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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/11/2020

28 de Novembro de 2020

A morte como encontro com Cristo

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28 de Novembro de 2020

A morte como encontro com Cristo

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21/11/2020 14:57
Por: Redação

A morte como encontro com Cristo 0

Purgatório – 2ª parte
 
 
“A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo da graça e da misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrena segundo o desígnio divino e para decidir seu destino último.” Cat. 1013
 
Caros irmãos, tendo ouvido na liturgia deste domingo 33º que sabemos perfeitamente que o Dia do Senhor virá como ladrão, de noite, e, que, portanto, não devemos dormir, mas ser vigilantes e sóbrios (1Ts 5,1-6). Damos sequência ao nosso estudo sobre o tema do purgatório.

Baseando-nos na experiência dos três primeiros séculos, a partir da investigação teológica, podemos perceber nitidamente que os cristãos já entendiam a morte tanto como separação quanto como união e retribuição definitiva, a partir de uma perspectiva de relação com Cristo. Em outras palavras, entendiam-na a partir de uma visão pascal do mistério de Cristo. De fato, no evento da morte ocorre uma profunda divisão no ser humano, que separa violentamente seus dois elementos constitutivos essenciais, corpo e alma. No entanto, a história do pensamento cristão nos mostra que a morte também era vista nos primórdios como um meio de união da alma com Cristo, como o início da retribuição definitiva prometida na Sagrada Escritura, sobretudo a partir da literatura paulina (Fl 1, 22-24). Assim, a morte, dependendo de como se viveu nesta vida, pode sim ser um verdadeiro encontro com Cristo, uma experiência pascal que marca a passagem da alma humana para a vida eterna.

Entre os séculos I-III da era cristã, podemos encontrar uma profunda valorização do martírio, como o de Santo Estevão e o de São Paulo. Neles a morte deixou de significar algo infligido por outrem e passou a ser algo desejado, algo que os tornou plenamente discípulos de Cristo, merecedores do prêmio glorioso (At 7,3-60; 1Cor 3,8; Fl 1,21). Também Santo Inácio de Antioquia em sua Carta aos Romanos (5,3), se refere à morte nessa perspectiva. Podemos notar ainda nos escritos que mostram a veneração que se tinha ao mártir na ocasião do aniversário de sua morte, e, na própria prática da intercessão pelos falecidos, essa mesma atenção ao momento da morte como algo esperado em vistas à união com Cristo. A partir do séc. III d.C., sobretudo, dentro dessa linha da morte como início da retribuição, a maioria dos cristãos já acreditava que haveria uma união com, ou, uma separação imediata de Cristo, sendo essa retribuição após a morte um prêmio ou um castigo. Assim, não se esperava a parusía como um acontecimento instantâneo para os que morriam, de modo que o último dia, o dia do juízo final, estaria reservado a um depois, um momento futuro não previsto com exatidão. No entanto, ainda que não se conhecesse o grau em que essa retribuição pós morte se daria, já se sabia que ela poderia ser realmente esperada. Assim, desse entendimento e do aprofundamento teológico da experiência da descida do Senhor à mansão dos mortos, da certeza de que há uma retribuição após a morte, e da fé na ressurreição final, se desenvolveu toda a doutrina a respeito do juízo particular e, posteriormente, do purgatório (Jo 5,25; Hb 2,5; Ap 1,18; Fl 2,10).

O tema da morte a partir da perspectiva relacional parte do princípio de que Deus e homem são seres de, e, em relação! Assim, embora entendida corretamente como condenação e separação definitiva de Deus, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6,23), com a literatura paulina ampliou-se esse entendimento, a partir da contemplação da experiência do esvaziamento vivido voluntariamente por Cristo, suakenosis (Fl 2,6-11). A partir daqui e apoiando-se em diversas outras referências, o esforço dos cristãos por entender racionalmente a sua fé à luz da graça (teologia), chegou a conclusão de que findada a trajetória terrena de cada homem, haveria então a consumação definitiva dessa sua relação com Deus. Desse modo, ocorre então, definitivamente, uma introdução de cada alma espiritual na plena relação filial com Deus instaurada no Batismo, para todos aqueles que são considerados dignos. A partir de então, a morte passou a ser entendida como uma entrega total ao Pai (Fl 1,21), que concede a vitória a todos os que permaneceram unidos ao Seu Filho. Os que foram revestidos, não despojados (2Cor 5,4); os marcados com o selo definitivo da relação com Cristo. Assim, na hora da morte ocorre, portanto, a definição do destino último da alma, de modo que já é possível um discernimento definitivo da sua situação soteriológica, ou seja, já fica definido se a alma vai para o céu, realizando assim esse belo encontro definitivo com Cristo, quer diretamente ou via purgatório, ou se vai para o inferno, estado que caracteriza a separação eterna de Deus. Esse, portanto, é o preciso instante em que termina a mutabilidade do “sim” ou do“não” pessoal que o homem dá a Deus, não havendo mais tempo para decidir-se. Clausura-se aqui o tempo favorável – (2Cor 6,2).
 
“O homem elabora em uma vida o que um anjo decide em um instante.” De Fide Orthodoxa, II,4 apud Summa Theológica, I, q.64,a.2
 
Assim, como nos diz o Catecismo no parágrafo 1022, baseado no segundo Concílio de Lião (DS 85 (1274)), ao morrer, cada homem recebe na sua alma imortal a retribuição eterna, num juízo particular que põe a sua vida em referência a Cristo, quer através de uma purificação, quer para entrar imediatamente na felicidade do céu, quer para se condenar imediatamente para sempre. No entanto, é preciso dizer que a morte não suprime totalmente a ligação entre os membros da comunidade, não terminando assim todo o vínculo com a história humana, graças à comunhão em Cristo que une a todos os chamados à santidade. Assim, há uma conservação da relação com os vivos e com o mundo, de modo que todos os que já morreram partilham do drama da salvação que prossegue na história humana, acompanhando assim uma história que ainda não acabou (Lc 16,22s) - cfr. Cat. 1055; 1331. Dessa forma, neste mundo, fruto da criação divina, haverá também uma realização definitiva da obra da redenção, de modo que o cosmos inteiro seja redimido, sendo totalmente recomposto para que a comunidade dos filhos de Deus habite nele para sempre (palingenesia). Assim, segundo a promessa da Escritura (2Pd 3,13; Ap 21,1), teremos novos céus e uma nova terra, quando esse mundo criado for totalmente transformado em algo melhor, em vistas ao homem glorificado, que está chamado por Deus a ressuscitar na carne, uma vez que só alcançará a plenitude da vida em corpo e alma, ou seja, na totalidade de sua pessoa.

Amados irmãos, cada vez mais conscientes de nossa responsabilidade diante do amor de Deus, que foi derramado em nossos corações (Rm 5,5), façamos de tudo para que nossa vida terrena nos leve diretamente a esse encontro definitivo com o Senhor, na hora de nossa morte. Que a experiência paulina, plasmada na Sagrada Escritura, nos anime a correr, cada dia mais, em direção à meta (Fl 3,8ss) e que para nós o viver seja sempre Cristo! (Fl 1,21).


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