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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/08/2020

06 de Agosto de 2020

O amor divino por nós, chama eterna, amor mais forte que a morte

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06 de Agosto de 2020

O amor divino por nós, chama eterna, amor mais forte que a morte

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22/05/2020 13:11
Por: Redação

O amor divino por nós, chama eterna, amor mais forte que a morte 0

Caríssimos irmãos, aproximando-nos do Dia de Pentecostes e da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, refletimos hoje sobre uma das mais belas obras da poesia bíblica, que falam em profundidade do amor de Deus por cada um de nós. "Cântico dos Cânticos", que significa literalmente cântico por excelência, era originalmente chamada de "Cântico dos Cânticos de Salomão". A obra foi atribuída pela tradição ao Rei Salomão (971-931 a.C.,), que aparece no livro como um dos personagens principais (o amado), de quem se fala em terceira pessoa, segundo consta nos antigos manuscritos gregos. A tradição de Israel tinha Salomão como um grande ícone de sabedoria, razão pela qual lhe foram atribuídos, num primeiro momento, também os livros dos Provérbios, do Eclesiastes e da Sabedoria. Segundo o livro dos Reis (cfr. 1Rs 5,12), Salomão teria pronunciado três mil provérbios ou parábolas e seus cânticos foram cinco mil – mil e cinco, segundo alguns exegetas.

No estudo sistemático da Bíblia, o Cântico costuma ser estudado junto com os Livros Sapienciais, didaticamente reunidos em um bloco chamado Escritos Poéticos e Sapienciais. Segundo os investigadores da Bíblia, assim como temos um único coração para amar a Deus e ao próximo, temos também uma única linguagem para expressar o amor humano e o divino. Essa linguagem no Cântico se fez Palavra de Deus. Desse modo, apesar do gênero literário ser o lírico, e não tratar dos temas mais comuns do A.T., como a Lei, a Aliança, a promessa e a salvação, o livro nos dá uma grande lição de sabedoria, ao falar do amor divino pelo homem. Em concreto, o "Livro dos Cânticos" recolhe uma série de poesias de amor muito comuns à tradição de Israel, utilizadas nas festas nupciais, e, posteriormente, compiladas por um redator final, dando assim origem ao livro. Na Bíblia hebraica, o livro forma parte do que chamamos megil-lot (os 5 rolos de festas), no qual encontramos Rute, Eclesiastes, Lamentações e Ester, escritos usados nas festividades especiais de Israel, sobretudo na Noite Pascal. A hipótese mais provável é que o livro tenha sido composto entre o final da época persa e o início da grega, entre os anos 350 e 332 a.C., devido às palavras encontradas no texto.

As imagens utilizadas pelo autor de Cânticos são muito semelhantes às usadas pelos profetas de Israel ao se referirem ao amor de Deus pelo Seu povo, favorecendo assim a interpretação mais original do livro. Graças a essa interpretação alegórica ou espiritual, o amor entre Deus e Israel, ressaltado na época da restauração do povo (fim do exílio), o livro foi recebido na tradição de Israel como escrito inspirado, passando a fazer parte da coleção de livros sagrados. Em sentido literal, fala do amor entre um homem e uma mulher, e suas poesias de amor parecem refletir a situação de um casal, ora de namorados, ora de noivos, que culmina no matrimônio. Por meio dele, aprendemos um autêntico caminho de aprofundamento na relação entre Cristo e a Igreja, e mais intimamente entre o próprio Deus e cada um de nós. Assim, o Livro é capaz de falar do amor divino e do amor humano, do amor de Deus por Israel e de Cristo por sua Igreja, do amor divino por cada um de nós e do amor matrimonial, vocação divina para muitos de nós, beleza e dignidade do amor, segundo o plano de Deus.

Os poemas de Cânticos retratam o amor de um jovem (o amado, Salomão) por uma moça (a amada), talvez a sunamita, mencionada em 1Rs 1,3; 2,11-22, que cuidou do rei Davi na velhice e, em seguida, foi recebida no harém de Salomão. Neles, inicialmente a amada sai em busca do amado, encontrando-o e cantando com ele a beleza e a singularidade um do outro. No fim da primeira parte (1,5–2,7), tudo termina em quietude, fruto da união amorosa autêntica, expressa na súplica, que pede para que não se desperte o amor. Em seguida (2,8–3,5), no contexto da primavera, os amantes celebram o seu amor durante o dia, em comunhão com a natureza e, à noite, na busca mútua e no respectivo encontro. Na terceira parte do livro (3,6–5,1) descreve-se o dia do casamento do Rei Salomão, que se inicia pela apresentação dos noivos e termina com a união conjugal e o convite dos amigos do Esposo para o banquete. Na quarta parte (5,2–6,3), a amada canta novamente a singularidade do amado, concluindo-se com uma declaração de mútua pertença entre eles: “eu sou do meu amado e ele é meu”. Por fim (6,4–8,4), o amado toma a palavra para declarar o quanto a sua amada lhe é especial, manifestando que sua beleza lhe desperta o anseio por permanecer para sempre ao seu lado. Esse trecho é concluído, tal como o primeiro, pedindo que o amor não seja despertado. Nos últimos dois versículos do livro, canta-se ao amor, que é mais forte que a morte (Ef 5,31ss – ’ahab, em hebraico, agapao, em grego), uma chama que ninguém pode apagar. O traço mais característico do amado é a fidelidade, que se deixa conquistar pela amada ao final do poema. A amada, reconhecendo suas fraquezas, conserva, desse modo, toda a sua formosura.

Esse amor esponsal expresso no Livro dos Cânticos, verdadeiro hino ao amortrazido a nós pela Revelação, serviu como comentário aos relatos da criação do Gênesis, onde se mostra a respectiva atração humana, posta por Deus, antes da experiência do pecado (cfr. Gn 1,26ss; 2,18ss). Assim, nessa perspectiva de compreensão do amor humano, pode-se falar, com propriedade e por analogia, do amor de Deus, tal como mostram os profetas Oseias (2,16), Isaías (62,4) e Jeremias (31,1-34). Nessas cenas vemos a ansiedade da busca da amada e a felicidade do seu encontro com o amado, e o quanto essa busca lhe acarreta inúmeras provações, até chegar a definitiva comunhão com ele. A Tradição sempre interpretou a passagem evangélica dos convidados ao banquete de casamento (Mt 22,1-14), bem como a parábola das dez virgens (Mt 25,1-13), na perspectiva de Cânticos, mostrando-nos, assim, a expectativa messiânica subjacente à imagem esponsal trazida pelo livro. O próprio Jesus se compara ao Esposo (Mt 9,15; Jo 3,28), cuja presença entre os homens é motivo de alegria e de celebração (Ct 5,1). Essa imagem do Povo como Esposa (Israel, Igreja) e do Pai, ou do próprio Cristo como Esposo, também aparece no Apocalipse (3,20; 19,7).

Amados irmãos, esse amor de Deus plasmado tão fortemente na tradição de Israel e na vida da Igreja mais uma vez virá aos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos será dado dentro de poucos dias. Preparemos nossa casa interior, como a amada do Cântico, e saiamos em busca desse amado de nossas almas, o Senhor Jesus, acolhendo Dele o Doce Hóspede, o Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho. Peçamos também a Virgem Maria, aqu'Ela que foi plenamente amada pelo Espírito, que nos dê coragem para não esmorecermos no caminho da cruz, trajetória de autêntica busca pelo Amado (Jesus), a fim de que, no encontro definitivo com Ele, na hora de nossa morte ou de Sua segunda vinda, estejamos como as virgens previdentes, com as lâmpadas acesas e os corações vigilantes e inflamados.

Padre Igor Antônio Calgaro
Vigário paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Botafogo
'Pensando direito'
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