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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/11/2020

28 de Novembro de 2020

O impacto da pandemia nas irmandades do Rio

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28 de Novembro de 2020

O impacto da pandemia nas irmandades do Rio

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21/11/2020 14:52
Por: Redação

O impacto da pandemia nas irmandades do Rio 0

No último editorial discorremos sobre os impactos da pandemia da Covid-19 sobre as paróquias do Rio. Neste editorial queremos agora abordar os seus impactos sobre as irmandades presentes na nossa arquidiocese. As suas situações são bastante sui generis, se considerarmos que as irmandades, ao contrário das paróquias, não são mantidas por dízimos e coletas, e sua pastoral é fundamentalmente sacramental e devocional.

Como associação de fiéis, as irmandades não são comunidades paroquiais, mas são comunidades constituídas por fiéis leigos, também por vezes clérigos – como é o caso da Irmandade do Príncipe dos Apóstolos São Pedro –, que tem por objetivo a promoção do culto, da devoção aos seus oragos (padroeiros) e da caridade social. Em sua grande maioria são instituições centenárias, algumas com mais de 400 anos, que ao longo dos séculos foram acumulando patrimônio imóvel, dentre outros, herdados de seus próprios irmãos associados mais abastados, que recordavam de suas respectivas associações em seus testamentos.

Exatamente por serem instituições bastante antigas em nossa arquidiocese, as irmandades, em sua maioria, estabeleceram seus templos no centro do Rio. E como a cidade começou o seu processo de urbanização a partir desta região, grande parte de seu patrimônio imóvel, assim como suas respectivas igrejas, está situada aí.

Contudo, o centro do Rio já há alguns anos passa por um processo de esvaziamento e degradação. Muitos comerciantes não suportaram a crise financeira que vigora desde 2015 e que se agravou muitíssimo com o início da pandemia. Pois, se já havia grande quantidade de imóveis vazios, agora os que estavam ocupados caíram em situação de redução de aluguel ou mesmo de inadimplência. E neste último caso, pedir a desocupação do imóvel é sempre um dilema. Visto que não há demanda no mercado imobiliário para aluguel; imóvel vazio é custoso para o proprietário, pois há que se pagar condomínio, impostos e manutenção; e ainda há o risco de invasão, o que tem sido bastante frequente em imóveis do Centro. E depois para se mover uma ação de reintegração de posse ou de despejo, em caso de inadimplência, é sempre custoso e demorado.

Com todas estas dificuldades financeiras, a própria manutenção do patrimônio imóvel que está no mercado fica bastante comprometida, o que resulta em degradação e desvalorização do mesmo. E não somente isso! Como instituições religiosas e de assistência social, esta mesma assistência fica gravemente comprometida. Isto significa que mais irmãos ficarão sem assistência, as caixas de caridade não terão o mesmo fluxo, as irmandades que possuem colégios se verão na necessidade de diminuir o número de bolsas de estudos, aquelas que têm hospitais e asilos terão muita dificuldade para mantê-los sem auxílio do governo etc. Tudo numa reação em cadeia. E a própria manutenção do patrimônio histórico e artístico, principalmente do templo, também fica comprometida. Manutenção que não é nenhum pouco barata, pois exige mão de obra especializada. Por isso temos visto muitas igrejas de irmandades em avançado estado de decomposição. Pois o patrimônio imóvel já não gera mais renda para a caridade e para o cuidado da igreja-sede.

Até aqui temos falado dos prejuízos e dificuldades financeiras enfrentados pelas irmandades. Mas a isto há que se acrescentar os prejuízos e dificuldades para o culto e para a devoção. Algumas igrejas de irmandades ainda estão fechadas, pois são templos pequenos que não têm condições de manter o distanciamento entre as pessoas em seu interior. Ao longo deste ano, muitos oragos foram celebrados pelos irmãos às portas fechadas ou apenas com celebrações transmitidas pela internet. Isto prejudica a promoção da devoção e compromete a própria renovação da irmandade.

Entretanto, as irmandades são instituições sobreviventes, que sabem fazer uso dos momentos de crise para os seus próprios crescimentos. Elas aqui no Brasil cresceram e se popularizaram enormemente exatamente a partir de um momento de crise. Quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Reino de Portugal e de suas colônias, considerados naquele momento como opositores da Coroa portuguesa, foram as irmandades que exerceram aquilo que hoje se chama de protagonismo do laicato, promovendo o culto, a catequese e a devoção, e construindo os mais belos templos em solo brasileiro, mais tarde particularmente ainda mais embelezados aqui no Rio com a chegada da família real portuguesa, visto ter nossa cidade se tornado a única capital europeia fora da Europa; portanto, tudo aqui deveria ter os ares da corte.

Talvez, o grave momento pelo qual passamos seja uma oportunidade privilegiada para reavaliarmos os meios de financiamento de nossas atividades, não sendo tão conservadores em nossos investimentos, como é o caso do investimento em imóveis, mas diversificando e pulverizando nossas aplicações, de modo que não fiquemos tão vulneráveis em momentos de crise, até mesmo porque o mercado imobiliário não deve ser o mesmo depois da pandemia. Acredito que o home office veio para ficar, e há quem avalie que muitos negócios não terão mais ambiente físico, mas optarão pelos ambientes virtuais, como é o caso de bancos, lojas etc.

O mesmo diga-se em relação à promoção do culto e da devoção aos oragos, muitos deles já não mais com tanta popularidade entre os fiéis católicos. Talvez, esta pandemia seja ocasião para modernizarmos os meios de divulgação das devoções e das tradições de cada irmandade, buscando uma presença maior nas redes sociais e plataformas digitais em vista de um maior alcance. Penso que este será agora o meio que garantirá a sobrevivência da devoção popular de muitos oragos não muito conhecidos pela maioria dos cariocas.

Hoje, como provedor da Venerável Irmandade do Príncipe dos Apóstolos São Pedro, posso afirmar que temos sentido muito fortemente o peso que a pandemia da Covid-19 tem imposto às irmandades. No entanto, acredito que este será um momento de renovação para todas elas. Pois da crise virá o nosso crescimento a partir da busca de modernização dos meios de financiamento de nossas atividades, mas também a partir de uma renovação da devoção aos oragos, a eles e a Deus, primeiramente, só nos resta recorrer, para que nos iluminem e inspirem neste momento tão difícil da nossa história.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.
 




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