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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 30/10/2020

30 de Outubro de 2020

A economia globalizada e a atual crise (II)

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30 de Outubro de 2020

A economia globalizada e a atual crise (II)

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22/05/2020 13:05
Por: Redação

A economia globalizada e a atual crise (II) 0

Se o grande desenvolvimento econômico e social do século passado, certamente com os seus aspectos positivos e negativos, é fruto do processo de globalização, é também efeito do desenvolvimento constante da técnica e, nas décadas mais recentes, aos progressos da informática e às suas aplicações na economia e nas finanças.

Para compreender melhor a atual questão social é necessário evitar considerar que os problemas a serem enfrentados são de tipo exclusivamente técnico. Pois se assim fossem, eles poderiam evitar uma avaliação de ordem ética. Pois bem, a encíclica "Caritas in Veritate" de Bento XVI adverte contra os perigos da ideologia da tecnocracia, isto é, daquela absolutização da técnica, que tende a produzir uma incapacidade de perceber aquilo que não se explica meramente pela matéria (Caritas in Veritate, 77), e a minimizar o valor das escolhas individuais, reduzindo-as a meras variantes técnicas.

Mas, a relevância dos fatores éticos e culturais não pode ser descuidada ou subestimada. A crise constitui uma verdadeira ameaça à própria democracia, haja vista os comportamentos desordenados por ela revelados, tais como: egoísmo, avidez coletiva, apropriação de bens em grande escala etc. Não podemos nos conformar com aquela velha concepção de Hobbes, segundo a qual "o homem é um lobo para outro homem". De modo que ninguém, em sã consciência, pode aceitar o desenvolvimento de alguns países em prejuízo de outros. Sendo assim, é mister solucionar urgentemente as várias formas de injustiça, caso contrário os efeitos negativos que dela derivam nos planos social, político e econômico gerarão um clima de crescente hostilidade e até de violência, a ponto de minar as próprias bases das instituições democráticas, até daquelas consideradas mais sólidas.

O ter não pode de maneira alguma se sobrepor ao ser, nem a economia sobre a ética. A primazia do ser sobre o ter e da ética sobre a economia deve levar a comunidade humana a uma ética da solidariedade. É o que defende a própria Doutrina Social da Igreja, pois tal ética da solidariedade associada à dinâmica do bem comum tende a abandonar todas as formas de egoísmo e a transcender o mero interesse contingente e particular. Em ultima análise, deveriam manter vivo o sentido de pertença à família humana, em nome da dignidade comum de todos os seres humanos: "Ainda antes da lógica da comercialização dos valores equivalentes e das formas de justiça, que lhe são próprias, existe algo que é devido ao homem porque é homem, com base na sua dignidade eminente" (João Paulo II, Carta CentesimusAnnus, 34).

Entretanto, já em 1991, depois da falência do coletivismo marxista, São João Paulo II tinha advertido contra o risco de uma idolatria do mercado, que ignora a existência de valores que, por sua natureza, não podem ser compreendidos como mera mercadoria (CentesimusAnnus, 40). Assim, mais do que nunca hoje urge o acolhimento sem hesitação da advertência do Santo Padre, percorrendo um caminho mais em sintonia com a dignidade e com a vocação transcendente da pessoa e da família humana.

Mesmo sob muitas críticas de diversos setores, a Igreja é consciente de seu papel e comprometimento para com os mais pobres, precisamente com aqueles que mais sofrem com a atual crise financeira. De modo que a Igreja quer não somente fazer análises de conjunturas e críticas ao atual sistema financeiro mundial, mas quer contribuir ativamente na busca de soluções duradouras para a atual crise que a todos tanto castiga.

Os próprios documentos pontifícios de cunho social são expressões proféticas da solicitude da Igreja e de sua preocupação com bilhões de pessoas vítimas das constantes crises que têm açoitado os mais pobres nas últimas décadas, mas que também têm pesado nos ombros das economias mais consistentes. Neste sentido, quer a Igreja contribuir com soluções verdadeiramente comprometidas com o bem comum.

Um sistema financeiro e monetário que faça concessões de natureza ética em nome de um “progresso” sempre mais dominado pelo utilitarismo e materialismo tende a ruir e comprometer todas as instituições que em algum grau estejam envolvidas com o mesmo sistema. Com efeito, a Igreja e a própria teologia têm por compromisso, como parte integrante de sua missão, contribuir para com a verdade, mesmo em matéria econômica, haja vista as suas incidências sociais. Há ainda que se considerar que a complexidade do assunto exige a colaboração de diversos saberes, entre os quais a teologia moral, que aí desponta como luz indispensável no tratamento da crise econômica.

Bento XVI nos recorda que são indispensáveis agentes em todos os níveis – social, político, econômico, profissional – movidos pela coragem de servir e promover o bem comum mediante uma vida boa (Caritas in Veritate, 71). Somente eles conseguirão viver e perceber além das aparências das coisas, compreendendo a diferença que há entre o real existente e o possível nunca experimentado. De modo que não podemos temer novas experiências e novas propostas, mesmo que estas possam desestabilizar equilíbrios de forças preexistentes que dominam os mais fracos.

Paulo VI ressaltou a força revolucionária da “imaginação perspética”, capaz de perceber no tempo presente as possibilidades nele inscritas, e de orientar os homens para um futuro novo. Ao libertar a imaginação, o ser humano liberta a sua existência. Partindo de um compromisso de imaginação comunitária é possível transformar não só as instituições, mas também os estilos de vida, e suscitar um futuro melhor para todos os povos (OctagesimaAdveniens, 37).

Com o passar do tempo, os Estados modernos tornaram-se conjuntos estruturados, concentrando a soberania do próprio território. E as condições sociais, culturais e políticas também mudaram progressivamente. Cresceu a sua interdependência, de modo que se tornou natural pensar numa comunidade internacional integrada e regida cada vez mais por um ordenamento partilhado. Mas não desapareceu uma forma inferior de nacionalismo, segundo a qual o Estado considera poder obter de modo autárquico o bem dos seus cidadãos. Hoje, tudo isto parece uma forma irreal e anacrônica. Atualmente, todas as nações, pequenas ou grandes, juntamente com os seus governos, estão sendo chamadas a superar aquela compreensão que vê os Estados em perene luta entre eles.

Por fim, não podemos deixar de admitir que apesar dos seus aspectos negativos, a globalização está a unificar cada vez mais os povos, solicitando-os a orientar-se para um novo “estado de direito” em nível supranacional, apoiado por uma colaboração mais intensa e fecunda. Com uma dinâmica análoga à que no passado pôs fim à luta entre clãs e reinos rivais; em vista das constituições de Estados nacionais, a Humanidade deve, hoje, comprometer-se na transição de uma situação de lutas arcaicas entre entidades nacionais, para um modelo de sociedade internacional mais concorde, poliárquico, respeitador das identidades de cada povo, dentro daquela grande riqueza de uma única Humanidade ou única família humana. Tal passagem, aliás, já timidamente em ato, garantiria aos cidadãos de todos os países, seja qual for a sua dimensão ou força, paz, segurança, desenvolvimento, mercados livres, estáveis e transparentes. Como no âmbito dos Estados individuais, o sistema da vingança privada e da represália foi substituído pelo império da lei. João Paulo II recorda que agora é urgente que semelhante progresso se realize na comunidade internacional (CentesimusAnnus, 52). Aí os cristãos são chamados a comprometerem-se com firme decisão e generosidade para que as múltiplas forças em ato se orientem para uma perspectiva de fraternidade e de bem comum. Trata-se de uma missão ao mesmo tempo social e espiritual, na medida em que pode contribuir para ordenar melhor a sociedade humana e é de grande importância para o reino de Deus (cf. GaudiumetSpes, 39).

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


 
 
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