Arquidiocese do Rio de Janeiro

34º 25º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/01/2021

18 de Janeiro de 2021

Dom Orani celebra 46 anos de sacerdócio: ‘Que o Senhor nos inspire a fazer o melhor possível pelo bem de nossa cidade, do nosso povo’

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18 de Janeiro de 2021

Dom Orani celebra 46 anos de sacerdócio: ‘Que o Senhor nos inspire a fazer o melhor possível pelo bem de nossa cidade, do nosso povo’

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07/12/2020 00:00
Por: Redação

Dom Orani celebra 46 anos de sacerdócio: ‘Que o Senhor nos inspire a fazer o melhor possível pelo bem de nossa cidade, do nosso povo’ 0

Dom Orani celebra 46 anos de sacerdócio:
‘Que o Senhor nos inspire a fazer o melhor possível pelo bem de nossa cidade, do nosso povo’
 
 
No dia 7 de dezembro, o Cardeal Orani João Tempesta celebra 46 anos de sacerdócio. Monge cisterciense, ele foi ordenado em 1974, na Paróquia de São Roque, em São José do Rio Pardo, São Paulo, pelas mãos do então bispo da Diocese de São João da Boa Vista, Dom Tomás Vaqueiro, hoje em processo de beatificação. Eleito ao episcopado pelo Papa São João Paulo II, em 1997, foi bispo de São José do Rio Preto, arcebispo de Belém, no Pará, e desde o dia 19 de abril de 2009, é o pastor da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
 
Para conhecer melhor sua vida, sua vocação e seu ministério, apresentamos a transcrição da live que ele concedeu, nestes tempos de pandemia, ao seminarista Rafael dos Santos, do Seminário Arquidiocesano de São José, pelo canal no Youtube do site católico da cidade do Rio de Janeiro In Veritatem, disponível também em sua página online www.inveritatem.com.br. O site é produzido por um grupo de seminaristas da Arquidiocese do Rio e oferece, além de entrevistas, artigos e formações, também palestras, cursos alguns encontros com sacerdotes, bispos e estudiosos.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - No início desta nossa entrevista, quero fazer o um regresso no tempo e voltar à cidade de São José do Rio Pardo, que pertence à Diocese de São João da Boa Vista. Gostaria que nos contasse o que fez o filho do senhor Achille Tempesta e de dona Maria Bárbara, com menos de 18 anos, ingressar no Mosteiro Nossa Senhora de São Bernardo, fazer profissão solene na Ordem Cisterciense e, aos 24 anos, prostrar-se no chão da Matriz de São Roque para ser ordenado sacerdote. Dom Orani, como foi seu despertar para a vocação?
 
Cardeal Orani João Tempesta - Às vezes as pessoas fazem confusão com o nome das cidades onde nasci e onde fui bispo, embora ambas encontrem-se na Província Eclesiástica de Ribeirão Preto. Eu nasci em São José do Rio Pardo, que fica a Leste do Estado de São Paulo, perto de Minas Gerais, entre Campinas e Ribeirão Preto, na região dos contrafortes da Mantiqueira. Já a cidade de São José do Rio Preto fica do outro lado, no Noroeste do Estado de São Paulo, perto do Triângulo Mineiro, região utilizada por quem vai para Mato Grosso, Goiás, Brasília.

Minha cidade de origem, São José do Rio Pardo, é conhecida no país por uma questão cultural, intelectual, porque ali Euclides da Cunha escreveu Os Sertões, na época em que ele, como engenheiro, construiu uma ponte sobre o Rio Pardo, que corta a cidade. É a sua obra prima, que conta a história do conflito de Canudos. Por causa disso, todos os anos, em agosto, acontece a Semana Euclidiana, que movimenta toda a cidade.

Nasci no dia 23 de junho de 1950, há 70 anos, onde passei boa parte da minha vida, até os 47 anos, quando fui chamado para o episcopado. Só deixei a cidade nos tempos de estudos, quando fiz noviciado em Itaporanga, no Sudoeste de São Paulo, e o tempo em que estudei Filosofia e Teologia, na capital, em São Paulo.

Nessa cidade passei a minha infância, juventude, estudei em escolas públicas, tanto no grupo escolar como o ginásio, que na época era também colegial, hoje é segundo grau, junto com tantas outras pessoas, de todas as etnias e religiões, sendo uma experiência muito bonita. Ainda na juventude, entrei para o Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de São Bernardo, na mesma cidade, e depois, em São Paulo, na capital, fiz Filosofia e Teologia no Mosteiro de São Bento e no Pio XI, com os Salesianos.

Minha casa, onde nasci e vivi, ficava perto da Igreja de São Roque, hoje Paróquia de São Roque, confiada desde a década de 1940 aos monges cistercienses alemães; depois, na década de 1950, aos cistercienses italianos. Havia no território paroquial um colégio administrado por religiosas, onde tive a oportunidade de fazer catequese, a perseverança.

Um dos padres cistercienses perguntou para as religiosas quem poderia ser coroinha, e fui, e tive que aprender a responder a missa em latim. Um dia na semana, às terças-feiras, às 6h30, eu tinha a responsabilidade de servir, fora aos domingos que era missa solene, junto com outros coroinhas. Na juventude, eu continuei participando da paróquia, sendo catequista de crianças e adolescentes na matriz e nas capelas.

Aos 16 anos comecei a trabalhar, no período do ginásio e do segundo grau. Na época tinha a chamada carteira de menor, com registro, hoje inconcebível. Só deixei de trabalhar quando ingressei no mosteiro e, portanto, não cheguei a ter a carteira profissional, com a maioridade. Completei 18 anos já no mosteiro, no noviciado.

Com relação à vocação, durante a infância, já me haviam perguntado se queria ser padre. Segundo minha mãe, ela me contou que, quando grávida, estava lendo uma revista, viu uma reportagem de um padre e pensou que, se eu fosse menino, quem sabe poderia ser padre também. Há muitas histórias, mas foi no colegial, já no segundo grau, quando eu tinha que decidir se iria estudar Humanas ou Exatas, era Clássico ou Científico, quando decidi que deveria ser padre e comecei a ver como fazer.

Nessa época, foi justamente quando Deus passou na minha vida, ali mesmo, dentro da minha cidade natal, Ele me chamou para servi-Lo. Junto comigo tinha outros jovens, um ou outro depois, mais tarde, que seguiram o caminho do sacerdócio, mas como padre diocesano.

Com relação à família, eu era o último dos oito filhos que tinha ficado em casa. Os demais tinham saído de casa para trabalhar ou para casar. Tive que avisar meu pai e minha mãe que eu tinha que sair para ser monge, iria ser padre. Acabei deixando meus pais idosos, já que sou o último filho, o caçula. Quando minha mãe me concebeu ela já tinha 40 anos.

Ouvido e acolhido pelos monges cistercienses, fiz o discernimento e entrei no mosteiro. Como na época não tinha noviciado, fui para Itaporanga, depois para São Paulo, na capital, para fazer Filosofia e Teologia. Em São Paulo, fui morar na periferia, distante do local dos estudos e com situações de violência. Hoje é um lugar bastante desenvolvido. Eu levava quase duas horas para chegar à escola, tinha que pegar dois ônibus, e andar muito tempo a pé. Hoje, vejo como Deus foi atuando, agindo através de situações, de pessoas e circunstâncias.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - O senhor foi vigário paroquial e pároco antes de ser eleito bispo. E sua paróquia era de região predominantemente rural, repleta de desafios. Mas o senhor fazia questão de chegar com tempo e ficava junto com povo. Gostaria que o senhor falasse dessa sua experiência.
 
Cardeal Tempesta – Depois dos estudos voltei para São José do Rio Pardo, onde fui ordenado, e comecei a exercer meu ministério junto à paróquia anexa ao mosteiro. Tive vários trabalhos. O primeiro foi como formador dos monges, depois fui vigário paroquial e capelão de hospital. Por muitos anos fiz atendimento aos doentes, visitando, atendendo confissões, e administrando a unção dos enfermos. Fui também capelão de uma instituição de crianças órfãs, e capelão de noviciado de religiosas.

A paróquia tinha 30 capelas, tanto na cidade como na zona rural. Por um bom tempo, como vigário paroquial, visitava e celebrava nas capelas que ficavam na zona rural. Como pároco, também celebrava, além da matriz e das capelas, regiões geográficas de pequenos grupos, nas vilas, ruas e casas, que aqui no Rio chamam-se Círculos Bíblicos.
Junto com o oficio de pároco, também fui eleito prior do mosteiro. Depois, quando o mosteiro foi elevado à condição de abadia, me tornei o primeiro abade.

Nessa Paróquia de São Roque, anexa ao mosteiro, e confiada aos monges cistercienses, fiz a profissão solene e fui ordenado padre, pelo bispo diocesano de São João da Boa Vista, Dom Tomás Vaqueiro, de saudosa memória. No seu governo, servi na coordenação de pastoral, e estive à frente de outras pastorais, inclusive da comunicação. Havia um bom relacionamento com os párocos vizinhos, e sempre estávamos juntos nas reuniões e nos mutirões de confissões.

Foi um período muito bom de atividades na diocese, mas também na paróquia e no mosteiro, vividos com muita intensidade como vigário paroquial, capelão, pároco, e ao mesmo tempo, monge, vice-prior, prior e mais tarde abade.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - O senhor vem de uma vida monástica: homem de oração e trabalho. Que se levanta cedo, antes da 4h da manhã. E tem o dia cheio de trabalho e atividades em comunidade. Como foi sair do mosteiro e se tornar bispo, tendo tantas vezes uma vida isolada, com pouca gente por perto, precisando até em alguns momentos ter que tomar distância para decidir?
 
Cardeal Tempesta – Foi difícil a decisão de dizer ‘sim’ para ser bispo. Éramos uma comunidade de monges muito unida e todos estávamos envolvidos no projeto comum de construir o novo prédio do mosteiro, que tinha se tornado abadia. Havia muitas vocações. Nós tínhamos um bom relacionamento em casa. A decisão foi difícil porque teria que deixar tudo. Além da vida pastoral, tínhamos a vida monástica, os horários canônicos com a oração do ofício, da liturgia das horas que perpassava todo o dia, desde a manhã até a noite. A convivência em comunidade nos fortalecia para melhor servir a comunidade, o trabalho pastoral.

Com relação ao episcopado, quando recebi a carta da minha nomeação para São José do Rio Preto, fiquei sem saber o que fazer e demorei para responder. Até que um dia, o então bispo diocesano, Dom Dadeus Grings, veio me visitar. Estávamos andando na praça da paróquia, conversando um pouco. Ele virou-se para mim e disse: “Escuta, você não vai responder a carta?”. Ele sabia que eu tinha recebido a carta. Disse: “Se Maria demorasse tanto para responder, Jesus não teria nascido”. Foi um apertão, porque eu tinha que tomar a decisão e responder a carta.

Havia o receio de deixar a vida comunitária para uma vida solitária. Mas isso não aconteceu. Em São José do Rio Preto, abri a residência episcopal para as missas matinais, as refeições. O mesmo aconteceu em Belém, sempre com muita gente por perto. No Rio de Janeiro, também convivo com os bispos auxiliares, as religiosas, e ainda as paróquias. Deixei a convivência de uma comunidade monástica de 10 a 15 pessoas para uma comunidade muito maior e diversificada.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - Após a ordenação episcopal, o senhor assumiu e governou a Diocese de São José do Rio Preto, composta inicialmente por 57 municípios. E mesmo quando ela foi desmembrada para a criação da Diocese de Catanduva, a Diocese de São José do Rio Preto ainda ficou com 50 municípios. Nos quase oito anos de ministério, o senhor introduziu o diaconato permanente, começou a fazer parte do conselho de administração da Rede Vida, o bispo referencial da Pastoral de Comunicação no Regional e depois, em âmbito nacional, em dois mandatos, e ainda presidente do Conselho de Comunicação Social do Senado Federal. Como o senhor descreve a importância da inserção da Igreja nos meios de comunicação?
 
Cardeal Tempesta - A presença em São José Rio Preto, minha primeira diocese, foi um tempo muito bonito. Havia dias em que eu atravessava a diocese de norte a sul, de leste a oeste. Tinha cidades pequenas e outras mais populosas, mas visitava todas.

Havia também a preocupação de preparar a criação das dioceses em Catanduva e Votuporanga. Quando cheguei, um grupo de padres estava cuidando do projeto da Diocese de Catanduva, e acabou sendo criada, no dia 9 de fevereiro de 2000. A criação de uma diocese traz muitas preocupações e nem sempre muita compreensão, por isso, deixei a Diocese de Votuporanga para outro momento, e acabei sendo transferido. Esta nova diocese foi criada no dia 20 de julho de 2016.

Sempre tive muita alegria em visitar as paróquias, as cidades. Foi uma bela experiência para o meu início de episcopado. Tudo isso fica na memória, com boas recordações de São José do Rio Preto, do clero, do povo, das comunidades. Muita coisa interessante ficou em meu coração, foram experiências que, graças a Deus, foram vividas com intensidade.

Quanto à comunicação, já tinha experiência como monge, junto com o primeiro pároco da Paróquia de São Roque, padre Agostinho Zacchetti, já falecido. Eu o ajudava em programas de rádio, e também a organizar slides para Círculos Bíblicos. Quando morava em São Paulo, cheguei a gravar várias fitas para as Irmãs Missionárias da Consolata, sobre a questão das missões. Ainda padre, compramos uma rádio para a Diocese de São João Boa Vista, e criamos uma rede de rádios para a Sexta-Feira Santa.

Quando a Rede Vida de Televisão começou a ser criada, eu ainda estava em São José do Rio Pardo, e lembro que vi pela primeira vez a logomarca da emissora, uma estrela da emissora amparada pelo satélite. A Igreja tinha o desejo de ter um canal de televisão. João Monteiro, de Barretos, São Paulo, recebeu a concessão e pediu que fosse um canal de inspiração católica, cuja sede encontra-se em São José do Rio Preto. Os bispos Dom Luciano Mendes de Almeida, que agora está em processo de beatificação, e Dom Antônio Maria Mucciolo assumiram a responsabilidade e criaram, como mantenedor da emissora, o Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (Inbrac).

Pouco tempo depois de sua criação, quando cheguei a São José do Rio Preto, fui convidado para fazer parte do Inbrac, já faz 23 anos. Com a morte de Dom Mucciolo, em 2012, terminei seu mandato na qualidade de vice-presidente, chegando depois a dirigir o Inbrac por mais dois mandatos. Neste ano de 2020, foi feita uma nova eleição e agora o presidente é o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer.

Também fui membro, depois presidente do Conselho de Comunicação do Congresso Nacional, que se reunia nas dependências do Senado Federal. Apesar das brigas ideológicas, é um ambiente importante para que a Igreja esteja presente. Foi um trabalho que gostei de fazer e o fiz com muita alegria. Também fui eleito por duas vezes para a Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da CNBB onde, no meu segundo mandato, sugeri separar a comissão de comunicação, pois se trata de um trabalho muito específico.

Trabalhamos bastante para formar uma unidade de trabalho em relação à educação, assim como também na comunicação. Trabalhamos para formar uma unidade entre as associações de educação católica, das mantenedoras e das universidades, e conseguimos unificar todas em uma só. Também trabalhamos para que a Igreja sempre estivesse inserida na cultura.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - Quando ainda arcebispo em Belém, o senhor andava muito a pé. Alguns até o chamavam carinhosamente do andarilho de Belém, porque durante o Círio de Nazaré era incansável. Andava pelas ilhas, pelas periferias. Foi também o responsável pela implantação do modelo de cisternas do semiárido nordestino para os ribeirinhos terem água potável. Gostaria que o senhor nos falasse sobre esta sua atividade pastoral e sobre o papel da Igreja no serviço da caridade social?
 
 
Cardeal Tempesta - Belém é composto por muitas ilhas que, infelizmente, têm pouca atenção do poder público. Eu imaginava que em uma ilha não faltasse água, mas me enganei. Nas minhas visitas, pude perceber as necessidades e as dificuldades da população ribeirinha. Diferentemente do que imaginamos, as ilhas não são de terra, mas de areia. Na busca de encontrar um meio para o abastecimento de água potável, designei alguns diáconos permanentes, entre eles engenheiros, para estudar a situação.

Um dos projetos apresentados era usar a água da chuva, semelhante ao que já acontece no Nordeste, nas regiões de muita seca. Com o resultado da Coleta da Campanha da Fraternidade, conseguimos implantar o projeto em uma ilha, depois em outra e, posteriormente, encaminhamos o projeto para que o governo do Estado pudesse dar continuidade. Também realizamos um trabalho com o esgoto sanitário, para não deixar que ele fosse para a baía, para as águas.

Outro projeto que demos sugestão para o governo foi em relação à locomoção dos moradores da ilha para o continente. Muitos não tinham barcos e a solução seria uma espécie de barco circular, para garantir o direito de ir e vir dos ribeirinhos. Havia ainda vários projetos sob a responsabilidade dos diáconos permanentes, inclusive com a construção de casas. Tivemos a oportunidade de realizar um trabalho bonito de promoção humana em Belém, tanto no continente como nas ilhas.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - O senhor é um pastor que gosta de estar no meio do povo. Assim que chegou aqui na arquidiocese, implantou o modelo de Trezena para a festa de São Sebastião, e em janeiro percorre toda a cidade do Rio de Janeiro. Como ficou o seu coração de bispo quando as igrejas precisaram ficar de portas fechadas?
 
Cardeal Tempesta - Em Belém, o Círio de Nazaré é cultura local. Faz parte da vida do paraense. Uma cultura que é vivida intensamente. Eu tive a oportunidade de participar de todos os Círios, de todas as procissões. E todos os trabalhos têm algo marcante. Assim como também tive a oportunidade de andar pelas ilhas, atravessar cada uma a pé, como parte da missão.

Quando eu vim para o Rio de Janeiro, numa das reuniões, me falaram um pouquinho da questão que o Rio não tinha nada que movimentasse o povo como no passado. Foi então que fiz a sugestão de movimentar a festa do padroeiro, São Sebastião, padroeiro da arquidiocese e da cidade. Até então, era uma festa paroquial e pouca coisa de diocesana.

Surgiu então a idéia de fazer uma trezena. No primeiro ano, em 2010, começou com a novena, depois foi necessário fazer a trezena devido ao número de lugares que precisava ser visitado, como as paróquias, capelas, e instituições que levam seu nome. Depois, as visitas foram ampliadas para outros locais.

Agora, com a pandemia, nós não podemos chegar perto das pessoas, não se pode abraçar, não se pode cumprimentar, tem que ficar andando de máscara e outras restrições. Sem dúvida não é fácil, pois se perde a proximidade com as pessoas.

No início, as celebrações aconteceram de forma privada, apenas com as pessoas da equipe litúrgica e de transmissão. As celebrações transmitidas pela Rádio Catedral, WebTV Redentor e as mídias sociais foi a forma que encontramos para ficar mais próximos das pessoas. Através das mídias falamos, ouvimos as intenções, mas claro, não é a mesma coisa, porém, temos a vantagem de atingir mais pessoas ao mesmo tempo. Desde o dia 4 de julho, voltamos com as celebrações presenciais, mas ainda com restrições, para que tenham toda a segurança possível.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - As paróquias têm se reinventado, os seus agentes embarcaram de vez no mundo digital para fazer as celebrações chegarem até os lares. A tecnologia foi e está sendo grande aliada da evangelização nesse tempo de pandemia. Mas o que fazer para não cairmos no comodismo de querer construir a Igreja do sofá, aquela do ‘viver a fé a meu modo’, ou simplesmente reduzir o ser Igreja ao ‘Jesus está comigo na minha casa, vejo tudo pela televisão e está bom’. O senhor, como comunicador e o primeiro evangelizador da arquidiocese, qual a solução que dá para problemas como esses?
 
Cardeal Tempesta - É um perigo constante. Não só de agora, mas já existia no passado. Essa foi uma questão que surgiu entre comunicação e liturgia. Não é por acaso que esse dois documentos nasceram juntos, no mesmo dia, no Concílio Vaticano II: a Inter Mirifica sobre os meios de comunicação social e o Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia. Na questão da liturgia, havia a orientação que as missas não deveriam ser transmitidas, apenas a celebração da Palavra, e outras semelhantes.

Sempre foi dito que os sacramentos em si precisam ser presenciais. Existe a consciência de que é necessária a participação presencial, que de certa forma está no coração do nosso povo, mas foi preciso pensar nas pessoas doentes e idosas. Com a pandemia, a única forma de chegar às pessoas foi através dos meios de comunicação. Mesmo com a abertura das igrejas, ainda há as pessoas que fazem parte do grupo de risco, e que devem permanecer em casa.

Tem o perigo de acomodar as pessoas, mas no momento não existe uma solução, enquanto não tiver uma vacina. Ao mesmo tempo, vemos que as pessoas têm saudades, têm desejo de vir à igreja, de participar das celebrações na forma presencial. Foi bonito ver, quando as igrejas estavam de portas fechadas, as notícias que muitas pessoas se ajoelhavam nas portas para rezar.

Há ainda um perigo real, e a solução atual é respeitar o distanciamento social, usar máscaras e álcool em gel. O número de pessoas nas missas devem ser limitado, no máximo, a 30% da capacidade, e com distanciamento de dois metros um do outro. A Igreja é bastante prudente e não quer proporcionar nenhuma possibilidade de alguém ir à missa e piorar a situação. As pessoas precisam ter certeza de que a igreja é um lugar seguro, saudável, higienizado, que não transmite o vírus.
 
 
Seminarista Rafael dos Santos - Peço ao senhor, nas suas considerações finais, que nos fale de ‘Igreja, fé e missão no Rio de Janeiro’. Quais os maiores desafios e como deve ser a atuação nessa grande metrópole?
 
Cardeal Tempesta - Os desafios no Rio de Janeiro são enormes, pelo tamanho da cidade, com sua história cultural e religiosa. Precisamos caminhar na comunhão e na unidade. Não foi por acaso que escolhi “Que todos sejam um” como meu lema episcopal. Foi a Providência de Deus, que sabe da minha vida, por onde eu iria passar e que seria necessária a vivência da unidade. Justamente uma das coisas que eu peço a todo o povo de Deus de nossa arquidiocese, os bispos, padres, diáconos, religiosos, seminaristas, e os fiéis, que vivam a comunhão, o que não significa uniformidade, mas essa diversidade de ideias, desde que estejamos dentro da doutrina.

O essencial é não termos rancor, ódio um do outro, nem divisões, mas caminharmos juntos. Não podemos deixar que as nossas dificuldades internas atrapalhem nossa convivência fraterna. É muito importante que nós, enquanto Igreja dessa grande cidade, possamos dar testemunho da comunhão e da unidade, tanto pela evangelização como no entusiasmo pela missão. Sei que todos estão muito empenhados e agradeço a Deus por ver tantos belos exemplos de serviço e de missão.

Mas precisamos continuar unidos, continuar dando as mãos, procurando fazer o bem e a lutar cada vez mais para que as coisas sejam melhores em nossa cidade, que necessita dessa presença dos cristãos católicos. Também, que possamos aprofundar a nossa fé, conhecer ainda mais Jesus Cristo e todas as consequências do ser cristão. Pela fé, trabalhar na promoção da pessoa, na vida fraterna para que haja mais justiça, vida plena em nosso meio, e que possamos viver melhor. Sem ódio, sem rancor, sem revoltas, com a procura de que realmente a justiça aconteça com o carinho de quem ama porque é amado por Deus. Que o Senhor nos inspire a fazer o melhor possível pelo bem de nossa cidade, do nosso povo.

Da minha parte tenho feito o que é possível para ficar próximo, ouvir todas as situações, as várias tendências de uma grande cidade. Nossos corações ficam machucados quando vemos as divisões, as separações, porque como nós amamos a Igreja, amamos a nossa arquidiocese, queremos realmente que cada vez mais possamos fazer o bem para que a Igreja anuncie Jesus Cristo às pessoas. Desejo que as pessoas continuem amando a Cristo e amando a sua Igreja, que é sinal visível da salvação no mundo.


 
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