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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

O Apostolado do Mar

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06 de Agosto de 2020

O Apostolado do Mar

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19/07/2020 03:57
Por: Cardeal Orani Jõao Tempesta

O Apostolado do Mar 0

(Homilia da missa do dia 11 de julho, presidida pelo Cardeal Orani João Tempesta, na Paróquia Santa Cecília e São Pio X, em Botafogo, por ocasião do dia do Domingo do Mar”

Neste ano tem uma programação especial (4 de outubro 2019-2020) quando se comemorara os 100 anos do Apostolado do Mar – Stella Maris. Embora o simpósio de conclusão do ano tivesse sido transferido para setembro/outubro de 2021 por razões da pandemia, a orientação era para que este ano o centenário fosse celebrado nas várias capelanias do Apostolado do Mar.

Aqui no Rio de Janeiro temos uma dessas capelanias confiada aos Missionários de São Carlos, ou padres scalabriniamos. No dia 11 de julho, no qual era também comemorado o Dia de São Bento, pudemos celebrar a missa dentro desse centenário, agradecendo esse trabalho que é realizado junto aos marinheiros da Marinha Mercante que aportam aqui no Rio de Janeiro, mas que tem diversos departamentos também provendo a capelania de cruzeiros internacionais e um bom trabalho junto aos pescadores.

A celebração estava dentro de toda uma programação feita já no ano passado, com o trabalho do Apostolado do Mar “Stella Maris”. Padroeira desse apostolado é Maria, Estrela do Mar, representada na imagem, cuja cópia aqui temos, encontrada debaixo das águas e que percorre todas as capelanias no mundo inteiro. Nós temos a graça, aqui no Rio de Janeiro, de termos uma capelania, levada adiante pelos padres scalabrinianos, ou carlistas, que tem a sede na Paróquia de Santa Cecília e São Pio X que, é também local da presença da capelania para os migrantes de língua espanhola e também da Pastoral dos Migrantes e Refugiados.

Sabemos que o Apostolado do Mar, além de trabalhar com os marinheiros que vêm nos navios que aportam aqui no Rio de Janeiro, tem, também, a missão de trabalhar com os pescadores. Temos alguns núcleos de pescadores em várias regiões aqui da nossa arquidiocese que se organizam e cujo trabalho é também muito importante.

Isso nos faz agradecer a Deus por tantas situações diversificadas em que a Igreja está presente pastoralmente, até mesmo em grupos que não são muito conhecidos. Vemos assim a dimensão pastoral da Igreja que está presente em todos os aspectos da vida, anunciando o Evangelho e testemunhando Jesus Cristo, seja atendendo as pessoas e dando dignidade às pessoas, seja ajudando as pessoas cada vez mais a buscar um caminho para que haja um mundo de mais justiça e fraternidade.

Celebrar este centenário de quando foi organizado o trabalho há 100 anos em Glasgow, na Escócia, em 4 de outubro, que vai completar essa data neste ano, é um incentivo para que, cada vez mais, encontremos esse caminho para não só com os marinheiros que vêm de longe que aportam aqui, algumas vezes em trabalho considerado de semiescravo, mas também junto aos pescadores que vivem da pesca em nossa região, assim como tudo que acontece nesse Apostolado do Mar. E pode não ser muito notada, pois não aparece muito nos trabalhos pastorais do dia a dia, pois se trata de trabalhos específicos, mas demonstra toda essa missão universal e ecumênica da Igreja, de ser presença de anunciar Cristo pelos atos concretos cada dia.

Neste ano já tivemos vários pronunciamentos do Papa Francisco, e no dia 12 de julho, no Ângelus, ele se referiu a essa missão de estar junto aos marinheiros que estão longe de suas casas e pátrias. Além disso, o Papa escolheu o mês de agosto para, na intenção universal do Apostolado da Oração ou Rede Mundial de Orações pelo Papa, inserir como intenção: “O Mundo do Mar. Rezemos por todas as pessoas que trabalham e vivem do mar, entre elas os marinheiros, os pescadores e suas famílias!”

No dia 12 de julho, foi comemorado o Dia do Mar, que, além da mensagem no Ângelus, o Papa Francisco já tinha enviado uma mensagem especial, recordando dessa proximidade da Igreja de todos aqueles que estão longe de casa, que passam meses longe da família, mas que grande parte da população mundial depende do trabalho de marinheiros que vêm e vão nessa missão de prover às necessidades dos povos. Conta-se que perto de 90% do consumo das nações vêm pelo mar.

Colocamos todo esse trabalho do Apostolado do Mar nas mãos de Maria, que nos ensina a navegar por esses mares do Evangelho da Palavra de Deus. São Bernardo quando fala de Maria faz uma comparação com navios em alto mar que necessitam se dirigir para o lugar seguro. Ao falar sobre isso, ele a chama de Stella Maris. Ele nos recorda que, quando estamos no meio do mar da vida e ondas revoltas tentando nos derrubar virando o nosso navio, ou seja, quando nos sentimos muitas vezes imersos nas tentações, dificuldades, maledicências, críticas, problemas, ele recorda que assim como os antigos marinheiros, que não tinham GPS e nem satélite para se localizar, guiavam-se pelas estrelas para achar o caminho. São Bernardo nos lembra: no meio desse mundo todo açoitado pelas ondas das tentações, olhe para a estrela, (como os antigos marinheiros olhavam para a estrela, para achar o caminho) invoquem Maria. Ela é a estrela que nos conduz ao porto seguro, a Jesus Cristo Nosso Senhor. E é justamente nesse aspecto que Stella Maris, a Estrela do Mar, Maria, assim como também é invocada para o trabalho do Apostolado do Mar, também nos inspira a todos nós, que no mar da vida, das dificuldades que nós temos pela vida afora, de poder perceber esta estrela do mar. Mas da nossa vida, que brilha no nosso céu a indica o caminho do porto, o caminho de nosso porto seguro, que é justamente estar com Jesus Cristo. Maria nos indica Jesus Cristo.

São Bernardo foi alguém que seguiu a regra de São Bento, e hoje nós celebramos São Bento Abade, patriarca dos monges do Ocidente. Foi alguém que, no final do Século V, e morreu no começo do Século VI. Ele viveu intensamente, de família nobre, grandes estudos em Roma da época, onde viu a decadência dos costumes, a decadência da vida e viu que não lhe bastava a questão intelectual. Não bastava o conhecimento que ele estava adquirindo, mas necessitava de algo mais. Então, ele deixa não só a sua dignidade, mas também seus estudos e vai para uma gruta, onde vive lá um bom tempo de reflexão e de oração como um homem de Deus e sempre buscando a Deus. Ele vai colocar justamente a sua regra, que ele compilou e adaptou das regras que existiam no passado, que se esse alguém quer fazer parte dessa comunidade, através do discernimento de uma pessoa sábia que o acompanhe, para ver se realmente a pessoa busca a Deus.

Depois de vários episódios, São Bento vai com um grupo de monges para Monte Cassino. E ali começa uma vitalidade, que vai se espalhar se por toda a Europa e pelo mundo afora, formando hoje, não só a Confederação Beneditina, mas tantas outras ordens monásticas que levarão à frente o seu carisma. Esse carisma para viver a oração, o trabalho, a lectio divina fazendo dos mosteiros lugares de paz e de acolhimento que estarão semeados pelo mundo afora. A presença dos mosteiros marcou a vida do ocidente cristão: ao redor dos mosteiros se formaram, cidades, os monges são a ponte da cultura do passado para o presente, pois copiaram os antigos manuscritos, são presença na agricultura e beneficiamento das terras, presença nas escolas e junto ao povo que acorre aos mosteiros para retiros, aconselhamento e oração.

A Europa deve muito da sua cultura, tanto a cultura erudita, como a cultura também dos campos, à presença dos monges, embora atualmente não reconheça isso. Tudo que a Europa teve enquanto valores, e que agora perdeu muito, está ligado a pessoas de fé que estabeleceram os alicerces desse mundo ocidental. E isso foi principalmente pelo testemunho, sendo fermento no meio da massa, como por exemplo: ao redor das abadias fundaram-se povoamentos, povoações, que se tornaram, depois, grandes cidades da Europa, que desfrutaram dessa espiritualidade.

São Bernardo que eu citei, quando refletia sobre Maria, Stella Maris, bebeu desse carisma, ou seja, a família de São Bento, que são também os cistercienses, e São Bernardo foi um grande filho, que levou para a frente esses valores nos séculos XI, XII.

Maria vai inspirando. E São Bernardo, que vem dessa mesma família, foi alguém que teve um grande carinho para com Maria. Cantou justamente as glórias de Maria, inclusive com alguns momentos importantes com relação à Salve Rainha, como relatam algumas tradições.

Ao celebrarmos 100 anos do Apostolado do Mar, Stella Maris, e ao celebramos neste domingo o Domingo do Mar rezemos por todos que atuam e que são atingidos por este apostolado. E, olhando para aquilo que São Bernardo fala em relação a Stella Maris, o nome da Virgem era Maria, que nós possamos colocar tanto a vida do trabalho do Apostolado do Mar com os marinheiros que vêm e voltam, como dos pescadores, como todo o nosso povo, para que nunca esqueçamos de olhar a estrela no alto do céu da nossa vida, Maria. Temos certeza que quem olha para a Maria, ela logo aponta para Jesus, para o porto seguro, que é o que o nosso mundo necessita. E foi justamente isso que São Bento viveu quando da decadência do Império Romano. Ele e seus monges puderam estar apontando para Jesus, e vivendo a vida cristã, ser presença de fermento no meio da massa, de uma Europa decadente, que depois se reconstruiu.

Agora que, aparentemente, existe uma certa decadência de costumes, tanto na Europa como no mundo, também em nossa região, que nós possamos nos inspirar em São Bento, inspirarmos em São Bernardo, inspirarmos justamente em Maria, como Estrela do Mar, estando no céu de nossa vida, possa nos ajudar a encontrar sempre em Jesus Cristo, a reconstrução da nossa vida. E que, reconstruindo a nossa vida, reconstrua o nosso mundo que tanto necessita.

Amém.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.


 
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