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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/11/2020

28 de Novembro de 2020

Serviço aos enfermos: legado da Igreja ao mundo

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Serviço aos enfermos: legado da Igreja ao mundo

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31/10/2020 00:22
Por: Redação

Serviço aos enfermos: legado da Igreja ao mundo 0

Ainda vivendo as dores e as dificuldades da atual pandemia, a Igreja tem dado o seu testemunho enquanto sinal da esperança e da caridade de Cristo. Muitos são os testemunhos de todo um espírito de fraternidade e alteridade para com os enfermos acometidos pelo novo coronavírus, para com os idosos e demais membros do grupo de risco, bem como com os profissionais da saúde, que com trabalho heroico têm feito uma verdadeira doação de vida diante da crítica situação. Imbuído do mesmo sentimento de Cristo para com os enfermos, o Santo Padre exortava no mês de março: “Rezemos ao Senhor também pelos nossos sacerdotes para que tenham a coragem de sair e ir ao encontro dos doentes, levando a força da Palavra de Deus e a Eucaristia, e de acompanhar os profissionais de saúde, os voluntários, nesse trabalho que estão fazendo”. Em todo o mundo esse apelo foi ouvido, com notícias de sacerdotes que chegaram a falecer infectados, entregando a vida pelos irmãos. Também as mais diversas iniciativas em fazer a mensagem do Evangelho chegar aos corações de todos em meio ao isolamento social e o fechamento dos templos, bem como todo o cuidado com a segurança e saúde dos fiéis ao retornar com as celebrações presenciais demonstram a preocupação da Igreja em ser, à semelhança de nosso salvador, samaritana e servidora de todos.

O serviço da Igreja aos enfermos, sempre atenta ao apelo de Cristo, que nas páginas evangélicas demonstra todo seu amor pelos mais sofredores, curando diversos deles, é um profético sinal da ação de Deus em seu corpo místico ao longo da história. De fato, dentre os diversos legados da Igreja à civilização moderna está justamente a atenção dispensada aos enfermos. Eusébio de Cesareia, bispo do século IV, na sua obra História Eclesiástica (VII, 22) nos transmite um importante testemunho, uma carta do patriarca de Alexandria, São Dionísio, na qual este apresenta o belo trabalho dos cristãos em favor de seus irmãos enfermos durante a peste que acometeu aquela cidade no século III. Segundo o bispo, “nossos irmãos, porém, em sua maioria, num excesso de caridade e amor fraterno, não se poupavam, uniam-se uns aos outros, visitavam sem precauções os doentes, serviam-nos com diligência, dispensavam-lhes cuidados em Cristo e consideravam desejável partir desta vida com eles. Contaminados pela moléstia dos outros, contraíam a peste por contágio dos seus e aceitavam de bom grado as dores. E muitos, depois de terem cuidado e reconfortado os outros, morriam também eles, assumindo morte semelhante. (...) Os melhores de nossos irmãos, portanto, saíam desta vida deste modo. Eram sacerdotes, diáconos, leigos, dignos de grande louvor, pois tal morte, consequência de grande piedade e fé robusta, em nada desmerecia do martírio.”

A caridade dispensada aos doentes assemelha-se à caridade dos mártires, assim entende a Igreja desde a Antiguidade. Esse testemunho dos cristãos foi de vital importância para que diante da sociedade romana os pagãos percebessem que nos adeptos daquela religião havia algo diferente: a caridade, dom sobrenatural dada aos batizados pelo próprio Deus. De fato, segundo São Dionísio, enquanto os cristãos não poupavam a própria vida, “o comportamento dos pagãos era inteiramente oposto. Expulsavam os que começavam a adoecer; fugiam dos seus mais queridos; jogavam nas ruas homens semivivos; rejeitavam cadáveres insepultos; fugiam da transmissão e do contato da morte, mas era difícil evitá-la, mesmo àqueles que empregavam todos os meios.” No século III, aqueles cristãos foram sinal de Cristo em meio aos pagãos do Império Romano através do serviço aos enfermos. Também hoje devemos nós ser sinal de Cristo em meio a um mundo que já há muito tem se afastado do Evangelho.

Ao longo da Idade Média, as iniciativas em favor dos debilitados em sua saúde só cresce. Unidas às catedrais vão surgindo casas de acolhimento para tratar dos doentes, muitas confiadas a ordens religiosas. O primeiro hospital de Paris e um dos mais antigos do mundo ainda em funcionamento, o chamado Hôtel-Dieu (o “hotel” ou “albergue” de Deus), foi fundado pelo bispo São Landerico no século VII. Ali podiam se abrigar 3500 pacientes que recebiam comida e cuidados médicos. Os mosteiros tinham o chamado Hospitale Pauperum (“hospital dos pobres”) no qual os próprios monges, versados em medicina, atendiam a todos.

No século IX, começam a surgir as ordens hospitalares, sendo uma das mais antigas a Ordem Hospitalar de São João de Jerusalém, fundada na cidade santa durante as cruzadas. No século XII, o Papa convida uma dessas ordens a fundar, em Roma, o Hospital do Espírito Santo, em funcionamento ainda hoje. Aliás, em Roma, do século XI ao século XV, a Igreja fundou pelo menos 30 hospitais, demonstrando, assim, que a preocupação com os enfermos é ao longo da história prioridade na ação pastoral.

Ainda poderíamos citar aqui São João de Deus, que no século XVI fundou a Ordem dos Irmãos Hospitaleiros, bem como São Camilo de Lellis, fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, duas ordens até hoje devotadas ao serviço do Cristo sofredor presente em cada doente. Ambos foram proclamados por Leão XIII, em 1886, como “celestes protetores de todos os enfermos e hospitais do mundo católico.”

Servir aos enfermos, como podemos perceber nesses poucos e breves exemplos, é um imperativo constante na história da Igreja, fiel ao seu fundador, o Bom Pastor sempre pronto a cuidar da ovelha ferida, a ponto de elevar o cuidado dos doentes à dignidade de Sacramento através da Unção dos enfermos. Que esses belos testemunhos sejam incentivo para que nós, cristãos do século XX, continuemos a dar ao mundo esse testemunho que tanto surpreendeu os pagãos na Antiguidade, que edificou a cristandade medieval e legou ao mundo moderno e contemporâneo o cuidado e o zelo com a vida humana desde a concepção até a morte natural, principalmente nos momentos de maior sofrimento pela fragilidade causada pelas enfermidades. Que no ocaso de nossa vida tenhamos a graça de ser acolhidos por Cristo e d'Ele ouvir: “Vinde benditos de meu Pai! Pois eu estava doente e cuidastes de mim.” (Cf. Mt 25, 33.36).
 
Eduardo Douglas Santana Silva,
seminarista da etapa formativa discipulado III, 3 º ano de filosofia



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