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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/03/2021

05 de Março de 2021

Beda: Por que Jesus toca o doente?

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Beda: Por que Jesus toca o doente?

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12/02/2021 00:00 - Atualizado em 13/02/2021 00:56
Por: Redação

Beda: Por que Jesus toca o doente? 0

Jesus toca o leproso e lhe diz: “Quero, sê limpo”. Este relato da cura de um leproso aparece no primeiro capítulo do Evangelho de Marcos (v. 40-42) e assim se inicia: “Foi ter com ele um leproso, fazendo-lhe suas súplicas e, pondo-se de joelhos, disse-lhe: Se queres, podes limpar-me. E Jesus, compadecido dele, estendeu a mão e, tocando-o, disse-lhe: Quero, sê limpo”. O grande São Beda explica que Jesus toca o doente, ainda que contrariando as leis civis e religiosas, porque ele mesmo não está submetido à lei. Contudo, é mais do que isso. Beda, ao comentar esta passagem de Marcos, oferece-nos um caminho surpreendente para vivenciarmos o agir de Deus em nós.

Beda nasceu por volta de 672 no norte da Inglaterra. Fez-se beneditino e entregou-se totalmente à vida monástica na Abadia de Jarrow, norte da Inglaterra. Conhecido como ‘Beda, o Venerável’, graças à sua santidade e imensa influência na cultura cristã a partir do século VIII. O próprio Beda dá testemunho de si em sua ‘História Eclesiástica do Povo Inglês’, dizendo: “Com a ajuda do Senhor, eu, Beda, servo de Cristo e sacerdote do mosteiro dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, localizado em Wearmouth e Jarrow, compus esta história eclesiástica da Inglaterra e de seu povo, a partir do que pude reunir dos documentos dos antigos e das tradições dos ancestrais, ou mesmo a partir do meu conhecimento. Nasci no território do referido mosteiro e, aos sete anos, meus pais confiaram-me ao reverendíssimo abade Benedict e, posteriormente, a Ceolfrid para me instruir. A partir desse momento, passei toda a minha vida dentro do citado mosteiro, dedicado totalmente ao estudo das Escrituras. Além da observância da disciplina monástica e da tarefa cotidiana de cantar na Igreja, sempre me foi agradável aprender, ensinar e escrever. Aos 19 anos fui admitido ao diaconato, aos 30 ao sacerdócio...” (Beda. ‘Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum’, ML 95, col. 288).

Beda foi um escritor fecundo, como ele mesmo adianta. Escreveu obras de natureza literária, retórica, gramatical, musical, mas também e, sobretudo, obras de história eclesiástica e de exegese bíblica. Duas obras nos ajudam a entender a passagem acima narrada por Marcos. O comentário ao seu evangelho é uma obra peculiar, que merece um artigo próprio, que é “Sobre o Tabernáculo’. Conjugaremos estas duas obras para aproveitarmos melhor a exegese de Beda sobre a passagem de Marcos acima transcrita.

Segundo Beda, o leproso atribui a Jesus o poder de cura: ‘se queres...’, esta é uma confissão de fé. Só Deus tem esse poder, e o leproso o atribui a Cristo. Recordemo-nos de um versículo precedente, aquele em que Marcos enfatiza que Jesus fala com autoridade (v. 22). Não somente fala, mas age com autoridade, e é reconhecido por esse poder divino. E que poder é esse? Beda lembra algumas passagens de Mateus para esclarecer esta pergunta: ‘Não vim abolir a lei, mas cumpri-la’ (5, 17). A associação à lei aqui é fundamental, pois o contexto da cura de Jesus é o sábado sagrado dos judeus, em que tais e outras ações não podiam ser praticadas. Mais, Jesus não somente agiu no sábado, mas tocou o leproso! Este toque de Jesus une suas palavras e ações. Jesus toca, fala e cura: toca o leproso; diz ‘eu quero’; e limpa o doente. “Não há nada intermediando a obra de Deus e o preceito, porque no preceito está a obra” (col. 114), resume São Beda. Por que Jesus toca o leproso? Beda enfatiza que Jesus ‘infringe’ a lei judaica porque, na verdade, ele não está submetido a ela. Ele é o próprio autor da lei. Por conseguinte, o ato de tocar o leproso — ato por si mesmo proibido, com o agravamento do sábado — mostra a autoridade de Jesus sobre a lei, isto é, sua divindade. Confissão feita pelo próprio doente e, anteriormente, pelo povo que reconhecia a autoridade de Jesus.

O ato de tocar o leproso, enquanto ato de Cristo, tem uma dimensão sacramental. Não se trata somente de confessar a potestade divina acima da lei, e Jesus como Deus e autor da lei. Trata-se de um Deus tangível. É um sinal da graça, pois o meio pelo qual o leproso se cura — o toque de Cristo — é a cura de todos os crentes. Se recorrermos a outras passagens bíblicas interpretadas por Beda, veremos a dimensão litúrgica do ato de tocar. Isto vale para os fiéis, para o sacerdote e para Jesus Cristo: tocar e ser tocado “pertencem ao âmbito do sinal sacramental. Também em outra passagem de Marcos se lê: “Então, uma mulher, que há 12 anos padecia de um fluxo de sangue e que havia sofrido com muitos médicos, e despendido tudo quanto tinha, nada lhe aproveitando, e longe de melhorar. Ouvindo falar de Jesus, meteu-se entre a multidão, e tocou a sua veste, porque dizia: se tão somente tocar as suas vestes, sararei” (5, 25-27). Neste caso, é a mulher que toca a veste de Jesus, e Jesus percebe que ela tocara sua veste: ela também foi curada. Jesus mostra-se como fonte da cura. Seu corpo cura os que têm fé. Igualmente o Corpo Místico de Cristo transforma e cura por meio dos sinais visíveis, tangíveis, por ele instituídos. Mas esses sinais sensíveis sacramentais estavam presentes também na tradição judaica. Vejamos mais um ou outro exemplo.

Ao comentar a construção do tabernáculo por Moisés no livro do Gênesis, Beda observa: “Adequadamente mandou que fosse feito de madeira de acácia, até porque convém que os corações e os corpos, nos quais o Espírito de Deus habita, sejam puros e incorruptos. E por isso construído com cinco côvados de comprimento, e igual de largura, para que todos os fiéis sejam zelosos no exercitar os sentidos de seus corpos com paciência e amplo de caridade, de modo que, em cada ato de ver, ouvir, saborear, cheirar e tocar, o fiel sempre se lembre de que tudo está a serviço de Deus, de acordo com o que diz o Apóstolo: ‘Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus’, 1Cor 10, 32”(Beda. ‘On the Tabernacle’. Liverpool: Liverpool University Press, 1994, p. 86). Note-se que Beda ressalta o valor de todos os atos sensíveis e mesmo de subsistência humana como atos de louvor ou de glória a Deus.

A plenitude desses sinais está na Páscoa de Cristo para onde todos os sinais convergem e donde promanam todas as bênçãos: “Com a ressurreição de Jesus Cristo, que está à destra de Deus, subiu ao céu, engolindo a morte, para que possamos nos tornar participantes da eterna vida. Pois, como ele ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu e senta-se à direita de Deus, assim ele abriu também para nós pelo batismo o caminho para a salvação e a entrada para o reino celestial. É justo dizer, engolindo a morte, pois o que engolimos é assimilado para que o nosso corpo nunca pereça. E o Senhor tragou a morte pois, surgindo dos mortos, Ele a consumiu tão completamente que ela não tinha nenhum poder sobre Ele pelo toque de qualquer corrupção; e, embora a aparência externa de seu corpo real tenha permanecido com seus vestígios, a antiga fragilidade não existia mais” (Beda. ‘The Commentary on the Seven Catholic Epistles’. Translation of David Hurst.Kalamazoo: Cistercian Publications, 1985, p. 105-106). Mais uma vez, um ato fisiológico como o de engolir os alimentos, de tragá-los, é tomado alegoricamente, é elevado ao sagrado, para que nos tornemos “participantes da vida eterna”. A morte foi tragada pela vida e Jesus nos dá a vida ao tragar a morte.

Como dissemos no início, Beda mostra que a ‘transgressão’ de Jesus, ao não seguir a lei, fundamenta-se no poder que Ele mesmo tem sobre a lei, como seu autor, que é também poder de levar a lei à perfeição. Contudo, no momento que Jesus toca o leproso, não se trata mais de lei, nem de plenitude da lei, mas do sentido dessa plenitude, isto é, trata-se da união sacramental e definitiva do homem com Deus.

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Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio


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