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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2020

23 de Setembro de 2020

Perdemos as multidões

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23 de Setembro de 2020

Perdemos as multidões

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16/09/2020 20:02
Por: Redação

Perdemos as multidões 0

No último feriadão da Independência, vimos perplexos inúmeras imagens de situações de aglomeração em todo o Brasil, principalmente em cidades litorâneas, como é o caso do Rio de Janeiro, com praias cheias, bares e restaurantes lotados e muita gente na rua, embora a pandemia da Covid-19 ainda não tenha acabado e ainda estejamos na primeira etapa da fase 6 do plano de retomada das atividades formulado pela prefeitura do Rio. Porém, tudo isso era esperado, afinal de contas, “cariocas não gostam de dias nublados”, e em um feriadão de céu aberto, sol e calor, dificilmente as pessoas ficariam aglomeradas em casa. A aglomeração seria mesmo nas praias, ruas, praças, barzinhos etc., o típico programa carioca de fim de semana. Mas e as nossas igrejas, tão rigorosas com as regras de afastamento e higiene, como ficaram? Havia filas de espera para participação nas missas dominicais? Havia pessoas do lado de fora esperando uma vaga para se alimentar da Sagrada Eucaristia, como é comum acontecer nos restaurantes em dias mais concorridos? Penso que não! Pelo menos não foi desta forma na minha paróquia em Vila Isabel, assim como também não o foi nas paróquias de muitos padres amigos com quem tenho conversado. E por quê?

No início da pandemia tivemos que fechar nossas igrejas. Os bispos precisaram suspender a obrigatoriedade do cumprimento dos preceitos dominical e festivo. Houve muitos protestos de alguns fiéis que pediam “devolvam-nos a missa”. Tamanha era a comoção do povo com os templos fechados, com os padres se desdobrando para anunciar o Evangelho e transmitir mensagens de esperança aos seus paroquianos pelas mídias sociais ou saindo mesmo sozinhos com o Santíssimo Sacramento pelas ruas, foi tanta criatividade no apostolado, que tudo isto, naquele momento, nos fez pensar que ao reabrirmos as portas o povo retornaria ávido pelos sacramentos, principalmente da Eucaristia e da Confissão. Doce e breve engano! Não foi isso o que aconteceu. Na verdade, parece que estamos muito distantes desta realidade ou, quem sabe, utopia mesmo.

Vários são os fatores que podem explicar a manutenção deste esvaziamento de nossas igrejas. Um deles é o fato público e notório de que a grande maioria de nossos paroquianos é envelhecida e faz parte do grupo de risco, e que, por isso mesmo, deve evitar se expor. No entanto, muitos destes não deixaram de frequentar mercados, farmácias, bancos e até shoppings. Mas e os jovens das pastorais e movimentos eclesiais sempre a reivindicar mais espaço na vida paroquial, onde estão? Estes, teoricamente, não fazem parte do grupo de risco e, muito provavelmente, não estão trancafiados em casa há seis meses. O que ocorre com o nosso povo? Repetindo as palavras certa vez proferidas pelo Papa Pio XII, agora carregadas de atual significação: “perdemos as multidões”.

Ocorre que criou-se um mau costume, porém necessário para um dado momento de nossa história, de se acompanhar os sacramentos pelas mídias, sem de fato celebrá-los ou vivê-los. Já no início da pandemia, o Papa Francisco numa homilia em Santa Marta advertia para o risco de uma fé gnóstica, sem comunidade e contatos humanos reais, vivida unicamente através do streaming que “viraliza” os sacramentos: “Uma familiaridade sem comunidade, uma familiaridade sem o pão, uma familiaridade sem a Igreja, sem o povo, sem os sacramentos é perigosa. Pode tornar-se uma familiaridade – digamos – gnóstica, uma familiaridade somente para mim, separada do povo de Deus. A familiaridade dos apóstolos com o Senhor sempre era comunitária, se dava sempre à mesa, sinal da comunidade. Sempre era com o sacramento, com o pão”. Nesta homilia, o Santo Padre admitia que a pandemia é uma situação difícil em que os fiéis não podiam participar das celebrações e podiam apenas fazer a comunhão espiritual, que era preciso sair do túnel para voltar a estar juntos porque esta não é a Igreja. “Esta é a Igreja de uma situação difícil, que o Senhor permite, mas o ideal é sempre o povo e com os sacramentos. Sempre”, reiterava o Sumo Pontífice.

O Santo Padre foi especialmente iluminado nesta sua homilia. Não se pode ter uma prática de fé unicamente através das mídias. Os padres e os bispos deverão ter muito trabalho se quiserem trazer de volta as pessoas para a igreja. E o caminho não será outro senão o da catequese e da piedade litúrgica. Há que se instruir o povo a respeito da riqueza da celebração dos sacramentos, que a comunhão espiritual é ato devocional, acidental e não litúrgico, essencial. Jesus disse no seu discurso eucarístico: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos (Jo 6, 53)”. Um discurso duro, que fez o Senhor perder muitos seguidores, mas que deve ser corajosamente hoje repetido pelos nossos pregadores.

Mais do que nunca é preciso fomentar e sedimentar em nosso povo uma espiritualidade verdadeiramente litúrgica e eucarística. Se durante o período do mais rigoroso isolamento social nós supervalorizamos o ato devocional da comunhão espiritual, ensinando o nosso povo a melhor maneira de realizá-la, porque assim era necessário, este é o momento de expor, através de uma catequese séria e consistente, a teologia dos sacramentos, os seus efeitos para a salvação das almas, que não há Igreja fora da dimensão comunitária e que a eucaristia é pão, corpo e sangue de Cristo e não apenas desejo de recebê-lo.  

As nossas liturgias também precisam ser mais bem celebradas, de modo que as pessoas sintam vontade de estarem realmente presentes. E nossa Igreja tem uma liturgia tão rica e tão bela, que muitas vezes é mal celebrada, com pregações que poderiam ser mais bem preparadas. São tantos os sinais que falam ao coração e à alma da nossa gente, que poderiam ser mais bem aproveitados, como o evangeliário, o incenso, a boa música litúrgica, o órgão, a beleza sóbria das vestes litúrgicas, o silêncio bem colocado etc. Todos estes elementos não podem ser bem aproveitados nas nossas transmissões midiáticas. Somente ao vivo e em todas as dimensões que a realidade nos possibilita é possível tudo isso e celebrar de modo que o espírito seja verdadeiramente elevado a Deus. E estes elementos não estão distantes de nós, muito pelo contrário, eles integram a nossa identidade litúrgica e católica.

Em novembro do ano passado, quando iniciamos o ano arquidiocesano missionário, não imaginávamos que teríamos de rever a nossa ação missionária para trazer de volta aqueles que naquele momento já estavam conosco. Mas, este é um desafio ao qual o próprio Espírito nos habilita, não somente em vista destes, mas também daqueles que já estavam distantes.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.



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