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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 04/07/2020

04 de Julho de 2020

Em meio aos extremos

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Em meio aos extremos

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26/06/2020 13:57
Por: Redação

Em meio aos extremos 0

Vivemos em tempos de radicalismos e extremos. Mas, nem por isso o tempo para a fim de que o mundo assista os gladiadores ideológicos. Muito pelo contrário, ele marcha e a sua cadência são os acontecimentos ou a sucessão de ocorrências. Diante desta marcha há aqueles que estacionam frente aos acontecimentos e posicionamentos, alienando-se em relação ao que está ao seu redor; e há outros tantos que se posicionam cegamente na direção de correntes ideológicas que vêm do passado e caem sobre o nosso presente como meteoro avassalador a dispersar e a causar destruição. São atitudes humanas, mas que denotam o vazio existencial dos corações dos homens e mulheres desta geração. É natural que o ser humano recorra a causas e realidades que lhes sejam capazes de conferir sentido à vida, seja para seguir a marcha dos acontecimentos, alinhando-se à esquerda ou à direita, seja para estacionar num estado de espírito que beira a ataraxia ou a ela mesmo se lançar. Mas, todos estes posicionamentos se norteiam unicamente por referenciais meramente terrenos, desprovidos de metafísica ou transcendência. Vemos por aí tantos discursos empolados, pautados em suposta ciência, cheios de citações de pseudos pensadores que agem como falsos profetas ou profetas da divisão. Entretanto, este campo do pensamento carece de profundidade, e sua superficialidade é apenas disfarçada pela agitação das águas turvas de nosso tempo. 

Mas, entre estes posicionamentos acima aludidos – os que estacionam e os que marcham alinhados seja à direita ou à esquerda – há dois espectros muito frequentemente encontradiços e que não raramente caminham de mãos dadas. São eles um de ordem social e o outro de ordem religiosa. Aqueles que se sedimentam e apenas assistem imóveis as caravanas que passam, tornam-se alienados, incapazes de acompanhar as transformações porque perderam a visão crítica da realidade e podem assim, como gado, serem conduzidos passivamente pela massa a qualquer destino. Por outro lado, os que marcham alinhados com vibração julgam o contraditório a partir de critérios por vezes anacrônicos porque ideológicos, ora vendo comunismo em tudo, ora vendo conservadorismo em tudo; critérios que também são ilegitimamente aplicados à pastoral da Igreja, como se qualquer empenho para reformá-la e aproximá-la cada vez mais de suas fontes supusesse uma conspiração para destruí-la ou afastá-la dos mais pobres.

Uma ideologia forjada por pessoas naturalmente sofre alterações e as mais díspares influências, tornando-se assim bastante versátil para se infiltrar e influenciar nos submundos da realidade. Podem-nos parecer infantis os argumentos que julgam certas atividades e posicionamentos como marxistas, utilizando de critérios da década de 60 e 70. Mas, é preciso também atentar para os perigos da ideologia comunista que subjazem muitos posicionamentos e ações de Estado, e que tendem a instrumentalizar os isentos e imparciais.

As consequências práticas destas visões deturpadas é a rotulação das autoridades eclesiásticas e da própria Doutrina Social da Igreja como sendo comunistas. Assim como também, por outro lado, rotulando outras autoridades eclesiásticas como tradicionalistas ou de extrema direita. Ora, em tempos de guerra ideológica, desmoralizar a Igreja, restringir os seus legítimos direitos e minar a confiança dos pastores instigando suas ovelhas à desobediência, rebeldia e desrespeito é ação diabólica que desmascara os verdadeiros inimigos da Igreja de Cristo.

Não podemos nos deixar levar pelo perigo de minimizar o que há de destrutivo e maléfico na doutrina comunista. Mas, também não podemos desprezar o que há de insidioso na extrema direita conservadora. Ambas as doutrinas são meramente imanentes, desprovidas de sobrenaturalidade e verdadeira caridade, em toda plenitude destas palavras.

Nestes tempos tão difíceis e limítrofes para a Humanidade, em que muitas vezes e tão facilmente se sai da discussão no campo das ideias e se parte para as “vias de fato”, os bons cristãos devem se policiar para não se deixarem conduzir pelo turbilhão das ideias, aceitando sem senso crítico ideologias e modismos, tornando-se verdadeiros papagaios, ou seja, meros repetidores, a enfraquecer o vigor da doutrina e da disciplina eclesiástica ou trocando-os por correntes de pensamento impactantes sim, porém frágeis porque não são fundamentadas nem na Tradição, nem na Palavra e nem no Magistério. Exemplos são vários, que vão desde o relativismo aplicado à doutrina divina, passando pela aceitação de “práxis” marxistas travestidas de roupagem evangélica e pelo laxismo moral, até a não aceitação da autoridade hierárquica, o que muitas vezes nos faz trágica e desgraçadamente imaginar que talvez heresia e indisciplina eclesiástica hoje não passam de expressões anacrônicas totalmente relativizadas.

E o que fazer? Onde se posicionar nos espectros político, social e teológico de extremos?

A primeira atitude é a de humildade, pois ninguém é detentor da verdade e do saber universal. Cristo é a verdade! Ele tudo contém, mas por nada e por ninguém pode ser contido. A Igreja é serva de Cristo e, por isso mesmo, serva da verdade. E a posição correta é a do equilíbrio, que só podem alcançar aqueles que humilde e corajosamente se deixam conduzir pelo Espírito.

Humildade e equilíbrio são frutos de prudência sobrenatural que, em tempos de crise, não permitem afastarmo-nos do espírito da Igreja. Aí Cristo há de ser sempre a referência maior e imprescindível do pensamento e das atitudes. Ele é sempre a luz, que em meio às trevas do nosso tempo orienta a barca da Igreja e, evidentemente, todos os seus tripulantes, sempre sob o impulso do Espírito Santo.

Padre. Valtemario S. Frazão Jr.



 
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