Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 04/07/2020

04 de Julho de 2020

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26/06/2020 14:08
Por: Redação

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Caros irmãos, no artigo de hoje entramos, de modo particular, na vida e na missão profética de Amós, para recordar aquilo que jamais deveríamos nos esquecer: a nossa condição de filhos de Deus, que nos exige um modo de vida diferenciado, não privilegiado.

Amós é originário de Técua (território de Judá, Reino do Sul), uma cidadezinha situada a 17km de Jerusalém. Região montanhosa e pouco propícia à agricultura, com quase a totalidade de seus habitantes dedicados à pecuária. Amós trabalhou como pastor/vaqueiro (nôqed ou bôqer - Am 1,1), e cultivador de sicômoros/figueiras (bôles sikemim - Am 7,14), parecendo não ser muito pobre, já que o gado que cultivava era de sua propriedade. Homem culto, sua origem rural deu-lhe um grande amor pela natureza e um vasto conhecimento sobre toda a atividade agrícola e pecuária, demonstrado pelas mais de 50 palavras utilizadas em seu livro, relacionadas ao costume das lagostas, aos efeitos da estiagem, à arte da caça. Por outro lado, também está muito familiarizado com o modo de vida da cidade, sabendo exatamente como os acontecimentos da vida urbana têm impacto na vida social do seu povo, sobretudo a ostentação vivida em Samaria – sistemas de climatização de inverno e verão nas residências, detalhes a respeito dos suntuosos banquetes etc. Amós conhece, além disso, as antigas tradições do povo e os fundamentos da sua fé, mencionando particularidades sobre os laços que unem Edom a Israel (Gn 25,19-24), o Êxodo e etc. Isso fica evidente nas mensagens que pronuncia, nas quais, ao reprovar o comportamento das nações, utiliza-se de recursos sapienciais próprios da tradição de Israel. Esse homem leigo, que não tem relação alguma com os ministros oficiais do Templo, nem com os profetas carismáticos (7,14), é justamente quem Deus escolhe para falar duramente ao Seu povo, concentrado no Reino do Norte (Samaria). O chamado feito a Amós, surgido no momento de maior depravação moral em Israel, é tão forte e imperativo que ele não é capaz de recusar: “Ruge o leão: quem não temerá? Fala o Senhor: quem não profetizará?” (cfr. Am 3,8; 7,15).

O contexto cultural no qual estava inserido o profeta era o do século VIII a.C., período aludido no artigo “Os Profetas de hoje”, no qual Israel vivia na prosperidade e protagonizava o cenário político, com grande orgulho nacional – década de 760-750 a.C., reinado de Ozias, 10º rei em Judá (Reino do Sul) e Jeroboão II, 13º rei em Israel (Reino do Norte). Nesse período, o Reino do Norte alcançou seu máximo esplendor, tendo tido expressivo crescimento populacional e florescimento na atividade comercial e industrial têxtil, década sem guerras nem ameaças. Apesar de Israel atravessar sua melhor fase enquanto reino, existia, por trás de toda essa aparente prosperidade, muita desigualdade social, exploração dos indigentes, corrupção no sistema Judiciário, degradação dos costumes religiosos, desde a mera vivência formal dos preceitos até a prática pagã de cultos de fertilidade e prostituição sagradas. O povo tinha se aburguesado, de modo que a espera pelo Dia do Senhor era marcada tão somente pelo afã materialista – esperava-se um paraíso na Terra! Diante de tudo isso, o coração de Amós se angustiava profundamente, ao ver seu povo decompondo-se, pois seu zelo pelas coisas do Senhor é muito grande, cfr. Sl 69(68),10. Assim, Amós relembra que Deus é Soberano, diante da soberba e da autossuficiência do povo, atribuindo ao Senhor o que os cananeus diziam a respeito do seu deus (baal): o Deus de Israel é um Deus que tem domínio sobre todas as constelações, Ele envia a chuva aos trabalhadores do campo e fecunda pessoalmente a terra; Ele é o autor e o dono de toda a criação, de modo que a Ele se devem a seca, as pragas que devoram a lavoura e até mesmo a fome! Desse modo, Deus atua como Todo-poderoso na natureza e na História, estando muito próximo ao seu povo e se comprometendo com todos os detalhes de sua vida.

Com grande sensibilidade aos sofrimentos do povo, Amós é o profeta que direciona várias mensagens contra as nações vizinhas e o próprio Israel, reprovando suas condutas; condena a perversidade dos juízes, que aceitam suborno e ditam sentenças que prejudicam a pobres e a inocentes; adverte também aos que concedem empréstimos a juros exorbitantes, e faz duras críticas aos preços abusivos no comércio da época; a ostentação e o desperdício dos que vivem na opulência nunca passam desapercebidos aos olhos do profeta. Assim, Amós é a voz de Deus que faz com que o povo perceba que confundiu a eleição divina com a impunidade, ou seja, que Israel entendeu de modo errado a sua condição especial de povo da Aliança, confundindo-a com um estilo de vida fútil, irresponsável e inconsequente, como se não tivesse que prestar contas de nada disso a Deus, podendo viver unicamente para si mesmo.

O livro bíblico de Amós está divido em uma Introdução, que começa dizendo: “Palavra de Amós, um dos vaqueiros de Técua” e que é capaz de resumir todo o conteúdo do livro, nos dois primeiros versículos. Uma primeira parte, onde se encontram as mensagens de reprovação às nações vizinhas, e que menciona também a Israel, enumerando os pecados do povo e os benefícios recebidos de Deus. Uma segunda e terceira partes, nas quais se expõem outros oráculos e as cinco visões: a da lagosta, a do fogo, a do prumo, a do cesto de frutas maduras e a da destruição do santuário, que descrevem, respectivamente, o chamado feito a Amós, sua intercessão pelo povo, a progressiva degradação interior experimentada por Israel, a iminência do juízo e a presença soberana de Deus, da qual ninguém pode escapar.

Amados irmãos e irmãs, tendo recordado, com riqueza de detalhes, aquilo que não convém à nossa condição de escolhidos, voltemos ao Senhor de todo o coração e de mãos dadas com a Virgem Maria, que sempre sabe nos acompanhar no caminho rumo ao céu. Esforcemo-nos para permanecer na fidelidade a esse Deus que tanto nos ama.

PADRE IGOR ANTÔNIO CALGARO
VIGÁRIO PAROQUIAL DA PARÓQUIA SANTA TERESINHA, EM BOTAFOGO

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