Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

A virtude da humildade

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06 de Agosto de 2020

A virtude da humildade

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26/07/2020 01:26
Por: Redação

A virtude da humildade 0

Nada seja feito por espírito de rivalidade ou por vanglória, cada um de vós, porém, com toda a humildade, considere os outros superiores a si mesmo (Fl 2,3), porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes (1Pd 5,5).
 
A tradição cristã sempre deu grande ênfase à virtude da humildade, escolhendo-a como um caminho bíblico e concreto de plena configuração ao Filho de Deus que, no Natal, por nós e por nossa salvação, se fez Filho do Homem. Um abaixamento da condição divina à condição humana sem precedentes na história da salvação. É a kenosis, citada no hino cristológico, no qual afirma-se que Cristo Jesus abaixou-se, tornando-se obediente até a morte e morte sobre uma cruz (Fl 2,8).

O próprio Senhor Jesus fez da humildade um critério que fundamenta e orienta a vida do discípulo: Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração (Mt 11,29); não vim para ser servido, mas para servir e dar minha vida em resgate de muitos (Mc 10,45). E mostrou o caminho: Se eu, vosso Mestre e Senhor, vos lavei os pés, então, lavai, também vós, os pés uns dos outros. Vos dei o exemplo para que façais como eu vos fiz (Jo 13,14-15).

Graças a esses versículos compreende-se que a virtude da humildade precisa ser aprendida do Mestre para ser colocada em prática pelo discípulo. Assim, o cristão, além de se fundamentar em Jesus Cristo, pela virtude da humildade, se propõe a caminhar na justiça e na direção de Deus, reconhecendo-O como Ser sublime e santo por excelência, e a caminhar na direção do ser humano, reconhecendo-o digno da sua caridade e condescendência por ser seu semelhante e não seu rival.

Essas ações divinas iluminam e ajudam a compreender que, graças à virtude da humildade, o ser humano, em primeiro lugar, reconhece a si mesmo como criatura e, em segundo lugar, não faz de si uma imagem acima das condições de sua própria natureza. Isto, porém, não significa que as suas potencialidades e capacidades não devam ser buscadas e, devidamente, desenvolvidas.

Também não se deve confundir humildade com humilhação. Na primeira, existe, no sujeito, ausência de competição e de vanglória. Na segunda, o sujeito faz da competição e da vanglória o modo para se exaltar e dar a entender que é melhor do que os outros. Um exemplo dessa distinção encontra-se nos cânticos de Ana (1Sm 2,1-10) e de Maria (Lc 1,46-55) que têm muitos elementos em comum. Dentre estes, a humildade é um elemento central, porque atrai a atenção e os favores de Deus diante dos soberbos que se exaltam e humilham o seu próximo (Lc 18,9-14).

Contudo, a pessoa humilde, a fim de não ceder à soberba, também pode, de forma constante, humilhar-se a si mesma diante de outras pessoas e de situações que podem surgir como uma ocasião para se colocar acima do próximo, julgando-se melhor em matéria de conhecimentos, de habilidades, de beleza etc. Nesse sentido, a virtude da humildade é uma arma muito eficaz contra o orgulho, a vaidade, a inveja e a prepotência.

Deve-se dizer, porém, que a humildade não é uma mera emoção passiva, pela qual a pessoa contempla a própria impotência, como pensava Baruch Spinoza, negando, então, que a humildade fosse considerada uma virtude. Além disso, não se deveria reduzir a virtude da humildade a um sentimento de pequenez, causador de tristeza, diante do que outras pessoas são capazes de realizar. Ao contrário, a humildade é um valor moral que cada pessoa é chamada a exercitar quando, a partir do que é, se reconhece capaz de realizar algo melhor do que os demais.

Assim, o verdadeiro sábio é humilde, porque não vai em busca de coisas que excedem à sua capacidade e não busca ostentar aquilo que não é. No confronto com a fé em Deus, pela virtude da humildade, o ser humano reconhece a sua sublime condição em relação às demais criaturas como prova da presença e do amor de Deus em sua vida. É a grandeza do ser humano, que lhe permite ver e reconhecer no próximo a mesma dignidade, enquanto impede de ser e de se fazer arrogante.

O tempo presente, marcado pela filosofia nihilista de Nietzsche, há muito deixou de ver a virtude da humildade como um valor a ser descoberto e seguido, pois a associou à condição de quem, na sociedade, se deixa subjugar ou escravizar. Esse filósofo, então, considerou a humildade a “moral dos escravos” que renunciam viver e a se posicionar, com critérios e argumentos, diante das classes dominantes que, por sua vez, se aproveitam dessa virtude para explorar as massas.

Não obstante essa posição nihilista possa ter algum fundo de razão, não anula a verdadeira natureza da virtude da humildade. Por um lado, ela implica no reconhecimento da distância que intercorre entre Deus e o ser humano, estreitada, porém, pela condescendência manifestada nos mistérios da encarnação, vida, paixão, morte, ressurreição do Verbo Divino e no envio do Espírito Santo. Por outro lado implica, próprio por essa condescendência revelada, na aceitação confiante da Sua divina Palavra e do Seu amor pelo ser humano em sua pequenez, fragilidade e pobreza.

É exatamente essa tensão que permite perceber, refletir, assimilar e assumir a virtude da humildade como um caminho eficaz e capaz de considerar o ser humano com grande objetividade, favorecendo a aceitação dos seus limites, fraquezas e culpas diante de Deus e do seu próximo. Por meio dessa virtude, Deus, ao enviar o seu Filho em nossa Humanidade, revelou a vontade de transformar a humana pobreza em riqueza, concedendo à pessoa os meios necessários para evitar a sobrevalorização acrítica de si mesma, que produz a degradação e a humilhação do seu ser.

Dois textos permitem perceber, compreender e aceitar essa vontade divina transformadora. No primeiro, é o Senhor Jesus quem disse: Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em Mim e eu nele produz muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer (Jo 15,5). No segundo, é Paulo que, reconhecendo a origem da sua ação capaz de comunicar vida, afirmou: Tal é a certeza que temos, graças a Cristo, diante de Deus. Não como se fossemos dotados de capacidade que pudéssemos atribuir a nós mesmos, mas é de Deus que vem a nossa capacidade (2Cor 3,4-5).

Sabedores de que o fundamento da virtude da humildade é o húmus do qual o ser humano foi feito, é sobre ela que as demais virtudes são edificadas. De tal modo, que se a base é sólida, as colunas estarão firmes, as paredes bem erguidas e o teto devidamente assentado. Se o fundamento for abalado, toda a edificação ficará comprometida e tende a ruir. Para que isso não aconteça, Deus concedeu a fé, a esperança e a caridade como virtudes infusas, a fim de que, no cristão, a virtude da humildade seja reconhecida na gratidão, na alegria, na sabedoria, na continência das palavras e na sobriedade das ações. Esse reconhecimento é tão real que a própria virtude da humildade não permite que alguma pessoa diga que é humilde ou que seja possuidora de outras virtudes.

Por tudo isso, a pessoa que pratica a virtude da humildade não faz de si uma falsa apreciação e tampouco se deprecia diante das demais. Pelo contrário, sabe ter e oferecer um lúcido olhar sobre si mesma, razão pela qual permite que o crescimento nessa virtude continue acontecendo pela insatisfação diante do seu paradigma de perfeição que se encontra em Jesus Cristo. É, de modo positivo, o justo incômodo com o bem ainda não alcançado, porque é uma força que impede de aceitar a sua não conformação a Deus e à sua vontade. É a virtude que comprova que o ser humano, apesar de todo o progresso atingido pela ciência e pela técnica, sabe que nunca será como Deus, conhecedor, detentor e controlador do que de bom e de mau pode ocorrer no mundo.

Qohelet inicia o seu livro afirmando: Vaidades das vaidades, tudo é vaidade (Ecl 1,2), e permite que se intua, imediatamente, o seu objetivo: evitar que o ser humano seja capaz de usar a virtude da humildade para mascarar o seu férvido orgulho que o abrasa por dentro e o falseia de zelo que, no fundo, é pura tristeza e descontentamento com a sua própria natureza desregrada.

Portanto, em qualquer nível ou área do saber e do fazer, a virtude da humildade é a força necessária que permite ao ser humano vencer a sedução da soberba, pretendendo ser e se pensar mais sábio e hábil que o seu próximo. Por meio dessa virtude, cada ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, se reconhece chamado a se unir e a viver da verdade que o liberta de si mesmo e da negação do seu incomensurável valor: Jesus Cristo que, por palavras e ações, mostrou que a virtude da humildade não se sustenta sem a misericórdia, porque esta é a única ação capaz de elevar o ser humano ao patamar mais alto e mais nobre da sua espécie: filho de Deus no Filho.

Sigamos, em tudo, a exortação de Paulo: Tende os mesmos sentimentos uns pelos outros; não aspireis grandezas, apegai-vos, ao invés, àquelas humildes. Não vos deis ares de sábios (Rm 12,16).

Padre Leonardo Agostini Fernandes
Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana-Roma
Professor de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ



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