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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/04/2021

20 de Abril de 2021

Santo Tomás de Aquino: a água e o Espírito Santo

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Santo Tomás de Aquino: a água e o Espírito Santo

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10/01/2021 00:00 - Atualizado em 11/01/2021 02:06
Por: Redação

Santo Tomás de Aquino: a água e o Espírito Santo 0

Os comentários bíblicos de Santo Tomás, 1225-1274, nasceram de sua atividade de magistério universitário. Pela necessidade dos programas de ensino, tais como eram, por exemplo, na Universidade de Paris, Tomás comentou o livro de Isaías, o de Jeremias, Jó, os evangelhos, múltiplas epístolas de Paulo. Destaco aqui seu comentário aos Salmos, provavelmente redigido no final de sua vida e que ficou incompleto. O interesse e a importância do livro dos Salmos são enfatizados por Tomás, no prólogo de seu comentário, nestes termos: “A matéria do livro dos Salmos é universal. Na verdade, enquanto cada livro da Sagrada Escritura contém assuntos particulares, o livro dos Salmos contém o material geral de toda a teologia; e é isto que faz Dionísio dizer, em seu livro "Hierarquia Celeste", que ‘compreender os cânticos divinos’, isto é, o livro dos Salmos, ‘é cantar todas as ações divinas e sagradas’. Portanto, o assunto é indicado por estas palavras: ‘por toda a sua obra’, porque este livro trata de toda a obra divina” (Tomás de Aquino, In Psalmos Davidis Expositio, https://www.corpusthomisticum.org/cps00.html, proemium, fonte que seguiremos daqui em diante).

Efetivamente, os salmos são o cântico de louvor de toda a obra da criação e da redenção. E, na economia da salvação, as alianças de Deus com seu povo, a páscoa judaica, as festas litúrgicas em geral são celebradas e rememoradas em forma de louvor. E, como para o cristão, os mistérios do Antigo Testamento são prefigurações da vida de Jesus, do Messias, e da economia salvífica do Pai e do Espírito Santo na Pessoa de Jesus e de seu Corpo Místico, a Igreja, os salmos são a celebração em forma de louvor de toda esta economia salvífica que ainda hoje se faz presente naqueles que os rezam.

Esta é a razão pela qual celebramos o Batismo de Jesus, cantando o salmo 28 - 29, no texto hebraico -, o ‘Hino do Senhor na Tempestade’. Esta tempestade é descrita no salmo de modo gradual, partindo de trovões, relâmpagos, ventos, grandes águas, até o dilúvio. Essas forças naturais, às quais se seguem grandes destruições, desembocam, contudo, na paz. Tanto as forças naturais como a pacificação da natureza são entendidas como a voz de Deus que dá força e pacifica os povos.

Para Tomás, este salmo está dividido em duas partes. I. Primeiramente, temos um convite à ação de graças a Deus, como se lê no primeiro versículo: ‘Rendei ao Senhor, filhos de Deus, rendei ao Senhor glória e poder’. E Tomás explica: “Ao falar do dever de oferecer louvor a Deus por meio de ações de graças, o salmista indica três coisas: primeiro, a quem oferecer, quem oferece e, finalmente, o que se tem a oferecer. Desta forma, tudo deve ser oferecido a Deus, pois somente Deus merece nossa oferta, conforme se diz na Escritura: ‘Tudo é teu, e é da tua mão que recebemos o que te demos’, 1Cr 29, 14. Por outro lado, são os filhos de Deus que devem oferecer a Deus seus dons, pois ‘o Altíssimo não aprova os dons de homens iníquos’. E continua com a vinculação do salmo com as mais importantes passagens bíblicas relativas ao tema do dom: “Assim se lê em Gn 4, 4: ‘O Senhor olhou primeiro para Abel e depois para os seus dons’, pois o homem primeiro deve agradar a Deus e só depois fazer sua oferta. E é pela fé que o salmista diz ‘filhos de Deus’: ‘E a todos os que o receberam, deu poder para se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem no seu nome’, Jo 1, 12. Pode-se dizer o mesmo pela caridade: ‘Vede que caridade o Pai teve por nós, querendo que sejamos chamados filhos de Deuse realmente o sejamos!’ Enfim, pelas boas obras: ‘Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus’ Rm 8, 15”. Ou seja, aqueles que oferecem seus dons a Deus são conduzidos pelo Espírito Santo de Deus.

E que oferta fazemos a Deus? Os bens materiais do sacrifício são meros sinais dos bens espirituais que devem ser oferecidos em ação de graças a Deus, de modo que o verdadeiro sacrifício é o espiritual: “O sacrifício material foi realizado com três espécies de animais com bois, cabras e carneiros; e, acima de todos os outros animais, era acima de tudo um cordeiro que geralmente era sacrificado. É por isso que no Êxodo 29 se relata que todas as manhãs e todas as noites um cordeiro era sacrificado, pois, por meio do cordeiro, se representava, sobretudo e expressamente, o Cristo: ‘Aqui está o Cordeiro de Deus’, Jo 1, 29”.

‘Adorai o Senhor’ (v. 2): aqui se explica o sacrifício espiritual, pois o salmista nos ensina como devemos darglória a Deus ecomo lhe devemos a honra: “O próprio Deus é glorioso, por isso devemos glória a ele, continua o salmo: ‘E glória ao Senhor por seu nome’. Ele mesmo é glorioso em si mesmo, mas seu nome deve ser glorioso em nós, isto é, ele deve ser glorioso em nosso conhecimento. E porque ele mesmo é glorioso e resplandecente em nós, devemos homenageá-lo. Portanto, ‘adorai o Senhor em seu santo átrio’, isto é, na Igreja, que é como um átrio celestial. Ou,‘em seu átrio’, isto é, no espírito: ‘Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade’, Jo 4, 23”.

II. ‘Voz do Senhor sobre as águas, o Deus de majestade trovejou, o Senhor está sobre as águas abundantes.Voz do Senhorpoderosa, voz do Senhor magnificente’ (v. 3-4). Na segunda parte do salmo, as bênçãos e os benefícios divinos são, por um lado, rememorados e, por outro, são projetados no futuro das nações. Em ambos os casos, a água é tomada como sinal desses benefícios passados e futuros: “As bênçãos concedidas podem ser explicadas figurativa e misticamente... Na primeira parte desses versículos, o salmista diz que a voz, ou seja, a ordem do Senhor, estava sobre as águas do mar, que se fendeu, como está relatado no livro do Êxodo. O sentido místico deste versículo, segundo o salmista, “indica um duplo benefício, o da conversão e o dos dons que são concedidos aos convertidos. (...) Os homens são comparados às águas, porque ‘são como as águas que correm e não voltam’, como é relatado em 2 Reis 14. É por isso que a voz se manifesta sobre as águas, ou seja, a pregação do Senhor é feita sobre o povo dos judeus, porque pela doutrina de Deus, ainda não encarnada, mas esperada, os judeus são convertidos a Deus. Sobre a conversão das nações, ele continua dizendo: ‘o Deus de majestade trovejou’ (v. 3). O trovão forma-se nas nuvens, significando a própria Encarnação, que é como uma nuvem: ‘Eis que o Senhor subirá numa leve nuvem’ Is 19, 1. Assim, o Deus majestoso trovejou, isto é, o Todo-Poderoso trovejou ao pregar sob o véu da carne: ‘Deus trovejará maravilhosamente com sua voz’. E mais:‘sobre as águas abundantes’ (v. 3), porque a voz do Senhor encarnado não era apenas sobre os judeus, mas também sobre as nações: ‘Eu vos estabeleci como luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra’, Is 49, 6. Ou seja,isto ocorre pelas águas do batismo.Por isso, este salmo é cantado desde o tempo em que Cristo foi batizado”.

‘O Senhor habita o dilúvio, o Senhor se assentará como rei para sempre’ (v. 10): “Em hebraico, diz-se: ‘O Senhor assenta-se sobre o dilúvio’. E o sentido é claro, porque Ele fez isso em relação ao povo de Israel. Ele não exerceu esse poder uma vez (no dilúvio)? Além disso, seus julgamentos foram manifestos desde a criação do mundo e, por isso, o salmista lembra esse julgamento manifesto, o qual, por causa do pecado dos homens, acarretou o dilúvio. (...) O dilúvio inundou a terra, que foi esvaziada de seus habitantes. Posteriormente, contudo, o Senhor tornou a habitar a terra para o crescimento dos homens. No sentido místico, podemos ler este versículo de três maneiras. De acordo com um primeiro modo (...), só aqueles que estavam na arca de Noé habitaram o dilúvio; e, pela arca de Noé, quer-se representar a Igreja e os santos que nela estão, os quais vivem com segurança em meio ao dilúvio das tribulações”. Por outro lado, pode-se entender o contrário, isto é, como se o dilúvio habitasse seu templo. O dilúvio é o mundo, e os carnais são os mundanos: ‘Por um dilúvio aniquilará este lugar’ Na 1, 8. Assim, o Senhor encherá seu templo com o dilúvio e, quando todos se converterem, o rei aí se assentará eternamente, como comentamos acima. E, ainda de outra forma, o Senhor habita o dilúvio, isto é, pelas águas batismais, nas quais ele habita por efeito de sua graça”.

Enfim, Tomás mostrou-nos que a água divina está presente em toda a economia da salvação: ela purifica, cura, protege, converte, transforma, dá vida. Ainda quando turbulenta, é o Espírito Santo da Paz que repousa sobre ela e a comanda, conforme o versículo final: ‘O Senhor dará fortaleza a seu povo, o Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz’.
 
 
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Carlos Frederico Calvet da Silveira professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio



 
 
 
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