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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

As dificuldades do retorno e a promessa da Nova Jerusalém

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06 de Agosto de 2020

As dificuldades do retorno e a promessa da Nova Jerusalém

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26/07/2020 01:23
Por: Redação

As dificuldades do retorno e a promessa da Nova Jerusalém 0

Caríssimos irmãos, agora que voltamos a frequentar nossas paróquias para a participação na Eucaristia, estamos fazendo a experiência do retorno ao Templo e, em alguns casos, da retomada de nossa vida religiosa, tal como o fez Israel no retorno do exílio à Jerusalém. Assim sendo, convém refletir sobre essa experiência do povo eleito, retratada na terceira parte do Livro do Profeta Isaías, que contempla os capítulos de 56 a 66.

O capítulos centrais desta terceira parte (60 ao 62) trazem a doutrina fundamental do profeta por meio de diversos modos: um canto de exaltação de Jerusalém, a Cidade do Senhor ou Sião do Santo de Israel (60); um relato da missão do “enviado”, sob a ação do Espírito Santo (61); um poema sobre a Nova Sião-Jerusalém (62), usando-se aqui uma imagem esponsal expressa pelo uso de adjetivos, como “minha preferida”, “minha desposada/desejada”, e, por meio de um convite feito aos habitantes da cidade para que se preparem para a chegada do Salvador. Desse modo, mesmo com a diversidade de temas encontrados nas mensagens (oráculos) dessa parte do livro, a doutrina pode ser agrupada em três principais temas: a) a Nova Jerusalém e o Futuro Glorioso; b) a Comunidade Escatológica, e, c) a Interiorização da Doutrina. Sobre a Nova Jerusalém, o livro nos mostra a realidade de uma comunidade de israelitas (palestinenses) sem esperança, à qual o profeta Isaías encoraja a descobrir a Jerusalém gloriosa, para a qual acorrerão todas as nações. Ela é a Cidade do Senhor, a Sião do Santo do Senhor (60,14), suas muralhas serão chamadas “salvação” e suas paredes “louvor” (60,18). Assim, a Nova Jerusalém é aqui o símbolo de uma nova realidade, razão pela qual o profeta termina o seu livro falando da esperança num futuro esplendoroso! Mais que uma renovação do que era antigo, trata-se aqui da instauração de uma Nova Criação e de uma alegria nova, tal como mostram os poemas contidos nos capítulos 65,17ss e 66,7ss. No trecho que desenvolve a ideia de uma Comunidade Escatológica (61,1-3), vê-se que o povo de Israel descobriu o valor da experiência de humilhação, vivida no desterro. O Senhor, que olha a todos os aflitos, dirigiu-lhes uma mensagem, anunciando uma nova era de bênçãos!

“O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção e aos prisioneiros a liberdade." Is 61,3 Esse oráculo, alinhado aos cânticos do Servo Sofredor (artigo da semana passada), coloca em evidência a importância da salvação prometida por Deus aos mais fracos. Nele, se destaca a presença do espírito na unção, rito com o qual os reis tornavam-se oficialmente representantes do Senhor perante o povo. No texto, aquele que recebe o espírito e, consequentemente, a unção é o próprio Servo Sofredor, a fim de manter viva a esperança do povo na futura salvação. Por meio dele, todo o Israel chegará à plenitude de sua existência, tornando-se o povo ideal segundo os planos divinos. Esse Israel pleno, definitivo, tem por missão reanimar a seus próprios cidadãos, fazendo com que todas as nações participem da justiça e da salvação realizadas pelo Senhor. Por essa razão, quando o Novo Testamento cita esse texto (Lc 4,21), não o aplica diretamente à Pessoa de Jesus, mas a essa nova realidade que o Senhor inaugura e representa na vida do povo de Israel: “Hoje se cumpriu a profecia da Escritura que acabasteis de ouvir”, cfr. Lc 4,21.

O tema da interiorização da doutrina é desenvolvido à medida que se mostra ao povo que a alegria e a esperança num futuro mais promissor não se medem por instituições externas, tais como a monarquia, as armas ou a autoridade humana. Assim, o culto e as normas legais (o jejum) serão purificados de todo o formalismo (58,1-12), e a instauração definitiva da justiça será o pilar principal da vida do povo, de modo que todos alcançarão a salvação sem a necessidade de intermediários (62,2-12). Desse modo, ainda que ver o Templo reconstruído e poder frequentá-lo novamente seja o grande desejo dos que agora voltam para casa, a edificação material do Templo não será o principal objetivo de vida do povo, uma vez que chegou ao entendimento que o trono de Deus são os próprios céus (66,1s), e a intervenção divina guiará o povo até que seja capaz de reconhecer que o Senhor é seu Pai (63,7-16)! Tais ideias abrem um novo horizonte a Israel, onde a esperança não se limita às suas fronteiras e ao momento presente – visão retratada de modo abundante nos livros de Ageu e Zacarias. Além do episódio de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18), o N.T. faz diversas referências a essa terceira parte de Isaías, tal como no episódio dos vendilhões do Templo (Mt 21,13), no qual se cita Is 56,7; quando Jesus entra triunfante em Jerusalém (Ramos, Mt 21,3) e se faz alusão a Is 62,1; quando se fala de universalidade de Jesus e de sua missão (Mt 2,3 e 11,5), entre outras...

A maioria dos estudiosos da Bíblia, na atualidade, já reconhece que nessa terceira parte do Livro de Isaías existem materiais de diferentes épocas e autores. No entanto, é a intervenção do redator final a decisiva para a obra, por ter reunido os oráculos organizando-os, não segundo a cronologia ou a origem dos escritos, mas, sobretudo, com a intenção de estimular aos que regressavam para casa, a restauração da vida social e religiosa do povo – reconstrução da Cidade Santa –, tal como podemos ver nos livros de Esdras e Neemias. De qualquer forma, pode-se dizer que os oráculos da terceira parte de Isaías situam-se entre os anos 538 a 510 a.C., aproximadamente, período em que os registros documentais são muito escassos. Nesse então os imperadores persas permitiam o culto de Israel, porém não o favoreceram e, por vezes, o recusaram, indiretamente.

Diante dessa situação, o entusiasmo inicial dos israelitas que retornaram de Babilônia esfriou-se, devido ao choque com a realidade encontrada. Na “nova” Jerusalém encontrada por eles, constatou-se que era necessário reconstruir tudo, num contexto totalmente desfavorável! Havia muito trabalho pela frente e o clima era de tensão constante entre os que retornavam e os que tinham ficado na cidade. No entanto, acima de tudo, o que os unia era o desejo comum de livrar-se do domínio dos persas e retornar à sua vida de fé. Eis o pano de fundo desta terceira parte do Livro de Isaías!

Assim, amados irmãos, não obstante a tantas lutas interiores pelas quais passamos e ainda tendo que enfrentar todos os obstáculos que aparecem, nosso caminho de retorno e reconstrução da vida espiritual deve ser orientado sempre pela fé e confiança nas promessas do Senhor. É Ele quem nos prometeu a Nova Jerusalém, o reino dos céus, e nós somos membros desse povo escolhido, desse Israel definitivo, que um dia entrará a fazer parte da glória divina. Desse modo, recorramos ao Santo Espírito e a sua renovada unção espiritual sobre nós, a fim de podermos adquirir forças para realizar o trabalho de cada dia, com alegria e esperança! Deus abençoe a você e à sua família.
 
Padre Igor Antônio Calgaro
Vigário paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Botafogo

Pensedireito.info



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