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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

‘A fumaça de Satanás na Igreja’

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06 de Agosto de 2020

‘A fumaça de Satanás na Igreja’

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19/07/2020 03:53
Por: Redação

‘A fumaça de Satanás na Igreja’ 0

“Porque virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas” (2Tm 4,3-4). Estas palavras proféticas de São Paulo parecem-nos tão atuais que seríamos capazes de afirmar que o apóstolo vislumbrava a conjuntura em que vivemos neste nosso tempo presente. A sociedade pós-moderna ou contemporânea mostra-se gravemente doente com a perda de seus referenciais e descarte de seus valores fundamentais que edificaram a cultura ocidental cristã. Mas, a crise torna-se ainda mais grave quando ela atinge profundamente o corpo eclesial.

Já no pós-concílio, diante da agitação no mundo e na Igreja com sérias consequências culturais e teológicas que perduram até hoje, o Papa São Paulo VI, em uma carta que permaneceria inédita até recentemente em 2018 quando foi divulgada na obra “La Barca di Paolo”, do padre Leonardo Sapienza, chegou a afirmar: “…Diríamos que, por alguma fresta misteriosa – não, não é misteriosa; por alguma fresta, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Há dúvida, há incerteza, há problemática, há inquietação, há insatisfação, há confronto”. “(…) Não se confia mais na Igreja. Confia-se no primeiro profeta profano que vem nos falar em algum jornal, para correr atrás dele e lhe perguntar se tem a fórmula para a vida verdadeira. Entrou, repito, a dúvida em nossa consciência!”. O relativismo, o subjetivismo, o sincretismo, o secularismo, o racionalismo, o marxismo, o liberalismo, o humanismo ateu e tantos outros “ismos” ideológicos manifestam-se na suprema ciência teológica de forma absurda desde aqueles tempos do pós-concílio. Suscitam dúvidas, incertezas e chegam a colocar em questionamento a própria Revelação, tudo isso em nome da “investigação científica”, mal interpretada quando se despreza aquilo que é verdade revelada inalienável e irrefutável, porque consiste em elementos fundantes da fé cristã, tais como o mistério da encarnação, o mistério pascal, o mistério da Igreja, etc.

É evidente que não se deve tolher a investigação científica no amplo universo teológico, seja dentro ou fora da Igreja, nem de forma alguma rechaçar a pluralidade do pensamento científico. Mas desvios doutrinais na apresentação e divulgação da doutrina são inaceitáveis e devem ser corrigidos, pois atentam contra o direito fundamental dos fiéis de receberem a autêntica doutrina dos apóstolos e verem defendida a fé que suscitou inúmeras vocações, grandes santos e pela qual tantos mártires deram a vida ao longo da história da Igreja.

O teólogo Von Balthasar certa vez afirmou: “Nenhuma pluralidade há que se temer no seio da fé eclesial. Tampouco deve-se temer os resultados das investigações extraeclesiais. O inquietante e terrível é a atitude de certos investigadores e outros cristãos que estão com um pé na fé da Igreja e o outro em uma fé individual autojustificada, e em uma neutralidade nada eclesial, que fomenta um pluralismo existencial que beira a esquizofrenia. (...) é algo que o magistério pastoral deve indicar como extravio. Assim fizeram os apóstolos de fato e por escrito, sem medo de ferir a caridade cristã. (...) Basta notar que recusar ao ministério eclesiástico, sob pretexto de liberdade de investigação e em nome do pluralismo moderno, qualquer competência sobre os limites da fé católica, equivale a derrubar por terra a constituição da Igreja assim como ela é no ministério da revelação” (O Complexo Anti-romano, cap. 1). Cabe, portanto, ao Romano Pontífice e a cada bispo em sua diocese exercer o seu múnus docente, anunciando a verdade da fé, prevenindo erros e corrigindo distorções, como ensina o próprio apóstolo Paulo: “Tu, porém, proclama a palavra, insiste, no tempo oportuno e inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina” (2Tm 4,2).

O processo de secularização da sociedade, a laicização do clero e a divisão ideológica no corpo eclesial nos levam a admitir que São Paulo VI estava certo no passado e está certo hoje, no presente, por ter dito que a “fumaça de Satanás” entrou na Igreja; e a profecia de São Paulo Apóstolo, com a qual abri este editorial, se faz realidade para nós ainda neste início do século XXI. Estes problemas da atualidade nos colocam em um momento crucial da história da Igreja em que urge deixar de lado a cicuta das ideologias e fazer a opção preferencial pelo anúncio oportuno e inoportuno de Cristo de forma clara e vigorosa. E este é um direito do povo católico e uma necessidade dos mais pobres, que só têm a esperar de Deus. E neste anúncio de Cristo se inclui a primazia da vida sacramental, com a prática frequente da Confissão, da Comunhão Eucarística, da oração litúrgica e pessoal.

O cristianismo não pode ser reduzido a um engajamento em luta social e política e nem num moralismo baseado em denúncias e contestações. Isto reduziria a Igreja a uma espécie de sindicato ou ONG. O Santo Padre, o Papa Francisco, constantemente insiste nesta questão. Já na sua primeira missa celebrada junto aos cardeais na Capela Sistina após a sua eleição, dizia o Sumo Pontífice: "Se não professamos Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor”. E ainda: "quem não reza ao Senhor, reza ao diabo, já que quando não se proclama Cristo, se proclama a mundanidade do diabo, do demônio". Lastimável é que tantos católicos, sejam eles clérigos, religiosos(as) ou leigos(as), muito envoltos que estão nas ideologias, não conseguem assimilar e compreender a tônica deste pontificado e acabam por deixar de proclamar a Cristo para proclamar a “mundanidade do diabo”. E muitas vezes o fazem construindo narrativas e interpretando as palavras e atitudes do Santo Padre sempre sob o viés ideológico, aliás, isto é o que as ideologias são melhores em fazer: construir narrativas e reinterpretar fatos para justificar posicionamentos políticos. O Sumo Pontífice na mesma ocasião ainda falava da Cruz, signo que marca nossa existência cristã, exortando-nos a ter a coragem de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor e edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor derramado na Cruz, pois “quando caminhamos sem a Cruz, edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem a Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor”.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


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