais igrejas romanas, chamadas de tituli, e dava-se a essa reunião em torno do Sumo Pontífice o nome de statio, expressão provinda do vocabulário militar romano. De fato, a statio era o posto de guarda dos soldados, e agora passava a designar o posto onde os soldados de Cristo se reuniam para celebrar e guardar a fé, em unidade como sucessor de Pedro. Com grande fé e piedade o povo e o clero se reunia por volta da hora nona (três horas da tarde) na collecta, uma igreja próxima à igreja da estação daquele dia, e dali seguiam em procissão ao canto da ladainha dos santos e dos salmos penitenciais até a igreja estacional, onde o Papa celebrava a missa pontifical. Para simbolizar a unidade do que se celebrava e da fé que se professava, cada presbítero presente na missa recebia do Papa um fragmento da Eucaristia, a qual chamavam fermentum, para que levassem para sua igreja, e lá comungassem em sinal de unidade. A reunião na statio terminava com as vésperas, após a qual quebrava-se o jejum, que naquele tempo durava até o pôr do sol, com uma refeição em comum. Ao fim, o diácono anunciava a igreja da statio do dia seguinte.

No século, VI foi o Papa São Gregório Magno quem fixou a ordem clássica das Igrejas estacionais, não apenas na Quaresma, mas em todo o ano litúrgico, e organizou as festas mais solenes com o rito de procissão, missa e vésperas. Mas é especificamente na Quaresma, pelo caráter penitencial, que as estações atraíam a maior participação popular. As estações muitas vezes influenciaram o desenvolvimento da liturgia. É interessante notar, por exemplo, que, como na quinta-feira após a Quarta-feira de Cinzas a estação era feita na igreja de São Jorge em Velabro, lia-se na missa o evangelho da cura do servo do centurião (Mt 8, 5-13), recordando que também São Jorge fora militar romano. Na sexta-feira da quarta semana da Quaresma, lia-se o evangelho da ressurreição de Lázaro, pois a estação fazia-se na igreja de Santo Eusébio, que fica próxima ao cemitério do Esquilino. No quarto domingo da Quaresma, quando a antífona de entrada exclama laetare Ierusalem – 'alegra-te, Jerusalém', a estação reunia-se na igreja da Santa Cruz, em Jerusalém, antigo palácio que Santa Helena transformou em igreja para acolher as relíquias da Santa Cruz trazidas por ela de Jerusalém para Roma.

A partir do final da Idade Média, a tradição estacional entra em declínio, principalmente com a transferência, no século XIV, da sede do papado para a cidade francesa de Avignon. A partir daí as statio ficam apenas como uma indicação no missal, aludindo a uma tradição passada. Porém, no século XX, o Papa São João XXIII restaurou em parte essa bela tradição: passou a celebrar a Quarta-feira de Cinzas na sua tradicional statio. Dessa forma, desde 1960 os papas se reúnem com os féis e o clero na Igreja collecta de Santo Anselmo e seguem em procissão até a statio na basílica de Santa Sabina, no Monte Aventino, onde o Pontífice preside, então, a missa de abertura da Quaresma com o rito da imposição das cinzas. Esse ano, infelizmente, o Papa Francisco não poderá seguir com a tradição, como faz todos os anos, em virtude da atual pandemia. Assim, não celebrará em Santa Sabina, mas na Basílica de São Pedro.

A tradição romana das statio quaresmais expressa o senso de unidade que é inerente à Igreja, um desejo mesmo de seu Divino fundador, que rezou pela unidade dos membros de seu corpo místico – “Que todos sejam um”. Que a exemplo dos cristãos que desde a Antiguidade faziam da Quaresma um tempo de unidade – unidade na fé professada, na liturgia celebrada – façamos de nossa caminhada quaresmal em comunidade verdadeiras “statios” que reflitam, em meio a um mundo marcado por tantos conflitos e divisões, a unidade na fé e na caridade, participando das riquíssimas liturgias desse tempo de preparação para a celebração da Páscoa do Senhor, partilhando da esperança de também nós, um dia, ressurgirmos com Ele para o dia sem ocaso.

 
Iluminura do século XV representando o Papa São Gregório Magno durante uma procissão.
http://cartelen.louvre.fr/pub/fr/image/1400_p0003663.001.jpg
 
Papa Francisco, juntamente com cardeais e fiéis, na procissão da Statio da Quarta-feira de Cinzas, seguindo da Igreja de Santo Anselmo até a Basílica de Santa Sabina, no Monte Aventino
https://thecatholicuniverse.com/wp-content/uploads/2021/02/Pope-to-celebrate-Ash-Wednesday-at-Vatican-skipping-station-churches-1536x1019.jpg



 
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