Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 15º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 04/07/2020

04 de Julho de 2020

Coerência entre liturgia e vida: ensinamento de ontem, necessidade de hoje

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04 de Julho de 2020

Coerência entre liturgia e vida: ensinamento de ontem, necessidade de hoje

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21/06/2020 10:25
Por: Redação

Coerência entre liturgia e vida: ensinamento de ontem, necessidade de hoje 0

Caros irmãos, nessa semana dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, recorremos à literatura profética da Escritura Sagrada para, conhecendo os principais temas dos Livros Proféticos, contemplar o que abundava nesses corações: o amor e a santidade do único Deus e a fidelidade que se Lhe deve. Preparando-nos para conhecer, de modo sistemático, nos próximos artigos, a vida e aprofundar o conteúdo da pregação de cada um dos profetas, começamos hoje a tangenciar, em linhas gerais, o conteúdo doutrinal do profetismo de Israel.

Os profetas clássicos exerceram o seu ministério num momento crucial, tanto da vida de Israel quanto da composição dos livros que deram origem, mais à frente, ao Pentateuco e aos Livros Históricos, razão da mútua influência doutrinal entre ambos os blocos de livros bíblicos. Os profetas receberam, viveram e transmitiram a fé e a tradição religiosa de Israel, aplicando-as às circunstâncias de quem os escutavam, sendo, desse modo, os transmissores de uma mensagem que apontava a uma realização posterior no futuro, coincidente com a chegada do Messias (Hb 1,1-2). A mensagem dos profetas contém todo o depósito da fé de Israel, coincidindo em seus aspectos essenciais com tudo o que ensinam os demais livros da Escritura, enfatizando-se e desenvolvendo-se nas obras particulares aquelas doutrinas, que mais incidiram na vida do povo em cada momento histórico. Embora seja difícil sintetizar de modo ordenado e científico a doutrina comum dos profetas, cujos escritos englobam mais de quatro séculos, podemos afirmar com segurança que todos eles confessaram a existência de um único Deus (monoteísmo), falaram sobre a vinda do Messias e deram ensinamentos sobre a vida moral e social. Na doutrina do monoteísmo, os temas mais destacados são a soberania absoluta de Deus na história, sua santidade, a relação particular que tem com Israel, o castigo reservado aos que não cumprem a Lei e a Aliança.

Quando falam ao povo a respeito da soberania absoluta de Deus, os profetas mostram que o Senhor não se põe num lugar privilegiado, numa espécie de panteão ao qual o povo deve dirigir-se para encontrá-Lo, mas que é soberano ao criar todas as coisas e que se dá a conhecer intervindo na história, mediante diversos sinais: um período de fome, uma seca prolongada, uma guerra, e em diversas batalhas dando a vitória ao povo. Desse modo, Deus se manifesta através de todos os acontecimentos humanos, chamando Israel de volta e fazendo-se companheiro de caminho do homem. Assim também Deus comunica todos os seus segredos ao povo por meio dos profetas, sobretudo Oseias (Os 11,1-4) e Amós (Am 3,3-8). No entanto, apesar dessa relação íntima estabelecida, Deus não é como o povo e por isso não pode ser tratado como mais um de seus integrantes, muito menos ser manipulado com sacrifícios. Deus é transcendente, é o Altíssimo, como bem dirá Isaías (Is 5,19-24).

A santidade do povo se alicerça precisamente na santidade de Deus e no dever moral que  lhe incumbe de agir distintamente às demais nações, mediante a observância dos elevados preceitos morais contidos na Lei. Tais preceitos e demais prescrições, refletem a sua condição de povo escolhido, nação santa, sacerdócio régio (Ex 19,2-6). O castigo é também parte da relação de Deus com o povo, pois se esse não cumpre as exigências inerentes à sua eleição, Deus não terá outra coisa a fazer senão castigá-lo, a fim de que se recupere. Dessa forma, Deus realiza a justa retribuição ao povo, dando-lhe o que lhe compete em razão de justiça, a fim de novamente recompor e restaurar a ordem na sua relação com Israel, bem como nas relações comunitárias do próprio povo. Na perspectiva do A.T., o momento culminante desse ordenamento (recapitulação) é o Dia do Senhor, Dia de Ira, como bem disseram Amós (Am 5,19) e Sofonias (Sf 1,7-18). A Aliança bíblica, muito superior aos pactos bilaterais da época, originada nos conflitos territoriais e supremacistas, nasce de uma iniciativa divina. É fruto da bondade de Deus (hesed = graça, amor que é base da fidelidade) e também da misericórdia divina, eterna e fiel, que incluem alguns compromissos irrenunciáveis. Assim, só Deus tem o direito de pedir contas quando esses compromissos são descumpridos, convocando o povo ao tribunal (Os 2,4; Mi 6,2). Os profetas anteriores e posteriores ao exílio fazem referência à tradição da Aliança nesse duplo aspecto: compromisso de amor e exigência moral.

O tema do messianismo, espinha dorsal de toda a pregação profética, trata da esperança na chegada do Messias. Os profetas situados antes do exílio, a partir da profecia de Natã (visto na edição da semana passada), mostram que a salvação chegará ao povo por meio do descendente de Davi – messianismo real. O método utilizado para transmitir essa ideia é retirar o foco dos monarcas, recusando-se a tratá-los como deuses, e destacar a sua condição de escolhidos do Senhor. Isaías (7,13-17), quem principalmente usa esse artifício, refere-se à realeza davídica, sem nunca mencionar os nomes dos reis, contudo destaca seus títulos grandiosos para glorificar as ações prodigiosas do Senhor, que age na vida daqueles que escolhe. Nos primeiros anos posteriores ao exílio, no entanto, se proclama que o próprio Deus trará a salvação, denominando-se messias a todo aquele que, em nome do Senhor, cumpra essa missão, mesmo sendo estrangeiro, como Ciro, rei persa. A salvação virá, sobretudo, através do nascimento de algum membro do povo. Nos profetas que vieram após o exílio, o juízo divino, atributo do Messias, já não se dará mais entre Israel e os demais povos, mas entre justos e injustos, dentro ou fora de Israel (Ml 3,13-21). Aqui se dá o início da espiritualização da figura do Messias, que encaixará perfeitamente com a imagem neotestamentária do Filho de Deus, sobretudo na perspectiva escatológica. Assim, os profetas apocalípticos enfatizarão o tema do Dia do Senhor mostrando, cada vez mais ao povo, que o Messias esperado não é meramente humano, mas divino, transcendente. No N.T. veremos Jesus assumindo todas essas características messiânicas: Filho do homem, descendente de Davi, Servo Sofredor, Juiz e Salvador do mundo!

A doutrina moral e social dos profetas fala das exigências pessoais, comunitárias e  litúrgicas, da fé de Israel, deixando a pessoa do profeta, muitas vezes, em posição bastante incômoda diante do povo. Desse modo, os profetas foram, na realidade, arautos da doutrina sobre a eleição e a Aliança, enfatizando as virtudes próprias daquele que recebeu como dom essa condição especial de membro do povo do Senhor. De modo particular, os profetas denunciaram a opressão ao povo, proclamando a predileção divina pelos pobres do Senhor, os “anawin”, o resto fiel, os justos e piedosos que tinham consciência de serem inteiramente necessitados da proteção divina. Os profetas fizeram um enorme esforço para que o povo interiorizasse os preceitos morais da Lei, exigindo um coração puro, para muito além das aparências, e insistindo na responsabilidade pessoal (Jr 31,29; Ez 18,1-4). As exigências do culto a Deus são também frequentes, enfatizando-se a necessidade de purificação e correção dos desvios de conduta, que se refletiam até na liturgia. Assim, os profetas denunciavam constantemente a hipocrisia do povo, que em muitos momentos cumpria seus deveres de modo meramente aparente, proclamando assim a necessidade da coerência entre culto e vida moral e social. Um povo que se aproxima do Senhor com sacrifícios e que louva a Deus na liturgia, não pode depois negá-lo em seus costumes injustos e depravados!

Queridos irmãos, contemplando essa conduta irrepreensível daqueles que nos antecederam, façamos essa semana um bom exame de consciência, contrastando o nosso comportamento na liturgia com aquilo que decidimos viver, a fim de sermos novamente conduzidos pelo Espírito ao caminho da misericórdia, sempre disposta a nos acolher, curar e reintegrar.

Sagrado Coração de Jesus, nós temos confiança em Vós!

Coração Imaculado de Maria, sede a nossa força e alegria!



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