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06 de Agosto de 2020

O cinema é polonês

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26/07/2020 01:39
Por: Redação

O cinema é polonês 0

Certamente que apesar de todo o ambiente de repressão da antiga URSS, muitos foram os artistas que conseguiram transcender ao autoritarismo do regime e brindar o mundo com grandes obras. No cinema não foi diferente. Já tivemos a oportunidade de tratar nesta coluna sobre o russo Andrei Tarkovski. Passemos agora ao polonês Krzystof Kieslowski.

Com uma filmografia relativamente extensa, de quase 30 anos, a carreira de Kieslowski pode ser dividida em dois grandes períodos: o das produções polonesas e das francesas. Provavelmente, ele é mais conhecido pela segunda, já que nela está contida a badaladíssima “trilogia das cores”.
Kieslowski, como muitos diretores, iniciou sua carreira produzindo curtas de documentários, que geralmente se atinham em retratar o cotidiano da vida na Polônia soviética. Por isso mesmo ele acreditava que o interesse por seus filmes deveria se concentrar mais internamente, já que o objetivo principal era retratar as agruras do domínio comunista no país.

 É em 1988 que o diretor irá de fato dar a grande virada em sua carreira ao produzir “O Decálogo”, uma minissérie de dez episódios, na qual em cada um o diretor faz uma releitura contemporânea sobre os dez mandamentos cristãos, não comprometendo o conteúdo da Lei, mas aplicando-as à situações próprias da modernidade.

Dos dez episódios da minissérie, dois foram lançados como longa-metragem. Acontece que Kieslowski ao gravar a minissérie já pensava em lançar alguns episódios como longas, por isso no processo das gravações, filmou cenas alternativas para serem adicionadas e substituídas nos longas.
Em 1979, Kieslowski brinda o mundo com “Cinemaníaco” (do original “Amator”), que reflete de forma bastante sensível e delicada sobre a relação do cineasta com a câmera, sobre o processo de criação e tudo mais que está envolvido no fazer cinema. Ele inicia essa reflexão a partir da narrativa de um homem comum, funcionário estatal que compra uma pequena câmera russa para filmar o parto de sua filha. As coisas começam a tomar outro rumo, quando seu chefe o pede para filmar um evento da repartição. A partir deste evento, o jovem operário passa a estar cada vez mais entusiasmado pela arte de filmar, o que irá gerar uma série de consequências dramáticas, principalmente no seu relacionamento conjugal.

 “Cinemaníaco” tem um quê de autobiográfico, visto que o personagem se torna uma espécie de documentarista do cotidiano polonês, que em tempos de repressão no país, acaba criando uma série de tensões. Esse dado certamente está muito ligado ao início da carreira de Kieslowski, que iniciou justamente fazendo documentários que retratavam o cotidiano difícil da Polônia durante os anos de repressão. Tudo isso era somado a uma fotografia que abusava dos tons preto e amarelo para ilustrar bem a decadência do regime no país.

 Em 1988, saem os dois longas que antecipam a minissérie “O dacálogo”: o “Não amarás” e o “Não matarás”. Trata-se de uma das obras mais completas e complexas da história do cinema. Nós somos convidados pelo católico Kieslowski a fazer uma releitura do decálogo cristão a partir de chaves muito próprias da modernidade e a partir delas constatar a atualidade que ainda possuem.

 Em “Não amarás”, que é o correspondente na minissérie ao sexto mandamento, o pecar contra a castidade toma contornos dramáticos, partindo da história de um jovem que observa sua vizinha pela janela do apartamento. O que à primeira vista parece um comportamento jovial e banal, acaba se inflando de fatores que irão agravando esta paixão. Primeiro, o roubo de uma luneta para observá-la melhor, depois o rouba das cartas do seu objeto de desejo, até o desfecho dramático que a história toma.

O filme que difere ligeiramente da série, a não ser no desfecho, embala o espectador progressivamente na problemática exposta, utilizando-se de símbolos. O rapaz que aparenta a princípio acalentar uma mera fantasia pueril, acaba deixando-se tocar e guiar pelas agruras da vida e transferi-las para a mulher, que é seu objeto de desejo. Aos poucos ele vai roubando-a, tomando-a para si, pelo menos dentro de sua psique atormentada. Tudo isto muito bem amarrado com o ambiente de repressão, seja interno pela figura da mãe, seja externo pelo clima de repressão do estado polonês. 

 Partindo do sexto para o quinto, temos “Não matarás”, uma reflexão sobre o imperativo negativo cristão, aplicado a uma realidade social e jurídica. Kieslowski era um católico muito alinhado com as tendências próprias da teologia de seu tempo. Por isso mesmo, ele fazia a leitura sobre a Lei, a partir da linguagem dos direitos humanos inaugurada por Maritain e depois absorvida pelo magistério eclesiástico, particularmente a partir de Paulo VI. Essa tendência é nítida no modo como o diretor explora as questões em “O Decálogo” e, particularmente, em “Não matarás”.

 A tendência humanista de Kieslowski colocará em questão a incoerência de uma Polônia que se libertava da repressão soviética e estava ainda associada a práticas de manutenção do tecido social, tão graves como a pena capital. Por isso, já iniciamos o filme a partir do discurso inflamado de um jovem advogado contra este mecanismo que parece perpetuar brutalidades ao invés de cerceá-las.

Este jovem advogado é posto a cuidar do caso de um jovem assassino que nós acompanhamos desde o início da narrativa, e que comete um homicídio por motivo banal. Kieslowski tenta aqui ser o mais imparcial possível. Nós não criamos empatia, ao menos em primeiro momento, nem pela vítima, nem pelo assassino. Ambos  são possuidores de suas próprias idiossincrasias. Tudo isso ocorre desse modo para que haja a primazia do discurso, da argumentação racional, do apelo à humanidade do espectador, que no filme se mostram fracassados.

Kieslowski certamente encontra-se na galeria das grandes personalidades do cinema. Infelizmente, foi vítima de uma morte prematura, aos 54 anos, já tendo antes anunciado sua aposentadoria.  
 
Bibliografia: HALTOF, Marek. The cinema of Krzystof Kieslowski: variations on destiny and chance. Londres: Wallflower Press, 2004
 
Filipe Freitas Machado, seminarista


 
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