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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/11/2020

28 de Novembro de 2020

Uma reflexão sobre o dogma da Assunção de Maria Santíssima

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28 de Novembro de 2020

Uma reflexão sobre o dogma da Assunção de Maria Santíssima

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31/10/2020 00:00
Por: Redação

Uma reflexão sobre o dogma da Assunção de Maria Santíssima 0

Introdução
No dia 01 de novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamou, através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus (MD), que Maria de Nazaré, Mãe de Jesus e nossa, foi elevada ao céu em corpo e alma. Portanto, Maria não teve, por soberana vontade de Deus, que experimentar a corrupção do corpo, que ocorre no sepulcro, e tampouco teve que esperar a redenção desse mesmo corpo no fim dos tempos (MD, n. 5).

Essa proclamação diz respeito à quarta verdade de fé que a Igreja Católica Apostólica Romana professa sobre Maria, para a qual ela é a sempre Virgem e Imaculada Mãe de Deus. Estes privilégios e verdades dependem totalmente dos méritos de Jesus Cristo, nosso único e eterno mediador (para uma síntese desses dogmas, veja-se o número 1.161, p. 15 do Testemunho de Fé).

Antes de tudo, o dogma da Assunção de Maria é um ato de fé em Deus Onipotente e rico em misericórdia, que tudo fez, faz e provê segundo o seu inefável plano de amor e salvação. O Alfa e o Ômega de todo o universo. Nesse sentido, cada ação de Deus, Uno e Trino, contém e revela a sua infinita sabedoria e a sua divina providência. Cabe à Igreja, atenta aos sinais dos tempos, perceber a presença e o agir de Deus, na história, manifestando-os à humanidade pelo testemunho vivo da fé.

Contexto histórico
Quando o Papa Pio XII assumiu a Sé de Pedro (2/03/1939), já existiam, como ele mesmo afirmou, inúmeras petições para que o dogma da Assunção (MD, n. 7–10), relacionado ao dogma da Imaculada Conceição (1854), fosse definido de forma solene e pública para toda a Igreja.

Além dos estudos e aprofundamentos sobre a matéria, a fim de que o Papa pudesse se pronunciar a respeito, julgamos fundamental assinalar que a proclamação do dogma da Assunção também estava associada ao momento histórico em que vivia a humanidade. Havia muita tristeza, devido aos horrores causados pela Segunda Guerra Mundial, muitos tinham se afastado da fé e da verdade do Evangelho. O Papa tinha percebido a necessidade de repropor o caminho do bem, da justiça e da verdade, para a humanidade, sob a tutela e sinal do anúncio da fé, da esperança e da caridade que se encontram vivos e presentes no fim glorioso que Deus concedeu à Maria Santíssima (MD, n. 2).

É possível dizer que o mundo, em particular a Europa, precisava ser reconstruído não apenas a partir dos destroços deixados pela guerra, mas, principalmente, a partir do sentido da vida e da existência humana recriada e renovada em Jesus Cristo. Um novo olhar para Maria, a mulher do Sim incondicional a Deus, oferecia o caminho oportuno pelos vínculos que associam Mãe e Filho.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres tiveram que realizar muitas tarefas, pois os homens (pais, maridos, irmãos e filhos) estavam lutando e morrendo nos campos de batalha. Estima-se que o número de mortos tenha chegado a 85 milhões de pessoas. Só o terrível holocausto ceifou, com indizível crueldade, mais de seis milhões de judeus. Sem dúvida, no meio desse caos, o protagonismo feminino tinha se tornado uma questão de vida ou morte. Após a guerra, havia uma realidade visível e indiscutível: diante dos destroços era necessário empreender a reconstrução e, em particular, essa missão estava confiada às mulheres.

Essa percepção não é bem clara para os que não viveram, diretamente, o drama da Segunda Guerra. Mas, o Papa Pio XII, de forma lúcida e perspicaz, ao declarar o dogma da Assunção de Maria estava conclamando as mulheres de uma Europa devastada, e do mundo inteiro, a olhar e a se inspirar em Maria, como modelo de mulher de fé pura e virginal, de mãe salutar e plenamente envolvida com o bem-estar do próximo pelo seu protagonismo social e religioso, mediante o qual se pode contemplar o verdadeiro fim da humanidade: a glória de Deus.

Se o dogma, por um lado, aponta para o prêmio que Deus concedeu a Maria, por outro lado, atesta a sua pessoal e indispensável participação na história da salvação. Dessa forma, confirma-se a célebre frase de Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Tudo isso, porém, exige-se que se tenha o olhar fixo na atuação da mulher, confirmando a promessa que Deus fizera à progenitora Eva no protoevangelho (Gn 3,15) e que se cumprira na plenitude do tempo com Maria, a genitora de Deus e de uma renovada humanidade (Gl 4,4).

A estrutura da Constituição Apostólica
Da introdução (MD, n. 1–6) à definição do dogma (MD, n. 44–47), o documento papal fundamenta essa verdade de fé percorrendo quatorze pontos (MD, n. 7–43). O principal argumento e critério apoia-se nos testemunhos baseados na fé da Igreja que afunda as suas raízes na Tradição viva, nas Escrituras e que se desenvolve graças ao empenho da teologia que faz avançar a intelecção da Divina Revelação e dos planos de Deus nela contidos.
A metodologia teve, como ponto de partida, a consulta ao episcopado, pelo qual o Papa quis ouvir o parecer dos bispos do mundo inteiro (MD, n. 11). A questão norteadora era se havia uma doutrina concorde em todo o magistério da Igreja (MD, n. 12). A base dessa doutrina estava pautada no testemunho da fé na Assunção (MD, n. 13–15), e no testemunho da liturgia (MD, n. 16–18), pois há muito se festejava a Assunção de Maria ao céu. Por esta festa, os fiéis podiam e podem entrar em contato e celebrar a verdade de fé que ela contém (MD, n. 19–20).

Graças a isso, foi possível percorrer as várias etapas da história dessa fé viva da Igreja, desde o testemunho dos Padres da Igreja até os ilustres teólogos da modernidade (MD, n. 21–37) e de verificar, nessas etapas, como se fazia presente tal verdade de fé. Acredito que um dado singular serviu de bússola e se encontra no Magnificat (Lc 1,46-55). A razão para tamanha grandeza advém do fato irrefutável: “o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49). O fio condutor, presente nas entrelinhas de várias passagens das Escrituras, revelava a força do argumento irrefutável: a união íntima e vital de Maria com o seu primogênito Filho Divino, Jesus Cristo.

Pela força desse vínculo, Maria foi predestinada por Deus, desde toda a eternidade (Ef 1,5), para ser, em tudo, semelhante ao Filho Divino, ao qual gerou, deu à luz, amamentou, fez crescer, educou, iniciou na vida pública (Jo 2,1-12), seguiu como fiel discípula que faz a vontade do Pai e reiterou o seu Sim, na cruz, estendido à toda a humanidade (Jo 19,25-27). A sua presença e fiel testemunho foram indispensáveis para os apóstolos reunidos no cenáculo (At 1,14).

Assim, era conveniente que o triunfo sobre a morte, alcançado por Jesus em sua obediência filial ao Pai, fosse estendido, igualmente, àquela de quem recebeu a nossa humanidade isenta da mácula do pecado: a sua Virgem Mãe, a Imaculada Conceição. Assunta ao céu, em corpo e alma, Maria atesta que a glória de Deus é sinal vivo do seu amor por toda a humanidade (MD, n. 38–40).

A oportunidade da proclamação do dogma da Assunção de Maria aparece intimamente ligada ao “momento estabelecido pela providência de Deus” e que, como dito no contexto histórico, teve a ver, igualmente, com o novo sentido do pós-guerra. O Papa Pio XII viu na proclamação desse dogma a projeção da luz divina sobre a humanidade, auspicando que “a fé na assunção corpórea de Maria ao céu torne mais firme e operativa a fé na nossa própria ressurreição” (MD, n. 42).

Considerações finais
A fé cristã é marcada pelo reconhecimento do envolvimento do ser humano no plano divino da salvação. A história, do Gênesis ao Apocalipse, está marcada por altos e baixos. É como um eletrocardiograma que mostra como cada ser humano pode verificar esse envolvimento, bem como o sentido que tem procurado dar à sua vida. Nessa trajetória, Deus quis confiar à mulher a graça de conceber e de continuar gerando a humanidade. Então, para o fiel, enquanto a mulher e o seu ventre estiverem ao serviço da vida, a esperança de renovação não ameaçará o seu futuro.

Diante de grandes e numerosos desafios, olhar para as verdades de fé, que a Igreja proclamou sobre Maria de Nazaré, permite que cada fiel reflita sobre a própria vida e o quanto tem procurado corresponder ao amor de Deus.

Que a felicidade plena, a ser recebida um dia na glória de Deus, comece a ser experimentada e contemplada pela ardente e salutar devoção a Maria. Que a sua assunção ao céu, em corpo e alma, nos faça sempre lembrar e trilhar o caminho da graça: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Pe. Leonardo Agostini Fernandes
Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Prof. de Sagrada Escritura do Dep. de Teologia da PUC-Rio
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ




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