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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2020

23 de Setembro de 2020

A era cyber digital: o fantástico mundo de Bobby existe

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A era cyber digital: o fantástico mundo de Bobby existe

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26/06/2020 14:10
Por: Redação

A era cyber digital: o fantástico mundo de Bobby existe 0

Muitos talvez chegaram a ver um antigo desenho chamado “O Fantástico Mundo de Bobby”, que retratava um menino que sonhava acordado desligando-se do mundo real. Ao dar o título provocativo ao que irei tratar nesse artigo, quis aludir ao fenômeno da virtualização da sociedade e de praticamente todos os aspectos da nossa vida cotidiana numa dependência crescente e inevitável dos meios digitais. Um homem de 1850 que acordasse no mundo de hoje pensaria estar sonhando com nossos engenhos e habilidades.

Seria portanto o virtual o novo real? Será que estamos diante de novos conceitos antropológicos do que seja real e virtual nas relações? São perguntas que perpassam o background desse ensaio, mas que não pretendo responder, e sim deixar como elemento provocativo para o próprio leitor refletir.

O fato é que que essa era digital construiu um mundo verdadeiramente fantástico e cheio de novos riscos.
Sem dúvida, nessa revolução no mundo digital corremos o risco de pôr em stand-by aspectos importantes da nossa humanidade se não soubermos impor limites e fazer uma boa educação digital. E este é um compromisso nosso com as futuras gerações.

Um novo mundo
O advento da internet interferiu diretamente no modo de nos relacionarmos e interagirmos socialmente. O distanciamento físico não é mais um impedimento à comunicação e às relações. Ao mesmo tempo que pode levá-las a um empobrecimento antropológico e maior superficialidade.
Tal como a internet pode ser tomada como um sexto poder, pode também ser considerada um sexto sentido do homem pelo qual vive a experiência de imediatez entre as pessoas, amplitude comunicativa sem fronteiras e tempestividade de informação e de ideias. E não existe mais onde não se possa chegar ou com quem não se possa falar.

Necessidade-serviço no âmbito digital
É crescente a relação necessidade-serviço no uso da internet. Evolui a nossa dependência dela nas relações comerciais. Muitos serviços de demanda comercial e inteiras empresas precisam deste tipo de comunicação. Poderíamos dizer que temos uma nova ‘revolução industrial’ que consiste na digitalização dos meios de produção e da própria base logística comercial entre produtores, fornecedores e consumidores de produtos e serviços.

Igualmente passamos por uma digitalização da atividade monetária, e uma prova disso é o avanço da extinção na produção do papel-moeda que tem crescido gradualmente em muitos países. Apesar de ser cedo, a total digitalização do monetarismo parece um caminho inevitável para as próximas gerações. Ora, o papel-moeda corresponde ao valor de sua liquidez. E o que impediria uma maior concentração do uso de outro meio de representação desta liquidez numa versão digitalizada? Bem, os caminhos estão abertos para isso. E talvez essa geração veja radicais mudanças nesse sentido.

O novo saber enciclopédico e informativo
Além dos fatores relacional e comercial, o novo saber enciclopédico humano se tornou o armazenamento em nuvem e o acúmulo cada vez maior de informações.

O saber da Humanidade, antes dependente dos livros, do trabalho editorial e de imprensa, bem como do espaço físico de armazenamento dos livros, como no caso das bibliotecas, agora não precisa mais de um lugar, pois pode estar em todo lugar, não precisa de um livro impresso, mas de um mero link de conteúdo virtual.

Tal fenômeno, ao mesmo tempo que ajuda no avanço do saber humano, tem os seus problemas e limitações. A quantidade tempestiva de informações não significa de nenhum modo a qualidade delas, nem é garantia de rigor científico e conteúdo acurado. Pois num mundo em que todos têm o potencial de falar de tudo para todos, muitas informações se acumulam sobre determinado objeto que no fim não são verdadeiras, estão repletas de subjetividades ou imprecisões dos indivíduos. O fenômeno contemporâneo da multiplicação avassaladora das fake news é um exemplo disso.

A própria tempestividade de informações não permite ao homem racionalizar tudo e ter tempo de analisar para um melhor juízo e ação sobre a realidade. Quando termina de mastigar uma informação, uma outra lhe é empurrada pela goela abaixo. E tal como o corpo descarta o excesso dos alimentos e vitamínico, o cérebro passa a descartar a maior parte das informações que recebemos, pois não nos performaram e não foram sequer refletidas. Tal realidade gera uma sociedade líquida, sem consistência e superficial. A geração millennials é um resultado desses efeitos nefastos da superficialidade do mundo digital, criando um subproduto intelectual humano que pode culminar numa involução humana em alguns aspectos.

Com a era digital, o trabalho informativo se tornou mais exaustivo e mais fundamental do que era anteriormente. A interdependência entre comunicação e bem comum cresceu ainda mais, e reforçou um fato: “não se governa uma sociedade e não se vive nela sem comunicação”.

E a boa e justa informação se tornou um serviço essencial para a nossa cotidianidade, uma vez que a falsidade, a omissão pela falta de transparência em sociedade no que é de interesse de todos e as mentiras prejudicam o próprio bem comum.

A radicalização da rede e o cyberbullying
O acesso democrático aos instrumentos de comunicação não só facilitou a assunção dos valores humanos e meios de se propagar o bem, mas também de trazer à tona as fraquezas humanas e os vícios de toda espécie. A agressividade na rede, a exemplo do cyberbullying, mostra um quadro de radicalização nas relações e um processo de tribalização da sociedade, de cujo fenômeno se formam as tribos ou facções digitais.

Algo que facilitou esta realidade é a sensação de impunidade que muitos têm ao usar ferramentas virtuais. Ficar atrás de um teclado e uma tela de computador falando o que se quer a todos indiscriminadamente parece não ter consequências. De fato, é, em geral, uma falsa sensação de impunidade, de anonimato e de intangibilidade causados pelo distanciamento físico dos demais indivíduos com os quais se relaciona.

Os próprios sistemas judicial e policial têm se adaptado rapidamente a esse novo mundo dos anônimos. O investimento em segurança digital por muitos governos e a capacitação do uso de ferramentas cibernéticas nas instituições para defender o bem comum têm dado resultado em muitos países.

O combate à corrupção foi extremamente facilitado com os dados digitais. A ignorância de muitos criminosos no uso de ferramentas tecnológicas e a falsa ideia de anonimato corroborou com a descoberta de grandes esquemas de corrupção no Brasil e mundo afora.

Internet e cidadania
A participação democrática e o poder comunicativo dos indivíduos se tornaram ferramentas de exercício da própria cidadania. Uma das suas manifestações é o agrupamento ideológico e a concentração de indivíduos virtualmente nas matérias de debates públicos. É como uma “Nova Ágora virtual”.

Apesar de encantador e fantástico esse mundo de debates virtuais, de outro lado, tem o problema dos algoritmos da internet que podem não facilitar o potencial dialógico dela, devido ao isolamento de grupos segundo as suas preferências, criando os nichos virtuais e o isolamento das diversas tribos digitais. Isso acontece pelas métricas geradas pelo próprio uso e dados coletados dos indivíduos por numerosas plataformas cibernéticas.
Tal destacamento de grupos não contribui também para a racionalização no debate público, uma vez que o contraditório não tem tanta relevância e se cria uma bolha digital na qual a pessoa transita em círculos sem considerar outros aspectos possíveis da realidade. Se consumimos apenas o conteúdo que homologa nossas ideias e aspirações, tendemos a isolar-nos na autorreferencialidade.

Os ventos da política
Diante do cenário de confronto ideológico das redes e o seu poder de informação, sem dúvida, a pressão social incide de maneira muito mais imediata e intensa sobre os deveres políticos. Antes, as manifestações públicas e a luta por direitos dependiam do cooperativismo, o qual se manifestava por associações e sindicatos. Agora, tal poder foi transferido a cada indivíduo, que se tornou um potencial influenciador social, ou a uma nova espécie associativa, o cooperativismo digital.

A democracia hoje se tornou dependente das ferramentas de informação e da internet. E os processos jurídico-políticos compreendem também etapas, motivações, pressões e barreiras no contexto da opinião pública desenvolvidas no âmbito da rede.

Em síntese, hoje em dia, a perda do acesso ou mesmo à geração da informação se tornou uma ameaça à existência da própria democracia diante da nova impostação social e das relações globais que emergiram na era digital. Podemos chegar a afirmar que a democracia se tornou inconcebível sem a comunicação e os múltiplos sistemas de informação que evoluem cada vez mais para uma digitalização.

Padre Augusto Bezerra


 
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