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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

O Verbo encarnado, lugar de encontro do divino com o humano

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31 de Outubro de 2020

O Verbo encarnado, lugar de encontro do divino com o humano

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26/07/2020 01:18
Por: Redação

O Verbo encarnado, lugar de encontro do divino com o humano 0

O Verbo Encarnado é o lugar da comunhão do divino com o humano. É nele que a natureza humana é restaurada, isto é, o ser humano criado do nada e plasmado do pó da terra tem a sua imagem e semelhança com Deus restauradas. E é nesta restauração que a vocação do ser humano de comunhão com Deus é concretizada.Em Cristo, o divino, se une ao ser humano, e o ponto de comunhão é a pessoa divina do Verbo. Com efeito, Cristo e o ser humano são teândricos, ou seja, a divindade revela-se na Humanidade em um equilíbrio perfeito entre o agir divino e o agir humano, mantendo-se a condição de cada um, embora haja uma verdadeira comunhão, ou participação de um na vida do outro.

É precisamente isso que uma reflexão mais aprofundada e atualizada da definição cristológica do Concílio de Calcedônia, ocorrido no ano 451, nos leva a compreender melhor: em Jesus Cristo, não somente há duas naturezas distintas em uma única pessoa, como também temos aí a base necessária para a percepção de que é na deificação, ou divinização, que somos unidos a Deus em uma comunhão perfeita, ou seja, sem confusão. Assim, é Jesus o lugar, ou melhor, a pessoa na qual acontece o teandrismo, haja vista que é na encarnação que o Verbo Divino assume a natureza humana e torna-se Deus-Homem, ou Deus conosco. Somente a partir daí podemos falar em humanização de Deus e deificação ou divinização do homem, pois o mistério da encarnação implica este último grau de comunhão.

Ora, a humanização de Deus tem a ver com a salvação do ser humano. Pois esta humanização em Jesus pelo mistério da encarnação possibilita uma participação efetiva na comunhão da vida divina, ou no próprio mistério da vida intratrinitária. É a realização da vocação humana e do sentido mais ínfimo de sua existência, é a criação levada à plenitude. Esta é a reflexão dos padres acolhida e proclamada pelo magistério da Igreja, a saber: a deificação do ser humano consiste na sua cristificação.

O plano salvífico original de Deus traz consigo o mistério da encarnação. Através deste mistério, Deus quer configurar o ser humano ao seu Filho, de modo que o ser humano alcance em Cristo a filiação adotiva e a plenitude da vida. Em seu amor pelo homem Deus revela sua filantropia expressa em suas energias, das quais o cristão participa. Assim se expressa o teólogo oriental Paul Evdokimov: “O cristianismo traz em seu bojo um paradoxo que encontra seu equilíbrio na transcendência radical de Deus em si, Deus absconditus em sua essência, e na imanência do Deus econômico, Deus revelatus em suas energias, na graça da encarnação, na qual o Deus Filantropo transcende sua própria transcendência” (EVDOKIMOV, P. L’Orthodoxie. Paris: Desclée de Brouwer, 1959, p. 14).

Só é possível ir a Deus a partir d’Ele mesmo, ou seja, para ir a Deus é preciso estar n’Ele. Este é o sentido de transcendência divina. Contudo, este Deus transcendente não é um Deus alheio à realidade humana, ou um Deus estático, que não se relaciona. É um Deus pessoal e que age. E as energias divinas recebidas pelo homem são o que de fato o conduzem a este Deus transcendente e pessoal que se revela ao mundo visível em Jesus Cristo, O Filho Unigênito. Jesus como sacramento do Pai é a epifania da própria divindade, o lugar de encontro do ser humano com Deus. Segui-Lo é sentir-se com Ele, é conformar-se com Ele, para que sejamos verdadeiramente à imagem e semelhança de Deus. Mas, é o Espírito Santo, dom de Deus, que reproduz no cristão a imagem do Filho, realizando em nós o mesmo que fez em Jesus. É o dom do Espírito que nos possibilita o seguimento de Jesus e a realização da nossa humanidade em plenitude a partir da deificação.

            Mas a encarnação é fruto da vontade de Deus de revelar-se e de comunicar-se para que o homem, por sua vez, participe da vida divina por meio da sua graça. Neste sentido, em suma, o objetivo da encarnação é a deificação do homem, que, por sua vez, consiste na sua plenificação. Pois ele só é verdadeiramente homem em Cristo, Filho de Deus que se fez Filho do Homem, que recapitula em si toda história da salvação e que, no âmbito do mistério da encarnação, constitui o verdadeiro Arquétipo do homem. Daí se segue que, novamente citando Paul Evdokimov, para este grande teólogo russo só podemos perceber o mistério da criação a partir do mistério da encarnação. Pois tudo o que há foi feito por Cristo, em Cristo, e n’Ele se sustenta.

No âmbito da Trindade, ainda na linha dos padres da Igreja, o ser humano está associado à revelação trinitária do ser pessoa como ser de relação. No sentido de que “ao buscar Deus, é o ser humano que é encontrado por Deus, perseguindo sua verdade, é ela que capta o ser humano e o transpõe ao seu nível eônico do Reino” (Idem). E esta deve ser exatamente a postura de todo teólogo: não especular, mas se deixar transformar por aquilo que ele procura (EVDOKIMOV, P. La nouveauté de l’Esprit: études de spiritualité. Bérgrolles: Abbaye de Bellefontaine, 1977, p. 82) . Neste sentido, há que se reconhecer que o Oriente insiste no tema da nova criatura em que somos transformados através de uma nova existência, segundo o modo divino. Assim, o ser humano só pode ser percebido a partir do dogma trinitário. Aí, conforme ensina o tratado da Santíssima Trindade, cada uma das pessoas divinas vive a circumincessão de amor das três, ou seja, este amor se expressa em movimento dinâmico em que um se inter-relaciona com o outro como que em uma dança em círculo.

Foi em Cristo que Deus Pai nos escolheu para sermos seus filhos adotivos, santos e irrepreensíveis diante de seu amor (Ef 1,3-5). Com efeito, como acima exposto, Ele é o Arquétipo a partir do qual o ser humano é criado e recriado. Cristo é o novo Adão que recapitula e integra em si toda a criação. É neste sentido que Ele é o Arquétipo daquilo que somos chamados a ser, a saber: imagem de Deus.

            Quando Paul Evdokimov afirma que Cristo é o Arquétipo, ele quer se referir ao conteúdo ontológico de “imagem” (a imagem/ à imagem). Haja vista que na encarnação Cristo reúne em si a imagem de Deus e a imagem do homem. Logo, o princípio ontológico do ser humano está no seu ser em Cristo e não no seu ser fisiológico e psíquico. Cristo é o Arquétipo do ser humano precisamente porque traz consigo a sua verdade ontológica, de modo que a mesma não se encontra no homem, mas em Cristo, Deus feito homem.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.
 



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