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04 de Julho de 2020

Ainda mais Felliniano

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14/06/2020 13:53
Por: Redação

Ainda mais Felliniano 0

Nesta quarentena, iniciamos essa série de artigos sobre cinema, como uma alternativa para aproveitar esse tempo excepcional. Aproveitando o ano de centenário de nascimento de Federico Fellini, iniciamos fazendo um apanhado geral da obra desse mestre do cinema italiano, que gostaria de dar prosseguimento no presente.

Falamos um pouco do cinema de Fellini até a sua grande virada em 1960, como o lançamento de “A doce vida”. Creio que o leitor deve ter se questionado a respeito do que sucedeu na filmografia do diretor após esse estrondoso sucesso, assim como era a expectativa à época.

Após o lançamento de “A doce vida” e de tantas premiações que o seguiram, inclusive a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a crítica especializada e o público esperavam algo que sucedesse na mesma medida que “A doce vida” havia surpreendido. Fellini se vê, então, diante da grande responsabilidade que lhe pesava, contemplando o abismo que todo autor teme experimentar: a crise criativa.

E é a partir desse abismo, que Fellini irá iniciar um de seus trabalhos mais ousados, um filme extremamente autobiográfico e mais do que isso, metalinguístico .Em 1963, Fellini brinda o mundo com "8 ½" . O estranhamento já inicia pelo título da obra, que já demonstrava sua íntima relação com a biografia do diretor. Acontece que àquela altura Fellini havia dirigido até então sete longas e um curta-metragem.

Fellini estava às voltas com os produtores, sem saber ao certo que rumo tomar com seu projeto, até que encontrou na crise a receita para o bom andamento do filme. Criar um filme que fala sobre o processo de criação de um filme talvez seja o maior uso da metalinguagem na história do cinema. Fellini retoma sua parceria com Marcello Mastroianni para novamente interpretar seu alter ego. Dessa vez ele interpreta Guido, um diretor em meio a uma crise criativa que busca refugiar-se em um hotel de fontes medicinais para escapar da pressão dos produtores, contudo, sem sucesso.

A narrativa continua na mesma linha de “A doce vida”, contando com episódios que não necessariamente possuem uma conexão lógica e cronológica com as cenas subsequentes, mas dessa vez com um agravante que são as cenas que revelam o subconsciente do personagem, fator que nos leva a vislumbrar melhor suas crises e motivações.

O sonho é um dos grandes personagens do filme. O expectador desde a primeira cena é imerso dentro desta realidade, já que Fellini acreditava que o processo de criação nascia justamente do sonho, da investigação do subconsciente. Fellini era paciente de psicanálise. Desde 1960, ele começou a buscar inspiração para suas obras através da investigação dos sonhos.

Outro elemento relevante na película é a figura da mulher; uma mulher italiana, idealizada, mitificada. Destaque para a cena do harém, que muito “pedagogicamente” demonstra a expectativa do homem sobre esta mulher felliniana, ideia que será desenvolvida mais tarde em outro filme ("Cidade das Mulheres"), já na década de 1980.

Nós somos imersos na agonia do personagem, em toda sua complexidade, vivendo em uma atmosfera claustrofóbica, desde a primeira cena do engarrafamento, na qual o protagonista passa por um sufocamento dentro de um carro fechado, até que finalmente consegue alçar voo e é simbolicamente puxado por aqueles que o cercam. Fellini não poupa críticas aos pseudointelectuais que desmereciam sua obra, procurando um sentido concreto em tudo; cada imagem, cada alegoria, que como o próprio diretor costumava dizer, derivavam de “nossa herança realista sem criatividade”.

Fellini não se preocupava em dar um sentido concreto para cada milímetro de sua obra, não, pelo contrário ele esperava que a obra se completasse no próprio espectador. Ele não era rigorista nem mesmo com suas memórias. Em mais de uma ocasião ele afirmou o seu descompromisso com o passado, por não saber distinguir o que era recordação e o que era imaginação, criação.

Em 1973, Fellini irá aprofundar ainda mais na memória ao apresentar “Amarcord”. O diretor nos introduz em uma Rimini (sua cidade natal), não muito comprometida com a realidade do pós-guerra, nem mesmo com a Rimini literal da infância do jovem Federico. Fellini não está preocupado em reconstituir suas memórias, mas sim aliá-las aos sonhos.

O filme nos apresenta uma narrativa ainda mais inovadora, somos inseridos em uma espécie de lembrança infantil, um conto narrado por uma criança, sem muita linearidade ou preocupação cronológica de nenhuma espécie.

Os personagens são todos caricatos, o exagero é elevado à enésima potência, mas de certo modo é mais condutível que seus filmes anteriores. Nós conseguimos nos localizar naqueles retalhos infantis, talvez porque o diretor nos introduza de algum modo em memórias universais que acabam por fazer brotar uma afeição natural e orgânica ao longo da película. A família, a descoberta da sexualidade, o cenário político do fascismo que aparece como um tenebroso fantasma ao fundo, tudo nos remete à experiência da constituição da identidade, que é universal, pois não se atém a concretude dos fatos, mas ao sonho.

Talvez seja esta a marca desse segundo período da filmografia de Fellini: a construção de uma obra que encontra espaço em um subconsciente comum e universal. É a hegemonia do sonho sobre um realismo castrador e desalmado.

Bibliografia
Fellini, F. Fazer um filme. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000


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