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06 de Agosto de 2020

Sonhos em Moscou

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03/07/2020 23:07
Por: Redação

Sonhos em Moscou 0

Certamente que na maior parte das listas dos melhores diretores de todos os tempos, geralmente, irá figurar o nome do russo Andrei Tarkovski, e por justiça não poderia deixar de dedicar um artigo para este gigante. 

Tarkovski nasceu em 193, na antiga União Soviética, filho de Arsene Tarkovski, poeta russo de certa relevância que inspirou boa parte das obras do filho, isso quando não eram feitas citações diretas de seus textos nos filmes.

Possui uma filmografia relativamente curta, tendo dirigido 11 filmes ao longo de 30 anos. Sua filmografia pode ser dividida em duas fases: a primeira que envolve os quatro primeiros filmes de sua carreira, ou seja, até “A infância de Ivan”, de 1962, que de certo modo já apresentava alguns dos elementos que iriam caracterizar sua filmografia na segunda fase, que vai de 1966 até 1986, ou seja, de “Andrei Rublev” até “O sacrifício”.

A primeira fase se caracteriza por uma certa linearidade na narrativa dos filmes, ainda que já abordasse temas que marcariam sua obra no segundo período. Estes eram ainda apresentados de forma mais sutil ao espectador, sendo mais sugeridos do que propriamente aprofundados.

Provavelmente o mais importante dessa fase é “A infância de Ivan”, que narra a história de um menino russo, que lutava como espião do exército soviético durante a II Guerra e que após muitas missões, decidem enviá-lo para um colégio militar, para poupá-lo do desgaste das missões. Trata-se o filme de uma adaptação do conto de Bogomolov, que atraiu o diretor por apresentar uma certa originalidade no que diz respeito à dissociação entre a elaboração estética e o conteúdo das ideias que o livro contém. Além disso, o livro possui um realismo muito preciso, que caiu como uma luva no cinema de Tarkovski, que priorizava a realidade sobre o texto. Nesse momento, Tarkovski cria fosse de separação definitiva da literatura e do cinema.
Em 1966, surpreende com “Andrei Rublev”. Somente pelo título se poderia pensar que o interesse central estaria na construção de uma narrativa essencialmente biográfica, contudo, Tarkovski estava interessando em ir além. Ao pensar o filme, ele queria adentrar na investigação da natureza do gênio poético do pintor, da psicologia da criação artística e toda a contextualização social que permeava esse imaginário.

O filme talvez sofra um pouco com a longa duração (cerca de 180 minutos), além de não possuir uma linguagem muito acessível, o que pode gerar certo desconforto durante a projeção, entretanto, vale o esforço para apreciar o início desse grande período na carreira do diretor.

É importante salientar esta dificuldade de interação com o espectador, pois um dos pilares onde se funda a obra de Tarkovski é justamente na complementariedade entre a obra e a percepção do público. A questão também perpassa problemas de base na construção da arte no século XX, pois se por um lado deveria haver certo comprometimento da obra com o público, a arte também não deveria estar demasiadamente desvelada, já que o que mais se queria evitar é a confusão entre arte e reprodutibilidade técnica, ou seja, no caso do cinema, a redução da obra a mero objeto de entretenimento. Tarkovski percebia que, em certa medida com o avanço do capitalismo, essa era uma tendência quase que irreversível nas artes em geral. Era então uma de suas maiores preocupações no processo criativo.

Outro filme que também é interessante destacar é “Solaris”, de 1972, considerado por muitos como a contraposição soviética a “2001, uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, que Tarkovski pessoalmente considerava um filme estéreo. Na película, somos inseridos no contexto de um futuro utópico, no qual os interesses estão voltados para o estudo de um planeta chamado “Solaris” e seu oceano, contudo, no decorrer da narrativa, o planeta irá se revelando como uma extensão do espírito humano.

Solaris trata da angústia humana diante da imensidão do Cosmo. A ânsia do homem por conhecimento é fruto sempre de tensão e angústia, que somadas à percepção moral ampliam o sofrimento do homem diante da descoberta e dos dilemas éticos. No cinema creio ser possível afirmar que a URSS venceu a corrida espacial.

O último filme de Tarkovski é “O sacrifício”, de 1986, creio que um de seus filmes mais complexos, no qual, pela primeira e única vez, ele irá trabalhar com Sven Nykvist, diretor de fotografia dos filmes de Bergman, em uma ilha próxima de Faro para também homenagear Bergman, para trazer à tona muitas de suas temáticas.

Logo na abertura do filme nos deparamos com “A adoração dos magos”, de Da Vinci, justamente para adentrar na temática que permeará toda a obra, ou seja, o encontro do cristianismo com a cultura pagã.

O filme narra a história de Alexander, um ator aposentado que está consternado com a perda do elemento transcendental na modernidade, até que o evento da guerra eclode e para estancá-lo lhe é revelado que ele deve deitar-se com uma feiticeira, que trabalha como empregada em sua casa, mas para que o efeito seja consumado, ele deve afastar-se de todo o seu passado.

É interessante notar com Tarkovski irá mesclar o sentido do sacrifício cristão, de abnegação, dentro de um contexto de realização pagã e ainda prender o espectador dentro das questões existenciais que irão perpassar durante toda a duração da obra.

Alguns meses após a gravação de “O sacrifício”, Tarkovski irá morrer em
decorrência de um câncer que adquiriu nas gravações de um filme anterior, dentro de uma zona de radiação. De certo modo ratificando o que expôs em sua obra derradeira.

Fontes:
DELEUZE, Gilles. A imagem tempo. São Paulo: Editora 34, 2018.
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998

Seminarista Filipe Freitas Machado
 


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