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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/06/2020

06 de Junho de 2020

A economia globalizada e a atual crise

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06 de Junho de 2020

A economia globalizada e a atual crise

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15/05/2020 02:19
Por: Redação

A economia globalizada e a atual crise 0

Na Carta Encíclica "Populorum Progressio" do Papa Paulo VI, o Pontífice afirma o seguinte: “A situação atual do mundo exige uma ação de conjunto a partir de uma visão clara de todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e espirituais. Perita em Humanidade, a Igreja, sem pretender de modo algum ingerir nas políticas dos Estados, tem apenas um fim em vista: continuar, sob o impulso do Espírito consolador, a obra própria de Cristo, vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar, não para condenar, para servir, não para ser servido” ("Populorum Progressio" 13).

Assim, já em 1967, o Pontífice expressava sua preocupação com os rumos da economia globalizada, e apontava como solução para a já presente crise uma ação conjunta de todas as forças que atuam no cenário mundial em vista da promoção da dignidade humana e do bem comum.

Devemos ser concordes de que a crise econômica e financeira que hoje atravessa o mundo globalizado, agora agravada pela pandemia da covid-19, envolve toda a Humanidade, e chama a atenção para um profundo discernimento dos princípios e valores culturais e morais que estão na base da convivência social. De modo que a crise interpela os agentes privados e as autoridades públicas competentes nos planos nacional, regional e internacional, numa séria reflexão sobre as causas e soluções de natureza política, econômica e técnica.

Neste sentido, a crise, nas palavras do Papa Bento XVI em "Caritas in Veritate", “obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas, a encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e de nova projeção. Com esta chave, mais confiante que resignada, convém enfrentar as dificuldades da hora atual” ("Caritas in Veritate" 21). Desta maneira, o Pontífice Emérito adverte para aquilo que é consenso entre todos: a urgência de se inaugurar uma nova era na atividade econômica do planeta, mas que esta seja sustentável e pautada na responsabilidade de todos os agentes econômicos, sociais, políticos e culturais.

Mas, que contribuições a Igreja e a própria teologia podem oferecer para a reforma ou até mesmo construção de um novo sistema financeiro que seja efetivamente globalizado, sustentável e justo para todos? Penso que mesmo que a Igreja e a teologia não sejam capazes de propor caminhos precisos e bem definidos para a referida reforma, ambas podem, sem nenhuma sombra de dúvida, oferecer uma profunda reflexão que constitua séria contribuição para todos os homens e mulheres de boa vontade que de maneira comprometida se empenham na busca do bem comum. Todavia, tal reflexão deve encontrar seu sentido e fundamento na preocupação pelos povos que mais padecem com a situação contemporânea.

Assim, é missão da Igreja se empenhar pela unidade de todos os povos, e chamá-los a responder aos apelos mais urgentes de nosso tempo para que o Reino de Deus cresça em nosso meio.

A presente pandemia acentua as desigualdades já provocadas pelo próprio desenvolvimento econômico, partindo das possíveis causas da grave crise econômica e financeira que o mundo hoje atravessa. Contudo, muitas são as opiniões a respeito da multiplicidade e importância destas mesmas causas: alguns destacam os erros nas políticas econômicas e financeiras, outros insistem sobre as debilidades estruturais das instituições políticas, econômicas e financeiras, outros ainda atribuem desvios de ordem ética ocorridos em todos os níveis, no contexto de uma economia mundial cada vez mais dominada pelo utilitarismo e pelo materialismo. Mas, o fato é que nos diversos estágios de desenvolvimento da crise há sempre uma combinação de erros técnicos e de responsabilidades morais.

No caso de intercâmbios de bens materiais e de serviços, são a natureza, a capacidade produtiva e o trabalho em todas as suas múltiplas formas que põem um limite às quantidades, determinando um conjunto de custos e de preços que permite, sob determinadas condições, uma distribuição eficiente dos recursos disponíveis. Contudo, em matéria monetária e financeira, as dinâmicas já são diferentes. Pois, nas últimas décadas, foram os bancos que ampliaram o crédito, o qual gerou moeda, que por sua vez exigiu uma maior ampliação do crédito. Assim, o sistema econômico desencadeou uma crescente inflação, que por sua vez encontrou limites no risco sustentável para os institutos de crédito, submetidos a um gradativo risco de falência, com consequências negativas para todo o sistema econômico financeiro globalizado.

A partir do pós-guerra as economias nacionais progrediram, malgrado o sacrifício de bilhões de pessoas que depositaram sua confiança com o fruto de seu trabalho, produção e economia, em um progressivo e regular desenvolvimento da moeda e das finanças, em sintonia com as potencialidades de crescimento real da economia. Assim, em 1967 os riscos de um estado de desenvolvimento econômico, concebido em termos neoliberais, foram denunciados pelo Papa Paulo VI na profética "Populorum Progressio", por conta das consequências trágicas sobre os equilíbrios mundiais e sobre a própria paz. O Sumo Pontífice indicou como condições indispensáveis para a um desenvolvimento efetivo a defesa da vida e a promoção cultural e moral das pessoas. A partir destes fundamentos Paulo VI afirmava que “paz” é o novo nome do desenvolvimento pleno do planeta ("Populorum Progressio", 76).

Hoje é por todos reconhecida a estreita ligação que há entre um processo de globalização não adequadamente governado e as acentuadas desigualdades em nível mundial. A mídia torna evidente a todos os povos, ricos e pobres, as desigualdades econômicas, sociais e culturais, vigentes em âmbito global, causando tensões e gerando grandes movimentos migratórios.

Contudo, devemos ser suficientemente sensatos e lúcidos para admitir que o processo de globalização, com os seus aspectos positivos, está na base do grande desenvolvimento da economia mundial do século XX. De modo que não se pode deixar de reconhecer que mesmo com o vultoso aumento da população mundial verificado no século passado, a renda per capita também aumentou em grande medida precisamente por causa do grande aumento da riqueza produzida em nível mundial. Entretanto, há que se recordar que a despeito desta informação animadora, não se verificou o aumento da distribuição equitativa da riqueza, mas ao contrário, em muitos casos ela diminuiu. E assim, toda esta situação fez por empurrar o mundo para o problema da paz.

Hoje, além da ideologia do liberalismo econômico, há também ideologia utilitarista, ou seja, aquele delineamento teórico-prático segundo o qual “o útil pessoal conduz ao bem da comunidade”. Tal pensamento até possui elementos de verdade, porém não se pode ignorar que nem sempre o útil individual, embora seja legítimo, favorece o bem comum. Em diversos casos é necessário um espírito de solidariedade que transcenda o útil pessoal, para o bem da comunidade. Sendo assim, a crise na qual o mundo ainda se encontra mergulhado seria de fato efeito destas ideologias.

Na Carta Encíclica "Caritas in Veritate" Bento XVI identificou de maneira específica a raiz de uma crise, que não é unicamente de natureza econômica e financeira, mas antes de tudo de natureza moral e ideológica. O Pontífice Emérito observa que a economia tem necessidade da ética para o seu funcionamento correto, e não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa ("Caritas in Veritate", 45). Além disso, ele denuncia o papel desempenhado pelo utilitarismo e pelo individualismo, assim como as responsabilidades daqueles que os assumiram e difundiram como parâmetro para o comportamento exemplar daqueles agentes econômicos e políticos que agem e interagem no contexto social. Mas o Santo Padre identifica e denuncia também uma nova ideologia, a ideologia da tecnocracia, a qual abordaremos no próximo editorial.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


 
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