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01 de Outubro de 2020

Ainda na Polônia

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01/08/2020 03:17
Por: Redação

Ainda na Polônia 0

          No último artigo, tive a oportunidade de tratar sobre o polonês Krzysztof Kieslowski, assunto sobre o qual, gostaria de dar continuidade. Na última publicação pude concentrar-me na fase polonesa do diretor, ilustrando com comentários sobre o “Dekalog”, na presente gostaria de privilegiar a francesa.

            Kieslowski era um dos grandes pensadores pessimistas do cinema, que de certo modo o tornava uma espécie uma espécie de vanguardista, ao pregar que o nível do cinema no século XXI, não se equipararia ao do XX. Essa posição se provava de modo muito simples, bastava pensar que em um determinado momento da história do cinema, diretores como: Fellini, Bergman, Tarkovski, Kurosawa, Rossellini, Pasolini e até o próprio Kieslowski, estavam ao mesmo tempo em plena atividade produzindo as grandes pérolas da história do cinema. E ainda mais, que na década de 90, a maioria desses diretores, já havia morrido ou não estava em atividade ou ainda pior, sua produção já não encontrava o mesmo nível que nas décadas anteriores.

            A construção das narrativas de Kieslowski se baseava antes de tudo no autoconhecimento, pois o mesmo acreditava que não é possível crer em um personagem, entendê-lo e desvendá-lo, sem antes cumprir todas essas etapas consigo mesmo. Cria ele ser necessário questionar-se em cada etapa da vida sobre as razões que levaram a formar aquele estágio. Para ele um grande sinal de qualidade da produção artística era deparar-se com algo, que de algum modo já se havia experienciado, o que, sem dúvida, aponta para um tipo de análise que prioriza a subjetividade.

            Tratando mais diretamente dos filmes, passemos à “Dupla vida de Veronique”, produção francesa, de 1991, e o último filme de Kieslowski antes da famosa e aclamada trilogia das cores. O filme narra a história de duas jovens idênticas (Irène Jacob), que se distinguem entre outras coisas pela nacionalidade, uma Veronika, e outra Veronique. Veronika morre ao se apresentar em um concerto, enquanto Veronique perde o gosto pela música e começa a se relacionar com um jovem ventríloquo.

            O filme tem seu diferencial na magistral direção de Kieslowski, que retira de uma trama aparentemente simples, uma gama de elementos que normalmente aparentam estar no interior impenetrável das almas humanas. Kieslowski chega a flertar com alguns elementos da psicanálise, que ao ser analisados dentro do conjunto do filme, não encontrar ressonância, por isso acabam tornando-se uma espécie de crítica conceitual muito delicada e astuta.

            É interessante também considerar a perspectiva de concepção do filme através da chave da própria natureza do cinema, pois o desenvolvimento da trama só ocorre por uma vontade artificial. Claro que poderíamos pensar que isso ocorre em qualquer tipo de narrativa, mas no caso específico de “A dupla vida de Veronique”, este aspecto encanta justamente pela sutileza e simplicidade do argumento. É muito provável que ao assistir esse filme, o espectador tenha a nítida sensação de já haver experimentado deses pressupostos anteriormente, entretanto, o mesmo perceberá que a condução de tudo isso causa o grande diferencial do filme.

            Em “A fraternidade é vermelha”, de 1994, o último filme de Kieslowski, novamente nos deparamos com uma questão presente em “A dupla vida de Véronique”, pois vemos nos diálogos narrados pelo personagem do juiz à modelo (Irène Jacob) que as histórias desdobram-se na vida de outro indivíduo; o que está em jogo na verdade é a questão da virtualidade frente à existência concreta, tema que o diretor já havia usado, de modo que assumiu certa vanguarda quando tratou em um dos episódios do “Dekalog” sobre a relação do homem com os jogos eletrônicos. O cerne está justamente em tomar certa direção ou não no campo da talvez não existência.

            O último filme de Kieslowski, provavelmente o melhor da trilogia das cores, inicia por um acontecimento banal, o atropelamento de uma cadela, que leva a protagonista (Irène Jacob) até o dono, um juiz amargo que passa o tempo grampeando ligações telefônicas. O interessante é que novamente através de um comportamento banal, nos deparamos com um personagem forte, que através da espionagem invade e aprofunda o conhecimento sobre a vida das pessoas, chegando até mesmo a atrair Valentine (Jacob), que a princípio demonstra repulsa. Ele é uma espécie de dementador emocional, que na união com Valentine constroem uma espécie de síntese da Europa nos últimos anos do século XX.

            A relação com o lema dos iluministas, no contexto das celebrações do bicentenário da revolução, se mostra mais notável na aplicação dos grandes problemas sociopolíticos do continente, sobre o minúsculo evento do atropelamento de um cão, que pela abordagem e maturidade do roteiro conseguem tratar a altura da metáfora de problemas que avançariam o século seguinte. A construção de uma Europa sem fronteiras, mas que ao mesmo tempo se ia tornando apática pela perda da identidade sob a qual foi construída e consequentemente que não consegue vislumbrar o seu futuro.

            Em 1996, Kieslowski morre, aos 54 anos, com a percepção de que seu pessimismo em relação ao futuro da produção cinematográfica se mostrava cada vez alicerçado na realidade. Na ocasião de sua morte, da grande geração dos diretores do século XX, permanecia vivo e na ativa, apenas, Bergman, e sem grandes perspectivas na nova geração de diretores para recompor o quadro dos grandes cineastas do século XX.

Bibliografia:
HALTOF, Marek. The cinema of Krzystof Kieslowski: variations on destiny and chance.
Londres: Wallflower Press, 2004
 
Filipe Freitas Machado
Seminarista


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