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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/01/2021

18 de Janeiro de 2021

São Sebastião e as flechas da peste

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São Sebastião e as flechas da peste

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10/01/2021 00:00 - Atualizado em 11/01/2021 01:59
Por: Redação

São Sebastião e as flechas da peste 0

Em meio à nova onda de casos de Covid-19 e às notícias sobre a vacinação, chega um novo ano. Com ele, um esperançoso janeiro, mês do padroeiro principal de nossa cidade e arquidiocese. Não poderíamos ter um intercessor mais propício: São Sebastião é o mais célebre patrono contra a peste.

            Quando a peste atingiu a Itália, no ano de 680 da Era Cristã, relíquias de São Sebastião foram trasladadas de Roma para Pavia (c.40km de Milão). Nas duas cidades teriam sido preparados um altar lateral para o mártir. A epidemia cessou. Pavia nunca esqueceu de festejar esta memória, consolidando ali a invocação desse santo contra as epidemias. Em Roma, São Sebastião já era o terceiro padroeiro, abaixo dos apóstolos Pedro e Paulo.

            Aquela proteção foi providencialmente recordada quando a pandemia da “peste negra” (1347-1353) varreu o Velho Mundo. Enquanto procuravam causas e remédios naturais, autoridades citadinas faziam rogos a São Sebastião com procissões, penitências e promessas de capelas, altares e pinturas votivas, como em Florença. A "Legenda Áurea" – um dos mais lidos compêndios de vidas de mártires e santos – consagrou e espalhou a história da intercessão em favor de Roma e Pavia naquele momento.

            Na Era dos Descobrimentos, Portugal descobriu também tais graças. Dom Manuel, o rei que leu a carta de Caminha, incrementou a veneração de São Sebastião em Lisboa, afligida pela peste no início dos anos 1500. O rei seguinte, Dom João III, obteve uma relíquia do braço de São Sebastião, deixando-a sob a guarda do Mosteiro de São Vicente de Fora. Religiosos diziam que, desde que aquele tesouro chegara, quase não houvera epidemias em terra lusitana.

            Dom Sebastião, neto de Dom João III, recebeu este nome por nascer num 20 de janeiro. Foi devoto de seu homônimo e planejou construir uma magnífica igreja a seu patrono no coração de Lisboa, em agradecimento pelo fim da “peste grande” de 1569. Não chegou a ser concluída. A correlação entre o santo e o rei, porém, não escapou aos fundadores do Rio de Janeiro: ao contrário do que se diz às vezes, o batismo da cidade (1565) não foi apenas homenagem ao rei, visto que o próprio rei se fazia reconhecer como devotado a São Sebastião, e o promovia.

Nas águas e matas da Guanabara, lutavam então portugueses (aliados a temiminós e tupiniquins) contra franceses (aliados aos tamoios), nas batalhas da fundação do Rio de Janeiro (1560-1567). Tendo sido soldado, São Sebastião era invocado também na guerra – daí a história de sua aparição milagrosa como guerreiro em meio aos índios. Porém, o carisma antipeste do santo era bastante oportuno, tendo em vista que jesuítas, como Nóbrega e Anchieta, reiteravam em suas cartas a virulência da peste entre índios, especialmente “as varíolas”. A escolha do santo patrono da cidade que havia de ser erguida (inclusive pelo braço indígena) deve ter levado também isso em consideração, implicitamente.

Em 1576, a Arquidiocese de Milão invocou São Sebastião contra a peste, reconstruindo uma antiga igreja sua. Em 20 de janeiro de 1578, celebrava-se oficialmente o fim da epidemia. O arcebispo foi lembrado por atuar em várias frentes naquela calamidade. Canonizado, passou também a ser invocado contra a  peste, com aval da Igreja: estamos falando de São Carlos Borromeu. Na América Latina, algumas cidades escolheram São Sebastião como patrono principal ou secundário por conta dos males contagiosos, especialmente em portos de mar. Foi assim em Vera Cruz, no México; Cartagena e Maracaibo, na América do Sul. Olinda e Igarassú, em Pernambuco, recorreram a São Sebastião (entre outros santos) por conta da epidemia de febre amarela de 1686. Mesmo com apertadas rendas, as câmaras municipais dessas duas cidades construíram as capelas votivas de São Sebastião que lá existem até hoje. Os agentes da Fazenda da monarquia portuguesa aprovavam esses gastos porque São Sebastião era conhecido no mundo inteiro como “Advogado da Peste”.

E no Rio de Janeiro? A varíola era um dos grandes males da cidade na era dos engenhos.  Ceifava vidas de alguns senhores, mas, sobretudo, de escravos, diminuindo também a produção de açúcar. Houve surtos de “bexigas” (como era chamado o mal) nos anos de 1642-1643, 1666 e 1693. Porém, à época, na correspondência trocada entre autoridades, considerava-se o Rio de Janeiro como privilegiado, se comparado a outras povoações da costa do Brasil. Atribuía-se a São Sebastião a rarefação dos contágios, levando-se em consideração que o Rio era um porto cada vez mais frequentado. Era suficiente para que se suportassem os gastos da Câmara com a procissão e a festa anual do santo e para que ele fosse mantido como padroeiro da cidade e titular da catedral, mesmo quando esta precisou mudar de igreja nos anos 1700. A antiga sé de São Sebastião do Morro do Castelo não foi de todo abandonada, como agradecimento àqueles benefícios, com a chancela do rei de Portugal, Dom João V.

Foi nas calamidades que atingiram a corte imperial nos tempos de Pedro II – febre amarela, em 1850, e cólera-morbo, em1855 – que a invocação do padroeiro da cidade e protetor contra a peste se fez mais urgente que nunca. Em março de 1850, fizeram-se preces a São Sebastião e a São Roque, outro santo tradicionalmente invocado em epidemias. Imagens suas saíram às ruas, como também a de São Benedito (corriam boatos de que a doença era castigo por uma desfeita ao santo, por causa de sua cor, no ano anterior).

Também durante a pandemia da “hespanhola”, a cidade recorreu a São Sebastião. Para aplacar o “mal reinante”, várias paróquias e irmandades, de diferentes invocações, fizeram procissões com o santo flechado sobre o andor principal, por ser padroeiro da cidade e advogado da peste. Sobretudo, em outubro de 1918, quando o cenário era desolador. Passada a gripe, sem descartar a possibilidade de nova onda, o cardeal arcebispo Dom Joaquim Arcoverde (1850-1930) redigiu, em dezembro de 1919, uma carta pastoral cujo espírito era a renovação do fervor ao padroeiro. A carta salienta que São Sebastião era “especial protetor contra a peste”, recordando os exemplos de Roma, Milão e Lisboa. E se pergunta: “de quantas graças não lhe somos também nós devedores?”. Embora não se refira textualmente à “influenza espanhola”, é provável que o arcebispo estivesse, nas entrelinhas, fazendo apelo à consciência dos sobreviventes, sugerindo que o santo alcançara de Deus o livramento da cidade. Para 1920 e os anos seguintes, Dom Arcoverde instituía uma novena a São Sebastião antes de sua festa, recomendando penitências nesses dias e abstenção de carne na véspera da procissão solene.

Cem anos depois, haverá outra vez um mês de janeiro com motivos extras para a solenidade do padroeiro. Por um lado, súplicas pelo fim da pandemia e pelos que sofrem. Por outro, ação de graças pela chegada providencial das vacinas, que (assim esperamos) poderão arrefecer os males. Não se poderia ter melhor advogado junto ao Supremo Juiz. Que ele alcance, com seus méritos de testemunha de Cristo, junto ao tesouro celestial das Graças, o livramento dessas flechas de peste.

Vinicius Miranda Cardoso
Doutor em História Social (PPGHIS-UFRJ), professor da SME-RJ, autor do livro “Cidade de São Sebastião” e vencedor do prêmio anual do Arquivo da Cidade (2018)



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