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04 de Julho de 2020

Os mascarados de Bergman

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Os mascarados de Bergman

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21/06/2020 10:34
Por: Redação

Os mascarados de Bergman 0

Em artigo anterior tivemos a oportunidade de tratar sobre os aspectos mais gerais da obra do diretor sueco Ingmar Bergman, certamente que não o suficiente, e nem temos essa pretensão, para esgotar uma obra tão vasta, no que se refere à sua produção cinematográfica, de quase 50 anos.

No artigo que antecede a este, me ative no aspecto religioso presente na filmografia de Bergman e nas possíveis conexões que se encontram em sua biografia. No presente, gostaria de explorar um pouco mais as minúcias do pensamento bergmaniano, suas motivações e raízes.

Gostaria de adentrar em uma temática bastante presente na obra de Bergman, especialmente no cinema, já que não devemos nos esquecer que Bergman teve uma carreira quase tão profícua no teatro, que é a questão do rosto ou se preferir da máscara (prosopon), que será aprofundado especialmente em “Persona”, de 1966.

Deleuze, um dos grandes teóricos do cinema, irá classificar o primeiro plano como “imagem-afecção”, e o primeiro plano não pode ser, mas é o rosto. Bergman irá levar este debate a contornos homéricos em “Persona”, de 1966. O filme já em seu título faz referência ao termo latino ‘persona’, que por sua vez encontra suas raízes no termo grego prosopon, termo este que faz alusão às máscaras utilizadas na encenação das tragédias do teatro grego. “Persona” também faz referência a um conceito da psicanálise jungiana.

Para Jung, a persona trata-se de um complexo de personalidade, algo como a adoção de uma personalidade sintética, artificial; que diverge do modo de ser, dos traços de caráter do indivíduo, buscando assim mascarar-se, para se defender ou adaptar.

Na película, Bergman irá narrar a história de uma atriz (Liv Ullmann) em crise criativa, cujo sintoma mais significativo é a mudez. Para a médica que está acompanhando o caso, a melhor opção é enviar sua paciente para sua casa de campo no litoral, acompanhada da doce enfermeira Alma (Bibi Anderson).

No decorrer da narrativa, Alma irá ganhando cada vez mais intimidade com Elizabeth, sentindo-se segura com a mudez, que em seu julgamento conferia uma espécie de garantia de confidencialidade, de conforto, de ausência de julgamentos. Essa relação irá avançando até o ponto em que não mais é possível distinguir as duas personalidades; como se a persona de uma tivesse sido adotada pela outra, ou se simplesmente elas compartilhassem a mesma, uma espécie de fusão, como é dito pelo próprio Bergman.

Especialmente em “Persona”, o rosto se destaca, para além do que já é destacado na filmografia de Bergman. No rosto despido, se considerará de maneira mais enfática o niilismo da persona. O rosto pode conter em si tudo; ou seja, toda identidade, e ao mesmo tempo, pode não oferecer nada; se oferecer ao menos apatia, poderá oferecer o disfarce (a máscara).

Levando em conta a tendência kierkegaardiana de Bergman, talvez possamos destacar também, que diferente de Jung, a persona pode afirmar-se como uma verdade individual e subjetiva, no passo em que o indivíduo a produz em sua própria ação, tendo em vista a sua liberdade. Levando isto em conta não se poderia afirmar a persona como mero complexo de personalidade, mas considerá-la uma tendência ou até mesmo a via ordinária na construção da identidade.

É interessante também notar como Bergman irá subverter, especialmente nesse filme, a linguagem da narrativa clássica do cinema, de campo e contra campo. Muitas vezes a voz do personagem não estará ligada a imagem do rosto que está projetado na câmera, recurso que ajuda demais na construção da ideia de fusão das identidades ao longo do filme, inclusive com um certo agravamento do uso deste recurso ao longo da película.

Outra perspectiva interessante também para análise do filme é enxergá-lo como uma espécie de homenagem ao cinema. O prólogo já nos assegura a possibilidade desta interpretação. O filme inicia com uma projeção, como se o espectador estivesse sendo imerso dentro do cinematógrafo. Após isso, nos deparamos com uma série de sequências no rolo que não apresentam aparente conexão entre elas, até o momento que vemos um menino que aparenta estar em uma espécie de necrotério e vai aproximando-se para ver uma imagem através da tela, que aos poucos se revela ser a imagem de Elizabeth e Alma.

Pode-se certamente procurar no prólogo relações explícitas com a trama do filme, entretanto múltiplas serão as interpretações que poderão ser alcançadas. Uma das mais recorrentes é de que a criança no necrotério pode fazer referência ao filho abortado de Alma ou do abandonado de Elizabeth. Alguns mais freudianos irão encontrar aí a oportunidade de analisar o filme a partir de uma perspectiva edipiana, pelo afeto com que o menino acaricia as fotos, até a relação entre paciente e enfermeira, que em alguns momentos se mostrará carregada de uma certa maternidade.
É certo dizer que “Persona” é um daqueles filmes que já foi analisado à exaustão, contudo deve-se garantir a importância do espectador no processo de construção da análise fílmica. Retomando a citação que fiz na semana passada de Fellini, não devemos nos ater a certas obsessões concretistas, que são fruto de um realismo sem criatividade. Talvez o caminho mais seguro para análise seja o da hermenêutica contemporânea.

Seminarista Filipe Freitas Machado

Bibliografia:
DELEUZE, Gilles. A imagem movimento. São Paulo: Editora 34 Ltda, 2018.


 
 
 
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