Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

O Concílio Vaticano II e a Igreja hoje

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

06 de Agosto de 2020

O Concílio Vaticano II e a Igreja hoje

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

12/07/2020 16:05
Por: Redação

O Concílio Vaticano II e a Igreja hoje 0

Muitos costumam enfatizar que o Concílio Ecumênico Vaticano II não foi um concílio dogmático, como os precedentes, mas sim pastoral, porque sua principal finalidade era pastoral, ou seja, pertinente à missão evangelizadora da Igreja no mundo moderno ou pós-moderno. Porém, percebe-se que muitas vezes este tipo de argumentação sugere uma diminuição do mesmo Concílio. Sendo assim, há que se recordar que a pastoral é fundamentada na doutrina e deve ser por ela conduzida. Além do mais, neste aggiornamento (‘atualização'), empreendido pelo Concílio Vaticano II, surgem afirmações dogmáticas fundadas em verdades reveladas da fé de suma importância, mesmo sem constituírem proclamações ou definições dogmáticas solenes propriamente ditas.

O Concílio Vaticano II significou um ponto final na separação entre Igreja e sociedade moderna. Esta separação perdurava desde o surgimento da modernidade, que desfez o imaginário unitário e hegemônico que perdurou até fins da Idade Média. A partir daí surge a emancipação progressiva de vários setores do saber. E como a Igreja tradicionalmente configurou-se como sociedade perfeita e institucionalizada, detentora de toda a realidade revelada, ela, até o Concílio Vaticano II, olhava para a modernidade com desconfiança, chegando até mesmo a dar as costas para a sociedade moderna, procurando construir seu próprio mundo católico, não se deixando interpelar pelas conquistas científicas ou pelas novas compreensões da realidade. Contudo, desde meados do século XIX, mas principalmente a partir do início do século XX, surgiram movimentos teológicos e pastorais em diversos campos da teologia que defendiam um retorno às fontes bíblicas e patrísticas. É neste contexto que surgem os importantíssimos movimentos bíblico e litúrgico, ambos do século XIX, que desembocarão nas constituições, respectivamente dogmática e pastoral, “Dei Verbum” e “Sacrossanto Concilium”.

Assim, podemos enumerar algumas características que fizeram parte da configuração tradicional da Igreja que perduraram até o giro antropológico do Concílio: a fé como chave de leitura dominante para toda a sociedade, reação hostil e cheia de desconfiança por parte da Igreja em relação à modernidade, consequente fechamento em si mesma e em seus dogmas, linguagem utilizada na evangelização incapaz de atingir a compreensão modernizada das pessoas, a não aceitação por parte da Igreja da nova configuração pluralista da sociedade, entre outras.

Todas essas e outras características da configuração tradicional da Igreja que persistiram até o início da segunda metade do século XX levaram gradativamente à perda de influência que a Igreja possuía em todas as esferas da sociedade civil. Cada uma das referidas características revela o modo como a Igreja se autocompreendia e como compreendia o mundo, e a partir daí, como se posicionava na sociedade, conhecedora de sua missão para com toda a Humanidade. O supracitado giro antropológico pode ser claramente percebido nas constituições “Lumen Gentium”, em que a Igreja ressalta sua compreensão como comunidade dos discípulos do Senhor espalhada por todo o mundo, e “Gaudium et Spes”, em que ela mostra maior abertura para os progressos científicos, balizados, evidentemente, na doutrina e moral cristãs tradicionais, e aborda diversos problemas do mundo atual, tais como injustiças sociais, conflitos entre os povos, explosão demográfica etc.

O Concílio Vaticano II pretendeu assim proclamar a salvação de Deus numa linguagem que fosse entendida e significativa para os nossos contemporâneos. Seus documentos, mesmo os mais dogmáticos, como as já citadas constituições “Lumen Gentium”e a “Dei Verbum”, buscam propositadamente expressões bíblicas e descritivas, que melhor façam aflorar a dimensão histórico-salvífica da revelação. Ou ainda a já referida constituição apostólica “Gaudium et Spes”, que retoma o diálogo com o mundo moderno e leva a Igreja a assumir seu papel histórico na construção do futuro da Humanidade.

Porém, há critérios que distinguem elementos históricos provisórios e até mesmo já ultrapassados de outros elementos constitutivos da Igreja que devem ser mantidos. Neste sentido, a identidade da Igreja deve ser buscada na pessoa e na obra de Jesus Cristo e, mais precisamente, naquilo que constitui a razão de ser de sua vida: a proclamação e a realização do Reino de Deus, tal como afirma o Concílio na “Lumen Gentium”. A Igreja, assumindo a existência qualificada de seu fundador, expressa, visibiliza e proclama para o mundo o Reino de Deus, celebrando-o nos sacramentos, sobretudo, na Eucaristia. Daí afirmar o Concílio Vaticano II que a Igreja só cumprirá seu sentido último de “sinal levantado”, de “luz do mundo” e de “sal da terra” enquanto “viver profundamente a vida cristã”.

Portanto, a configuração institucional da Igreja deve estar adequada à sua missão de anunciar e realizar na história o Reino de Deus. A história nos ensina que mudanças institucionais se deram em vista de salvaguardar a liberdade, de proclamar e viver a mensagem evangélica por parte das autoridades eclesiásticas. Naturalmente, por vezes, nelas estava também presente a vontade de poder, o medo, a vaidade, enfim, o pecado. Mas não podemos absolutizá-las por terem surgido na história em contextos bem determinados, que talvez em outras situações peçam outras formas institucionais. Talvez mesmo a diversidade das configurações eclesiais no mundo cristão tenha acontecido na busca de tornar o institucional (princípio e meio), realmente salvífico (fim).

Neste sentido, o Concílio Vaticano II é verdadeiramente um dom para toda a Igreja, de tal sorte a rechaçar a compreensão segundo a qual ela é referência pra si mesma, visto que a referência é o Senhor Ressuscitado, e isto é bastante enfatizado no pontificado do Papa Francisco, que segue a mesma linha de seus antecessores neste sentido de ainda empreender a recepção do Concílio. O próprio Papa São João Paulo II assim considerava o Concílio Vaticano II no jubileu do ano 2000: “O Concílio Vaticano II constituiu uma dádiva do Espírito à sua Igreja. É por este motivo que permanece como um evento fundamental não só para compreender a história da Igreja no fim do século, mas também e, sobretudo, para verificar a presença permanente do Ressuscitado ao lado da sua Esposa no meio das vicissitudes do mundo. Mediante a Assembleia conciliar, [...] pôde-se constatar que o património de dois mil anos de fé se conservou na sua originalidade autêntica".

Padre Valtemario S. Frazão Jr.
 
Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.