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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2020

23 de Setembro de 2020

Cinema-Movimento Parte II

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Cinema-Movimento Parte II

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07/09/2020 16:42
Por: Redação

Cinema-Movimento Parte II 0

No artigo publicado na semana passada, iniciamos nossa jornada ao estudo sobre a filosofia do cinema de Deleuze, iniciando o percurso pelo seu comentário às teses do movimento de Bergson. No último artigo conseguimos falar sobre a primeira das três teses sobre o movimento.

É importante também recapitular que apesar de estarmos abordando a temática do movimento pela ótica de autores contemporâneos, a discussão sobre o movimento procede das mais antigas escolas filosóficas que remontam à antiguidade clássica, como por exemplo, os paradoxos de Zenão de Eleia que citamos no último texto.

Bem, voltando à “A evolução criadora” de Bergson, nós recebemos a distinção de duas formas de ilusão: a antiga e a nova. Deleuze irá esmiuçar isso, e é a partir do texto dele em “A imagem-movimento” que me baseio. A antiguidade clássica estava marcada por uma noção de instante pessoal, que privilegia o momento da pose e nunca a aleatoriedade do movimento. Há na concepção antiga uma clara tendência de somatizar o movimento e a forma, pois o movimento se dava pela passagem das formas, que no final de tudo iria resultar em sua repetição, para justamente reprisar a forma mitológica, ou se preferir, os arquétipos.

A modernidade irá romper rapidamente com esta noção, pois a partir da revolução científica, a noção de movimento deixará o “instante privilegiado” para valorizar o “instante qualquer”. O movimento deixará de ser recomposto pelas poses, em vez disso, passará a ser a partir de elementos materiais, os cortes. Assim como aconteceu na desvinculação da astronomia da astrologia, que ao invés de privilegiar a observação dos astros por suas posições e alinhamentos, passou a percebê-los tal como são no cosmos, também auxiliou nessa transformação o plano cartesiano ao tratar da posição de um ponto em uma reta móvel em um momento qualquer do seu trajeto. Em suma, a grande revolução do movimento com o advento da modernidade é a derrocada do instante privilegiado em favor do qualquer.

Ao se desvincular do tempo antigo, ou seja, do instante privilegiado, a ciência moderna passa a valorizar uma noção de tempo abstrata, pois não há mais o marco do eterno, do mítico para determinar essa passagem, portanto, o tempo é simplesmente mais uma medida somada a tantas outras que de algum modo tentam tornar a natureza inteligível e que na perspectiva do movimento o ajude a tornar linear. É a substituição de um tempo transcendente por uma análise imanente do tempo.

Para Bergson, o cinema aparece como o último representante da ilusão do movimento. Ele é o auge de uma série de invenções que ajudaram a crescer nesta ilusão, como o trem, carro, o avião, ou seja, meios translação, além dos meios de expressão como o gráfico e a fotografia. A câmera, como diz Deleuze, é um equivalente generalizado dos movimentos de translação.

Bergson considerava o cinema como descendente de todos esses aparelhos da modernidade que de alguma forma reprisam a ilusão do movimento, o cinema atua como o auge desta evolução, a ilusão cinematográfica, termo que ele cunhou. Bérgson acreditava que o cinema deveria ser superado, que a modernidade precisava de uma filosofia à altura de suas questões, uma nova metafísica, tal como os antigos tiveram Platão para tratar em sua metafísica das ideias e das formas, Bérgson se considerava à altura de propor uma nova filosofia para responder a estes problemas.

Deleuze irá dizer que Bérgson é cinematográfico à sua revelia, pois o cinema é o auge da ilusão mecanicista, pois além de possuir a engrenagem automática dentro do aparelho, ao reproduzir a imagem ele recria a ilusão de um movimento automático. Além disso, Deleuze considerava o cinema como a porta desta nova metafísica que Bérgson almejava. Para tanto Deleuze irá primeiramente falar sobre as cinco condições de existência do cinema.

As condições de existência do cinema iniciam-se na invenção da fotografia, pois não há cinema sem fotografia, entretanto, a fotografia não pode submeter-se à imagem posada, pois esta remeteria à ideia do antigo movimento. Portanto, uma foto que é tirada no instante, ou seja, no instante qualquer, por isso é também necessário que para isso haja uma equidistância entre as fotografias na película, para que assim nenhum deles seja privilegiado.

A segunda condição é a transferência das fotografias equidistantes para a fita, que formará, então, a película. Está torna possível a primeira, pois proporciona o mecanismo que arraste as fotografias e crie os instantes quaisquer. Contudo, o cinema ultrapassa os instantes quaisquer, a essência do cinema está não nos fotogramas, mas entre eles, é o que se passa no meio deles. Deleuze enxerga o cinema com intervalo, o movimento do falso. Os fotogramas não são a realidade primeira do cinema. O cinema já contém em si uma espécie de “metafísica do intervalo”, portanto é a metafísica do movimento que parte não mais das posições, mas do intervalo, assim se rompe com os paradigmas e as questões do movimento.
O cinema é então a resolução do paradoxo do movimento, pois ele desloca seu objeto de reflexão, e assim a ilusão cinematográfica traz às claras o profundo deste problema, essencialmente metafísico.
 
Bibliografia:
DELEUZE, Gilles. A imagem movimento. São Paulo: Editora 34, 2018.
BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Unesp, 2010
Seminarista Filipe Freitas Machado


 
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