Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

A atuação da Igreja no Rio na pandemia do coronavírus

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06 de Agosto de 2020

A atuação da Igreja no Rio na pandemia do coronavírus

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01/08/2020 02:59
Por: Redação

A atuação da Igreja no Rio na pandemia do coronavírus 0

A atuação da Igreja no Rio na pandemia do coronavírus

“Temos a graça de Deus que conduz a nossa vida para aprender e ajudar o mundo a compreender que podemos ser melhores.”

 O arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, participou, na manhã do dia 24 de junho, de live promovida pelo Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) que tratou sobre “A atuação da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro na pandemia do coronavírus”. A live foi mediada pelo doutor em teologia e professor da PUC-Rio, monsenhor Antonio Luiz Catelan Ferreira.

Monsenhor Catelan -  Como tem sido para a Arquidiocese do Rio de Janeiro esse período de pandemia, e como tem acontecido o pastoreio através das mídias digitais?

Dom Orani - Assim que foi decretado o estado de emergência e a necessidade de distanciamento social, ambos no mês de março, as celebrações passaram a acontecer sem a presença do povo. O primeiro momento foi uma surpresa, pois como seriam as missas sem os fiéis? Para as paróquias que já utilizavam as plataformas digitais para a transmissão de celebrações, o sistema só foi ampliado. As demais paróquias tiveram de se adaptarem. Foi necessário um aprendizado rápido tanto para os sacerdotes quanto para o povo de Deus.

Na arquidiocese, nossas reuniões, antes presenciais, passaram a ser via internet. Muitas questões novas, fossem elas econômicas, sacramentais ou pastorais, tiveram que ser decididas de forma digital. Com meus compromissos desmarcados, passei a celebrar diariamente através de uma rede de plataformas, composta pela WebTV Redentor, Rádio Catedral, Facebook e YouTube. Além disso, a Oração do Ângelus e o Terço Mariano passaram a ser ao vivo, e não mais gravados. Foram alternativas para ficar mais próximo do povo, mantendo contato com ele através do telefone, da internet e do rádio.

Agora, vivemos um terceiro momento, o qual chamamos de híbrido. Continuamos com as transmissões, mas desde junho o Regional Leste 1 da CNBB optou pelo retorno das celebrações. No Rio, iniciamos o processo no dia 4 de julho, respeitando o protocolo de normas que enviamos para todas as paróquias. As igrejas foram higienizadas, houve uma preparação dos fiéis para aturem como voluntário. Quem deseja participar das celebrações precisa se inscrever antes para reservar seu lugar, uma vez que os templos só podem receber 30% da capacidade total. Alguns padres e leigos também participaram de um curso de orientação promovido pela Marinha do Brasil, o qual nos trouxe experiências as quais também compuseram a nossa cartilha de orientação.

Em contrapartida, o trabalho social não pode ser feito virtualmente. Houve um aumento no número de pessoas necessitadas nas ruas e também por toda a cidade, principalmente nas periferias. Mesmo assim, vimos o desdobrar da solidariedade, porque, ao mesmo tempo que aumentou o número de necessitados, cresceu o número de benfeitores, seja de alimentos ou produtos de higiene. O trabalho social continua. Do Rio saíram doações para as dioceses vizinhas. Nesse contexto não nos esquecemos nem da assistência e nem da transformação social. Porém, neste momento, o mais urgente, é dar o necessário para que a pessoa possa subsistir.

Também tivemos mudanças na arquidiocese, uma vez que o jornal “Testemunho de Fé” e o folheto “A Missa” passaram a ser on-line, ambos adaptados para o celular, com o intuito de ajudar na comunicação. Enquanto os veículos de imprensa fazem a contagem de pessoas mortas e contaminadas a cada dia, nós somos chamados a dar esperança e confiança para enfrentar a questão sem nos desesperarmos. Sabemos que é algo real, precisamos ter essa responsabilidade. A orientação da Igreja é para que continuemos com esse novo passo, mas com limitações.

Dessa forma, algumas questões ainda estão sendo pensadas, como o caso da catequese presencial. Ainda não sabemos como será porque, na sociedade, as escolas ainda continuam com o ensino a distância. Então, para nós, a catequese continua virtual. As paróquias encontraram meios para fazê-la, até mesmo pelo WhatsApp. São passos e oportunidades que se descobrem.

Penso que, diante de tudo isso, as preocupações sociais ficaram mais evidentes, não só a questão da assistência, mas da transformação social, como a habitação, educação, saúde, lazer. São questões a serem pensadas para que haja uma dignidade humana. Nesse aspecto, a Igreja do Rio tem caminhado e dado respostas.

Monsenhor Catelan - Por diversas vezes, o senhor apresentou o desafio de a Igreja manter-se próxima aos mais necessitados. A palavra ‘proximidade’ foi repetida muitas vezes em suas falas. É uma preocupação fundamental do pastor?

Dom Orani - Esse é um jejum que precisamos fazer. Digo isso porque ao chegar às paróquias, quando possível, eu logo me vestia e ficava na porta, conversando com as pessoas. Hoje, isso não é mais possível, pelo menos por enquanto. Mas encontramos soluções. Percebemos que, através dos meios de comunicação, embora não seja física, ainda assim é uma proximidade bonita. Passamos a ter a reação das pessoas, seja quando pedem intenções ou quando nos contam seus sofrimentos.

Podemos citar dois exemplos: o primeiro é sobre o 36º Congresso Eucarístico Internacional. Celebramos, neste ano, 65 anos de seu acontecimento aqui no Rio. Tivemos um programa especial, com as mensagens do Papa Pio XII em português e do então arcebispo, Cardeal Jaime de Barros Câmara, além da música oficial do congresso. Recebemos muitas mensagens de pessoas com seus 75 anos, que nos mandaram suas recordações, contando as experiências que tiveram naquele evento. Ao mesmo tempo, celebramos sete anos da Jornada Mundial da Juventude, e muitos também nos contam suas experiências, recordações e testemunhos.

Monsenhor Catelan - Quanto à Liturgia, o tema da participação e a utilização das mídias digitais abordam situações que ainda não são suficientemente claras, as quais ainda são discutidas e que não pretendemos dar uma palavra definitiva nesta conversa. Mas quando uma pessoa participa de uma missa pelas mídias digitais, podemos dizer que ela participa da celebração ou a assiste?

Dom Orani - Costumo dizer que os dois primeiros documentos do Concílio Vaticano II, Liturgia e Comunicação, são tal como Esaú e Jacó: já nasceram puxando um o pé do outro.

Durante os mandatos em que estive à frente da Comissão Episcopal Pastoral de Comunicação, Educação e Cultura da CNBB, era uma constante o questionamento acerca das transmissões de missas pela televisão. Pelo rádio quase não falavam, uma vez que, naquela época, a TV era a novidade. Fizemos, então, o diretório da comunicação. Demos os primeiros passos, e Dom Dimas Lara Barbosa, que me sucedeu, deu continuidade ao trabalho.
Para a Igreja, essa definição já existe: os sacramentos, todos eles, devem ser presenciais. Não existe sacramento virtual, seja confissão ou unção dos enfermos. A transmissão da missa, neste caso, para quem transmite é sacramento, mas para quem recebe é a Palavra de Deus, que é eficaz.

É indiscutível que a Palavra de Deus ilumina as pessoas. Porém, a participação na Eucaristia supõe a presença. Sem ela, com certeza, não é uma participação. Por isso é que se colocou a comunhão espiritual, o que também foi feito pelo Papa Francisco, quando as celebrações aconteciam na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano.

Sem a possibilidade de comungar, as pessoas viviam a abertura do coração para estarem com Jesus Cristo, na Eucaristia. A comunhão espiritual é o desejo de, quando possível, receber a Eucaristia. Enquanto não se pode, creio que o Senhor faz com que a pessoa que tem o coração aberto e generoso receba a graça de Cristo daquilo que está participando ou assistindo. Deus sabe da possibilidade e da sinceridade de cada um, e saberá dar a graça conforme as circunstâncias.

Monsenhor Catelan - Em virtude da pandemia, como serão realizadas a peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP) e a Festa da Unidade?

Dom Orani - O Santuário de Aparecida está fechado, porém, pode ser reaberto em agosto. A nossa peregrinação sempre acontece no último sábado de agosto. Como ainda não tínhamos essa previsão, além da necessidade de providenciar os ônibus com antecedência, transferimos nossa peregrinação para o último sábado do Ano Litúrgico, no qual seria a nossa Festa da Unidade.

Não iremos como nos demais anos, mas vamos com um número de pessoas reduzido, tanto por conta da capacidade do templo, quanto dos ônibus, os quais também só poderão ter 30% da capacidade.

Quebramos o recorde em Aparecida com o maior número de padres e de fiéis. Neste ano, devido às circunstâncias e prudência, não será assim, mas apenas como representantes.
 
Monsenhor Catelan - A celebração que o Papa fez sozinho na Praça de São Pedro, no dia 23 de março, intercedendo ao Crucificado, quando deu a bênção extraordinária Urbi et Orbi, foi mundialmente um momento marcante. Tem algum momento da arquidiocese, não como mais importante, mas simbólico dessa pandemia?

Dom Orani - Poderíamos pensar em dois. Um deles foi na Quinta-feira Santa, na Catedral, quando tivemos a Missa dos Santos Óleos e a renovação das promessas sacerdotais, sem o povo e sem os padres. Tínhamos apenas os oito vigários episcopais e a equipe de transmissão. Com capacidade para 10 mil pessoas, a Catedral estava vazia.  Mas vi fotos de muitos padres assistindo à missa e renovando suas promessas de onde estavam. Então, ver a Catedral vazia, mas a participação dos padres e do povo, foi marcante.

Outro momento foi no Santuário Cristo Redentor, quando abençoamos a cidade com o Santíssimo Sacramento. Tínhamos apenas a presença dos repórteres. Aos pés do monumento, pedimos ao Senhor para que abençoasse o nosso povo e nos livrasse dessa pandemia. São situações as quais não estamos acostumados, mas que marcam a nossa vida.

Monsenhor Catelan - A Pontifícia Academia para a Vida publicou, em 22 de julho, o documento “A Humana communitas na era da pandemia", no qual retomam o título do documento do Papa Francisco e propõem algumas reflexões acerca desse período. No início da pandemia, tivemos muitas interpretações atravessadas, as quais muito atrapalharam. Dessa forma, o senhor pessoalmente tem feito algumas reflexões, a partir desses desafios, em termos de perspectivas da convivência humana e dos significados que isso traz?

Dom Orani - Sim, tenho feito essas reflexões e as constatações não são muito boas. Há uma ideia de que, depois dessa experiência, de ver a fragilidade humana diante de um vírus, recorrendo a Deus em tantas questões, o ser humano pudesse  ser melhor, mais solidário e fraterno. Esse é o nosso desejo.

O que nós vimos, no entanto, é que mesmo em tempos de pandemia, quantos casais e famílias, em vez de se unirem, brigam ainda mais, se cansam de estarem juntos. Noutras vimos que, no lugar da solidariedade, acontecem tantos desvios diante de tanta necessidade que o povo tem. Em vez de pensar no bem comum, pensa-se em si mesmo.

Há a questão da fé, do encontro com o Senhor, vendo a vida por um fio. No entanto, muitos ainda questionam a existência de Deus e porque deixou tudo isso acontecer. Como nós, Igreja, podemos ajudar o mundo a pensar e fazê-lo mais justo, olhando uns para os outros como irmãos? O papel da Igreja é ser como fermento no meio da massa, sal da terra e luz do mundo, ajudando nessa missão.

Ao mesmo tempo, vimos que algumas situações são inusitadas. É necessário ficar em casa, mas há pessoas no Rio de Janeiro em que a casa tem apenas dois cômodos para seis pessoas. Como todos ficarão juntos? Isso nos leva a pensar sobre a questão da habitação com dignidade. Que o ser humano seja mais humano, não digo nem cristão, no convívio com os demais.

Pouco antes da pandemia, tivemos no Rio um encontro com a Comissão do Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, que já realiza um trabalho com a arquidiocese. Começaríamos um diálogo sobre a questão religiosa no mundo, porque, muitas vezes querem colocar a culpa na religião sobre a violência. Com a pandemia, continuamos, via plataforma. Decidimos publicar uma carta na qual cada religião escreveu uma parte, na qual a mensagem central é sobre a esperança nas mais variadas circunstâncias.

Muitos acreditam que, por ser religioso, a pessoa não tem direito a ocupar cargos, que ela não tem voz. Esse diálogo tem nos ajudado em muitos sentidos. Em nosso grupo há muitos juristas de todas as denominações, os quais nos ajudaram a escrever uma carta sobre essas questões. Tudo isso deve nos fazer pensar que algo precisa refletir para o amanhã.

Quais são as lições que tomamos disso tudo? A lição é que tivemos um momento de fragilidade. Se não aprendermos, continuaremos o amanhã do mesmo jeito ou até mesmo piores que hoje. Nossa responsabilidade, enquanto cristãos, é a de sermos testemunhas de que é possível ter um amanhã diferente.

Os problemas existem e não são poucos. São muitas as questões que machucam o coração do pastor. Nós não conseguimos resolver tudo, mas naquilo que depende da disponibilidade das pessoas e da Igreja Católica temos procurado ser presença. Há muitos caminhos a serem percorridos, o que não podemos é perder o norte que nos orienta. O Espírito Santo nos conduz e realiza maravilhas nas pessoas, e louvo a Deus por ver tantos sinais.

Sempre somos atacados, seja em ações pelo mundo ou críticas que tentam nos descreditar, afirmando que não podemos dar a nossa opinião à sociedade. Passamos por saraivadas de “flechadas”, tal como São Sebastião. Isso faz parte de nossa vida. Somos pecadores, chamados à conversão diariamente, mas temos a graça de Deus que conduz a nossa vida. Que possamos aprender e ajudar o mundo a compreender que podemos ser melhores.

Da Redação



 
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