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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/03/2021

05 de Março de 2021

'É roxo o amor. De amoras, não. De dor.'

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12/02/2021 00:00 - Atualizado em 13/02/2021 01:00
Por: Redação

'É roxo o amor. De amoras, não. De dor.' 0

Chegamos a mais uma oportunidade de mudar as nossas vidas. Tempo forte de oração e reflexão, de buscar afastar do coração mágoa, tristeza, rancor, revolta e alinhar nossa existência de forma mais intensa aos ensinamentos de Jesus. Chegamos ao tempo da Quaresma.

Quarenta dias usando o roxo nas celebrações litúrgicas, cor que simboliza a penitência. Cor, como disse Adélia Pradoem “Roxo”, poema encontrado na primeira seção do livro “Bagagem” (1976), que aperta, doida para amanhecer.

Nesse poema, a poetisa relaciona o roxo a um tempo intermediário, um tempo entre dois tempos maiores. Momento de preparação para uma realidade que ainda será experimentada, a Paixão de Jesus, que é “roxa e branca, pertinho da alegria.” E de fato é.

No livro da autora, em prosa, “Filandras” (2001), há uma crônica também com esse nome, “Roxo”, que reitera aspectos do poema que citei acima: “Roxo está prestes a, é a cor em trânsito, pejada do mais puro amarelo, do que se vê em gemas de aves não confinadas. Roxo é prenúncio, uma outra cor de ovos. As quaresmeiras profusas me confirmam, a cor dos paramentos, das alfaias, dos crucifixos expostos [...] Mas roxo é alegre, porque roxo é Semana Santa em março, bendita sagrada cor de sangue divino inventada.”

Durante anos associei a Quaresma a um tempo de melancolia. Com o passar dos anos entendi que não. Associá-lo à ausência de alegria é um grande equívoco. Os dias subsequentes à Quarta-feira de Cinzas são realmente um momento de oração, jejum, penitência e caridade. A questão, porém, é como passar pelo tempo quaresmal sem jamais perder a capacidade de antever a alegria da ressureição.

Jesus quis passar pela experiência do jejum ficando 40 dias sem alimento (cf. Mateus 4, 1-11), e é Ele mesmo que nos ensina como devemos fazer: “Quando jejuardes, não fiqueis de rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para figurar aos outros que estão jejuando. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os outros não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa” (Mt 6, 16-18).

Neste sentido, jejuar e fazer silêncio na Quaresma para ouvir o coração, para pensar sobre os próprios excessos não pode ser uma coisa terrível. Não é fácil. Ter coragem de olhar para si mesmo, de reconhecer os próprios limites, identificar o que está demais em todos os campos da vida, e que muitas vezes é tão natural que chega a ser incontrolável, não é nada, nada fácil mesmo, mas é necessário.

Todo ser humano tem seu deserto pessoal para atravessar. Atravessar, não permanecer lá! O deserto não foi feito para ser habitado, mas transposto, como Jesus o transpôs. Quando aceitamos que estamos nele sem lamentações, quando passamos a enxergá-lo como uma oportunidade, a travessia fica menos pesada. Somos capazes de ir desmascarando gradativamente as miragens ao longo do percurso e contemplando os pequenos milagres que vão se desvendando naturalmente durante a caminhada. Quantas vezes ficamos tão preocupados com grandes milagres e nos esquecemos de que o cotidiano está cheio deles?

Com efeito, este tempo litúrgico que antecede à Paixão é mais uma chance para que, de mãos dadas com Nossa Senhora, possamos dialogar com as nossas dores, olhar para nós mesmos e para os nossos desejos, com calma, sem desespero, procurando entendê-los, buscando estratégias para mudar o que podemos mudar e aceitar o que ainda não damos conta.

Refletir não é necessariamente sofrer. Pensar de maneira organizada, guiados pelo Evangelho no tempo quaresmal, rezar, conversar sinceramente com Deus, meditar, pode até causar alguns desconfortos, mas vale muito a pena.

A Quaresma é uma ocasião de belas oportunidades, de cura interior, acima de tudo um tempo de amor, de amar. De olhar para o Senhor pregado na cruz e buscar ir além junto com Ele. Acolher que por trás daquele sofrimento terrível existe uma lição de profundo amor; do Pai para o Filho e do Filho para nós.

Sabemos que Jesus não nos prometeu facilidades, mas nos apontou a direção. Na cruz, através do Seu exemplo, Ele nos educa sobre entrega, comprometimento, desapego, aceitação, compaixão, fidelidade e confiança. Ensina-nos o caminho da verdadeira Humanidade.

Um caminho difícil, sofrido, tortuoso, sim, mas também feliz. E que vivido de maneira digna e entregue, com mais silêncio do que palavras, com mais amor em vez de mágoas, traz um conforto para o nosso coração, que nada e nem ninguém neste mundo é capaz de proporcionar.

Eu concordo com Adélia: “Roxo é bonito e eu gosto. Gosta dele o amarelo.” Roxo misturado com amarelo dá verde, a cor da esperança... Que nesta Quaresma, tempo, como disse o Papa Francisco certa vez, “favorável para renovar-se, encontrando Cristo vivo na Sua Palavra, nos sacramentos e no próximo”, cada um de nós possa abraçar a Sua cruz com consciência e esperança, buscando renovar as forças no Filho tão amado de Deus, olhando para o próprio coração, mas também levantando a cabeça e estendendo a mão, pois há muitas pessoas com cruzes muito mais pesadas precisando de nós e da nossa alegria.

Paz e bem!
Dinair Fonte


 
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