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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

‘Jesus veio para que todos tenham vida, e não a tenham de qualquer forma, mas em abundância’

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31 de Outubro de 2020

‘Jesus veio para que todos tenham vida, e não a tenham de qualquer forma, mas em abundância’

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26/07/2020 00:55
Por: Redação

‘Jesus veio para que todos tenham vida, e não a tenham de qualquer forma, mas em abundância’ 0

Ser sinal de esperança. Essa tem sido a missão de capelães e agentes voluntários da Pastoral da Saúde espalhados nas instituições de saúde. Em tempos de pandemia, de hospitais lotados, o medo e insegurança também “visitam” aqueles que estão enfermos, com as almas e os corpos alquebrados. A presença constante de homens e mulheres comprometidos, em nome da Igreja, em servir o Cristo enfermo tem sido como a luz no fim do túnel para aqueles que já haviam perdido as esperanças, levando um mundo mais humano, solidário e fraterno.

Capelão do Hospital Federal do Andaraí e do Instituto Nacional do Câncer (Inca 3 e 4), em Vila Isabel, padre Rhawy Chagas Ramos comentou que, além do apoio espiritual, muitos enfermos necessitam do apoio emocional. “Às vezes, o enfermo só quer desabafar. Ouvimos não só o que o doente fala, mas também o que ele não diz com palavras. Trata-se de uma visita rápida, mas presencial, e temos muito cuidado com cada pergunta dirigida ao paciente. Com o tempo conseguimos um maior vínculo e experiência sobre como lidar com aquele enfermo. Afinal, ser ouvido por alguém é sentir-se importante”, explicou.

No Hospital do Andaraí, que é a principal referência de assistência na área da Grande Tijuca, o sacerdote atua inclusive na ala destinada aos queimados, uma vez que o hospital é referência nesse tipo de tratamento. “O trabalho é muito difícil, porque estamos ali para ouvir e a dor é muito intensa, dependendo do tipo de queimadura em qual parte do corpo. Por isso, às vezes, o paciente não quer ouvir nada. Eles nos ensinam muito. Aprendemos a contar piadas como uma forma de aliviar a dor e de ouvir muitos que nos ensinam. São situações que não esperávamos, mas que acontecem no dia a dia”, contou.

Segundo o capelão, o trabalho é realizado conjuntamente com a capelania evangélica, a qual também atua no atendimento espiritual e emocional dos pacientes. “Atuamos todos juntos com o intuito de levar esperança para aqueles que perderam, bem como ser presença e até facilitadores. Muitos deles só necessitam disso porque a dor da queimadura ‘não é real’, por causa da perda da sensibilidade nervosa. Ela é sentida ao olhar, ao observar a troca de curativos e no banho. O tratamento é muito longo e esse é um cuidado que o hospital tem”, afirmou.

Embora o hospital tenha sido construído no território paroquial da Igreja São Cosme e São Damião, também no Andaraí, a capela da instituição tem São Pedro como padroeiro com a doação da imagem pela Marinha em 29 de junho de 1953. “Isso porque, quando ainda era um ambulatório, idealizado pelo padre Olivério A. Kraemer, primeiro pároco da Igreja, a instituição passou a ser regida pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Marítimos (IAPM), em 29 de julho de 1955, recebendo o nome de Hospital dos Marítimos, nome que ficou até os idos de 1960. Só depois, quando federalizado, tornou-se Hospital Federal do Andaraí”, esclareceu.

Já no Hospital do Câncer (Instituto Nacional do Câncer - Inca 3 e 4), em Vila Isabel, o trabalho é voltado para os cuidados paliativos, com o intuito de permitir que cada enfermo tenha uma morte digna, com menos dor e sofrimento possíveis. “No Inca 3 estão os casos ‘mais leves’, enquanto no Inca 4 os mais graves e propriamente ditos, paliativos. São situações muito dolorosas. Antes da pandemia, realizávamos muitas festividades, com o objetivo de amenizar o sofrimento dos pacientes. Um deles desejava ir ao forró. Não podíamos levá-lo, mas trouxemos o forró até ele, através de dois instrumentistas: um com o triângulo e outro com a zabumba. Quando ele viu, ficou muito emocionado. Pouco tempo depois, ele foi a óbito, mas com dignidade”, exclamou.

Incardinado na Diocese de Ituiutaba, em Minas Gerais, padre Rhawy está na Arquidiocese do Rio de Janeiro há mais de quatro anos, dedicando-se ao trabalho junto aos enfermos. De acordo com ele, é muito comum que, diante da morte, as pessoas passem a valorizar mais a vida. “O luto se inicia quando começamos a ter noção da nossa vida. O que mais vemos são pessoas que guardaram tanta mágoa durante tanto tempo, que acharam que eram essenciais, e quando elas percebem que o mundo vai continuar mesmo sem elas, começam a entender e a tentar, mesmo na dor, a viver e a ter uma morte digna”, enfatizou. Ao olhar para examinar a vida que viveu e que luta para aceitar, a pessoa enfrenta uma série de desafios. Enfrentar a morte pode dar coerência, significado e completude à vida.

Dessa forma, a assistência não se resume apenas aos pacientes, mas o trabalho também é estendido aos familiares. “Essas situações, por vezes, são bem mais difíceis para os parentes. Por isso, nosso trabalho vai além do hospital e chega às casas desses pacientes, onde conversamos com os familiares. Esse contato também é mantido mesmo após a morte do ente querido”, frisou.

Para o sacerdote, é preciso mostrar a importância da vida e da existência a cada paciente. "A mensagem que levamos às pessoas é que nós não nascemos para sermos úteis, nós somos importantes. Temos partes de muitas pessoas que são importantes para nós e que, aquele paciente, também passa a ser parte de mim, porque eu me importo com ele. É muito importante que levemos essa esperança. A vida não é somente alegria o tempo todo. Mas devemos levar essa vida plena, mesmo quando alguém já perdeu as esperanças. Quando aceito a vida que vive, surge a aceitação da partida e da morte”, completou.

Além disso, ele também salientou a importância de a Igreja ajudar a construir pontes, mesmo diante de um leito. “Todos nós estamos num processo de morte. O problema é: o que farei com a vida que ainda tenho? Em um desses casos, uma irmã brigou com a outra e já nem sabia mais o motivo. Então, por vezes, precisamos quebrar essas barreiras, derrubar os muros e criar pontes. A presença da Igreja contribui na construção dessa ponte. Isso é levar vida”, acrescentou.

Sacerdote diocesano há 16 anos, padre Rhawy jamais imaginou que seria chamado para uma missão diferente da vida paroquial. “Eu não fazia ideia que atuaria nessa missão. Sabia que, enquanto padre, teria de visitar muitos doentes, mas não realizar um trabalho desse tipo. Nos fins de semana, ajudamos as paróquias da região. Mas a dinâmica do hospital é diferente, porém, não deixa de ser uma paróquia também. Aqui já realizamos casamentos, batizados, há uma preparação humanizada nesses aspectos. Vamos de pessoa em pessoa, seja paciente ou membro do corpo clínico. É uma via-crúcis, mas também uma via-lucis”, sublinhou.

Com a pandemia, os atendimentos precisaram adequar-se ao protocolo contra a Covid-19. Dessa forma, o uso de máscaras, protetor facial e o cuidado redobrado com a higienização das mãos passaram a fazer parte da rotina dos capelães. Além disso, há a necessidade do distanciamento entre ele e os doentes, bem como ausência de contato físico. É válido ressaltar que os agentes da Pastoral da Saúde também são ministros extraordinários da Sagrada Comunhão, porém, a entrega da Eucaristia está suspensa neste período.

A morte é um mistério e não apenas uma necessidade natural, e nós cristãos não paramos nela, mas expressamos na certeza da ressurreição da carne. E mesmo para aqueles que não creem, e lembro de um caso marcante nestes tempos de pandemia, no qual fui visitar uma paciente que me disse não crer e perguntou a mim: Você quer morrer? Respondi, não exatamente. Quero viver, ainda que brevemente, sabendo que minha vida é finita. A mortalidade dá sentido à vida humana. Paz, amor, amizade são preciosidades, pois sabemos que aparentemente não podem durar, mas duram em cada um daqueles que ainda caminham para a morte. Você estará viva comigo. Ela sorriu, agradeceu e uns dez e a quinze minutos no máximo deu o último suspiro.

Diante da dor de milhares de famílias nesta pandemia, padre Rhawy intercedeu para que todos “aproveitem a vida; ela é muito breve. Não precisamos apequená-la com coisas insignificantes. Enquanto não estou num estado de paciente, de enfermo, preciso abrir meus braços e saber para onde devo ir. Que possamos viver cada instante. Que a nossa vida seja uma riqueza de importância, até porque Jesus veio para que todos tenham vida, e não a tenham de qualquer forma, mas em abundância. Que possamos ressuscitar para a vida todos os dias!”, rogou.


 
 
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