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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

A virtude da castidade

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A virtude da castidade

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01/08/2020 03:19
Por: Redação

A virtude da castidade 0

Ninguém despreze tua jovem idade, mas sê exemplo para os fiéis na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na castidade. (1Tm 4,12)

Do ponto de vista ético-moral, a castidade e a continência não deveriam ser vistas como sinônimas. Enquanto a castidade é uma conduta assumida por quem se preocupa em viver a própria sexualidade de modo integrado e em plena conformidade com uma concepção objetiva de pureza corporal e espiritual; a continência é uma entrega-afirmação de amor, de forma voluntária, temporária ou permanente, no que diz respeito a qualquer relação corporal íntima, em sinal de doação ao próximo. As duas, porém, possuem uma estreita relação com as virtudes, em particular com a temperança, que ajuda a pessoa a buscar e a ter o domínio de si e de seus impulsos sexuais (CatIC 2339; 2341).

A Sagrada Escritura oferece exemplos edificantes e que ajudam a compreender a virtude da castidade que impõe a continência aos cônjuges, pela fidelidade indissolúvel, e que deve ser praticada por quem se prepara para o casamento, bem como por quem viuvou, e é exigida na vida de quem está unido a Deus pela vocação sacerdotal, religiosa ou consagrada (CatIC 915; 922; 2349-50).

Tb 8,5-9 contém uma belíssima oração que Tobias e sua esposa Sara fizeram antes de consumarem o matrimônio. Nessa oração, Tobias diz que não tomou Sara por simples prazer, mas por reta intenção (v. 7). Assim, demonstra o entendimento sobre a nobreza da ação. O livro de Tobias, além disso, pode ajudar muitas famílias a redescobrir a importância da oração e das obras de misericórdia na educação dos filhos e no sentido do cumprimento do quarto mandamento.

Jt 8,1-36 apresenta a viúva Judite, considerada uma mulher forte, piedosa e respeitada por todos os habitantes de Betúlia. Foi por suas mãos que o Senhor livrou o povo de um extermínio. A eliminação do ímpio, narrada de forma violenta no livro, pode ser considerada uma metáfora sobre a necessidade de se combater o inimigo de Deus e do ser humano com inteligência e enérgica astúcia. No final do livro, narra-se que pelos gestos heróicos, a fama de Judite cresceu e muitos a pretenderam, mas a sábia mulher preferiu permanecer e honrar a sua viuvez com a virtude da castidade (Jd 16,22).

Nm 6 é um capítulo que trata de um voto de consagração denominado nazireato, porque nazîr significa “consagrado” e, pelo contexto, podia ser feito tanto por um homem como por uma mulher. Sobre esta, porém, recaíam algumas condições caso fosse solteira ou casada. A dinâmica desse voto envolvia certas exigências para o seu cumprimento. A consagração, porém, visava tanto o aumento das forças para se enfrentar as adversidades como para se rejeitar a vida fácil e cômoda.

Jesus foi chamado de nazareno (Mt 2,23), mas é o nazîr por excelência, pois consagrou a sua vida totalmente a Deus Pai e à sua vontade na unção do Espírito Santo em favor da Humanidade e da instauração do Reino de Deus. O relato das tentações, por um lado, atesta a sua integridade psicossomática (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13), e, por outro lado, a Sua vida pública, simples, ilibada e pura comprova o valor dessa integridade. Por isto, “Cristo é o modelo da castidade. Todo batizado é chamado a levar uma vida casta, cada um segundo seu estado de vida próprio” (CatIC 2394).

Jesus ensinou sobre a castidade e a continência voluntária como consequências da questão sobre o divórcio (Mt 19,1-12). A razão é óbvia: matrimônio e vida consagrada são os dois polos que fazem crescer a comunidade de fé, se forem vividos como dom e vocação em função do Reino de Deus. Não estão em oposição, mas em íntima relação na realização do plano salvífico de Deus.

Em sintonia com esse ensinamento, Paulo, aos cristãos de Corinto, falou sobre o casamento e a virgindade; afirmou que o que vale é a observância dos mandamentos de Deus (1Cor 7,19) e que o batizado deveria permanecer diante de Deus na condição em que se encontrava quando foi chamado (1Cor 7,24). Apesar de o matrimônio ser o caminho comum entre os fiéis, Paulo considerou a virgindade consagrada uma opção melhor em função do serviço a Deus na Igreja e da liberdade frente às preocupações da vida conjugal (1Cor 7,25-40). Paulo foi, por certo, um homem bem resolvido na sua sexualidade, pois ensinou o que vivia. Se não fosse assim, não teria dito: sede meus imitadores como eu mesmo o sou de Cristo (1Cor 11,1). Ainda, segundo Paulo, a castidade é um dos 12 frutos do Espírito Santo na vida do batizado (Gl 5,22-23; CatIC 1832; 2345).

O CatIC, em consonância ao sexto e nono mandamentos, aponta seis ofensas à castidade: luxúria, masturbação, fornicação, pornografia, prostituição e estupro (2351-2356); também reflete sobre a relação entre castidade e homossexualidade (CatIC 2357-2359). É preciso reconhecer que essas ofensas não estão só no âmbito do ato, mas também na intenção da mente e do desejo do coração (Mt 5,28). No ensinamento sobre o puro e o impuro, Jesus afirmou que a maldade vem de dentro do ser humano (Mc 7,14-23). Já o antídoto foi apontado na sexta bem-aventurança: Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8; CatIC 2518). Contudo, “A purificação do coração exige a oração, a prática da castidade, a pureza da intenção e do olhar” (CatIC 2532).

Ao se considerar a castidade um dom-vocação de Deus e uma virtude ligada ao Batismo (CatIC 2520), admite-se que ela não se reduz apenas à sexualidade ou à atividade sexual. Se isso acontece, coloca-se um enorme peso sobre essa virtude, limitando e prejudicando a sua aceitação, compreensão, busca e aplicação na vida humana. Ela não é uma declaração de hostilidade ao corpo e à sexualidade, como ocorreu em certas correntes filosóficas, como o estoicismo e o neoplatonismo, na hora de combater a deturpação do epicurismo, muitas das vezes associado às práticas eróticas e hedônicas. De igual modo, não seria correto atribuir ao cristianismo, de forma peremptória, a responsabilidade pela origem e difusão de uma mentalidade repressora e pelo peso de uma angústia existencial que atestam uma neurose sexual que se estabeleceu em muitas culturas que, lamentavelmente, acabaram por generalizar e banalizar a sexualidade humana.

Para se evitar tal reducionismo, a virtude da castidade poderia ser aceita, objetivamente, como sinônimo de pureza e tem a ver com todo o dinamismo que torna uma pessoa íntegra de corpo e alma. Próprio por isso, a pessoa, graças à virtude da castidade, admite, sem hesitar, que a sexualidade é boa, em si, porque querida por Deus criador, e é “fonte de alegria e de prazer” (CatIC 2362), por ser uma dimensão intrínseca, efetiva e indispensável ao ser humano. Por isso, não vai submetida ao domínio das emoções, ou dos sentimentos, mas ao domínio sensato e equilibrado da razão e do amor.
A virtude da castidade permite que exista, contra as dicotomias, um justo equilíbrio entre o corpo e a alma. Esse equilíbrio, ou integridade não permite que se veja essa virtude como um ato de repressão ou supressão da sexualidade, pois sem esta nenhum ser humano conseguiria se relacionar, de maneira saudável, com o seu próximo, seja ele do mesmo sexo ou seja do sexo oposto. Somado a isso, deve-se, igualmente, admitir que a virtude da castidade não é resultado de condicionamentos culturais ou religiosos, nem tampouco de propostas descabidas sobre ideais etéreos e ascéticos. É fundamental aceitar que a renúncia da atividade sexual, como se dá na continência, não é o núcleo da virtude da castidade, mas se essa acontece, deve-se ao assentimento, sinal de amor, que a pessoa deu, ou dá, a uma ordem de valores mais elevados e sublimes, como no caso da vocação consagrada a Deus.

Se não fosse assim, não faria sentido falar da prática da virtude da castidade entre casais, pois graças a ela a expressão da sexualidade mira evidenciar o amor mais puro e interpessoal, pelo qual se evita qualquer tipo de atitude que possa denegrir a imagem e a dignidade de um dos cônjuges. Graças à virtude da castidade, o casal, consciente e responsável, pode vencer a força dos instintos que, em geral, se apresenta na impulsividade sexual e que acaba por deturpar o valor e a importância elementar que existe na dimensão da sexualidade humana. O ato sexual, quando lícito, é um meio e não a finalidade de uma relação humana saudável (CatIC 2364-2372).

Quando a força dos instintos não é controlada, é possível que um dos cônjuges, ou os dois, estejam manifestando algum tipo de distúrbio, ou estejam debaixo de influxos sociais que fizeram do hedônico a sua evidente convenção cultural, disfarçada de naturalismo. Sobre isso é doveroso dizer que não é verdade o que geralmente se pensa, ou se apregoa que “entre quatro paredes tudo é lícito ao casal”. Sim, é lícito tudo o que preserva e dignifica o ser humano. O dever do respeito conjugal é condição sine qua non para que o amor não seja violado quando os cônjuges cristãos exercitam a sexualidade através da relação sexual consensual e honesta.

Portanto, a virtude da castidade não é inibidora do prazer, mas promotora da demanda de amor e de felicidade que reside em cada ser humano. Se existe austeridade e rigor na prática dessa virtude é porque, sem a devida disciplina, a razão não consegue domar os próprios instintos e paixões. Então, a partir do que ensinou Aristóteles – “nada existe no intelecto do ser humano que antes não tenha passado pelos seus sentidos” –, é preciso ter o devido cuidado com as percepções e as emoções, para que os erros sejam afastados, a fim de que os sentimentos e os pensamentos estejam sempre orientados para a supremacia do amor que é a fonte inexaurível da castidade.

Para um aprofundamento doutrinal sobre a virtude da castidade, veja o CatIC 2337-2359.
 
Padre Leonardo Agostini Fernandes
Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Doutor em teologia bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana-Roma
Professor de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá / RJ



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