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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

Pra não dizer que não falei...

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19/07/2020 03:51
Por: Redação

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Em nossos artigos precedentes muito falamos das pérolas do cinema europeu, contudo, pode parecer ao caro leitor que não há vida cinematográfica fora do Velho Continente, o que definitivamente não é verdade. Por isso tratarei no presente da fina flor do cinema americano, Stanley Kubrick.

Considerado por muitos como o melhor dentre os americanos, Kubrick surpreende com uma filmografia não muito longa, demonstrando possuir um estilo, não exclui diversidade de termas e abordagens. Sua carreira se estende de 1951 até 1999, com cerca de 15 longas-metragens produzidos, que apresentam uma grande diversidade de temáticas, ainda que estejam unidos por um fio condutor que é a ironia pessimista como resposta à realidade.
Em 1957, Kubrick lança seu primeiro grande filme, com muita ênfase na grandeza. Trata-se de “Glória feita de sangue”, estrelado por Kirk Douglas. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Humphrey Cobb. A narrativa gira em torno da história do coronel Dax (Kirk Douglas) que recebe ordens do seu superior de tomar uma fortificação alemã durante a II Guerra Mundial. Notoriamente tratava-se de uma missão suicida, contudo, o general que ordenou o ataque ansiava por uma promoção que dependia desta empreitada. Como esperado, a maior parte dos soldados acaba morrendo e os que restaram, que permaneceram nas trincheiras, acabam sendo levados a julgamento por traição. O centro da história está então no julgamento no qual o coronel Dax se voluntaria para ser o advogado de defesa em um julgamento que, desde o início, já se mostra perdido. O filme é um ataque claro ao mito da igualdade bélica; nem a guerra, nem a morte excluem a cultura de classes. De certo modo, o filme acaba por recordar “A regra do jogo”, de 1939, de Renoir.

Em 1964, Kubrick lança “Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb”, em português simplesmente “Dr. Fantástico”. O filme reflete com muita ironia e irreverência a possibilidade de um general americano decidir bombardear a União Soviética, tudo isso acompanhado pela avaliação técnica do Dr. Strangelove, interpretado brilhantemente por Petter Seller, que não interpreta um, mas três personagens no filme. É certamente o filme de Kubrick mais recheado de sarcasmo e humor negro, para refletir sobre uma questão que aterrorizava toda a Humanidade naquele momento.

Kubrick voltará a surpreender o público com “2001 – Uma odisseia no espaço”. Trata-se de ficção científica com tom documental. Parece estranho? Já explico. O filme, que foi rodado em plena corrida espacial, trata da relação do homem no espaço como de fato ela provavelmente seria, ou seja, monótona. A grande reflexão talvez esteja para além do monólito que provoca até hoje os expectadores. A grande questão provavelmente habite na relação do homem finito na exploração de um universo infinito. E o tema toma outras proporções se refletirmos o período em que o filme foi lançado, em plena guerra fria. Kubrick recobra os homens sobre sua finitude e a limitação de suas potências.

Certamente que as outras camadas do filme não devem passar despercebidas. A relação do misterioso monólito com os seres ao seu redor, até a evolução do homem nascente nos fazem, sem sombra de dúvida, refletir sobre a nossa existência como seres humanos e ainda mais sobre a nossa posição diante da natureza que não simplesmente nos cerca, mas nos envolve.

Já em 1971, Kubrick nos leva a ter um olhar mais interno para as relações em sociedade, uma sociedade que não se sabia ao certo para onde caminhava, tudo isso em “Laranja Mecânica”. A partir da película, que parece ser retratada em uma espécie de realidade distópica, bem característica dos anos 70, nós somos levados a refletir sobre os limites morais, sobre os pressupostos éticos, de uma espécie de castração moral.

Através da história de Alex (Malcolm McDowell), uma espécie de punk, que comete as maiores atrocidades possíveis desde uma luta de gangues, até um estupro seguido de assassinato, onde a partir daí ele será submetido a um tratamento que o impede de cometer ações moralmente reprováveis, mediante uma reação biológica. Kubrick nos leva a partir do segundo ato a nos identificarmos com aquela desprezível figura e nos questionarmos realmente sobre a validade ética de tal empreitada.

Trato também de “Barry Lyndon”, filme um pouco menos conhecido da carreira de Kubrick, de 1975. O filme na história do personagem homônimo, que no século XVIII chega a fazer o quase impossível: ascender de classe. Tudo isso ao longo de uma jornada icônica que nos faz ser transportados com suavidade para a narrativa quase épica.

Seria interessante também salientar alguns traços do estilo de direção de Kubrick, que não aceitava nenhum tipo de equívoco, primava por uma assertividade quase sobrehumana, mesclando os elementos narrativo de ironia e um pessimismo muito característico da realidade humana.

Seu perfeccionismo era tamanho que seu primeiro filme “O dia da luta”, de 1951, foi proibido por ele de ser comercializado ou distribuído, por considerá-lo ainda demasiadamente rudimentar e amador. Provavelmente, Kubrick é entre os diretores americanos o que possui a carreira mais linear e bem-sucedida em termos de desenvolvimento artístico.

Bibliografia:
KUBERSKI, Philip. Kubrick’s total cinema: philosophical themes and formal qualities.
Nova York: Continuum, 2012

Seminarista Filipe Freitas Machado


 
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