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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/06/2020

06 de Junho de 2020

A Sabedoria convertida em justiça que conduz à vida eterna

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06 de Junho de 2020

A Sabedoria convertida em justiça que conduz à vida eterna

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15/05/2020 02:12
Por: Redação

A Sabedoria convertida em justiça que conduz à vida eterna 0

Amados irmãos, finalizando neste artigo a sequência de ensinamentos sobre os livros sapienciais da Escritura, mergulhamos hoje no Livro da Sabedoria, que tem muito a nos dizer. O Livro da Sabedoria, conhecido nas Igrejas Orientais Católicas como Sabedoria de Salomão, não se encontra na Bíblia hebraica, por ter sido escrito em grego comum, idioma próprio da alta sociedade que habitava o baixo Egito helenizado, depois da conquista de Alexandre Magno. Na Igreja latina foi recebido e utilizado, desde o início da recepção da tradução grega da Bíblia, como um livro inspirado. Tendo sua autenticidade confirmada pelos Concílios de Trento (1546) e Vaticano I (1870), chegou-nos por intermédio dos judeus dispersos pelo mundo (diáspora). O livro defende a fé de Israel no Deus único, sinalizando a tamanha insensatez da idolatria, condenada juntamente com o ateísmo e evidenciada pela atuação dos egípcios contra os israelitas (cfr. Sb 17,1-20). Sua composição é situada depois do ano 200 a.C, mais provavelmente na segunda metade do século I a.C., e antes do início da redação das Cartas de São Paulo, que parece conhecê-lo pela menção feita em Rm 1,8-32. 

O ambiente cultural é o do Helenismo, momento em que a cultura grega exerceu forte atração sob Israel, constituindo-se um perigo para a identidade e a fidelidade do povo, que tinha se estabelecido em Alexandria e se sentia dividido entre a tradição dos antepassados e a nova cultura vigente, a qual não podia ignorar. Por essa razão, o Livro da Sabedoria vem reafirmar os valores fundamentais do legado religioso de Israel, aproveitando, com senso crítico acurado e à luz da fé, as contribuições da filosofia grega, evitando-se, assim, todo o erro do sincretismo. Na refutação que faz da idolatria, o autor critica as diversas filosofias gregas que cultuam as forças da natureza e os astros, muito próprias das religiões mistéricas antigas e das mitologias poéticas, e comuns aos cananeus, egípcios, mesopotâmios, babilônios e assírios. Com esse método todo peculiar, o autor do livro elogia a sabedoria de modo similar aos filósofos, mas com uma finalidade claramente religiosa, situando-a na profunda fé ao Deus único do A.T. Dessa forma, a sabedoria é mostrada não só como virtude (perspectiva grega), mas como atributo divino, propondo-se, além disso, a uma valorização da história humana como história de salvação, ao contar-se a trajetória de Israel e sua relação com os demais povos. Enquanto o Eclesiástico defende a tradição judaica frente ao Helenismo, Sabedoria, expressando-se com uma linguagem mais acessível aos gregos, valoriza as aquisições da filosofia do seu tempo e procura falar aos judeus alexandrinos, de modo a que compreendam e valorizem mais a lei judaica outrora recebida que o pensamento grego que acabam de conhecer. Assim, o livro consegue fazer uma verdadeira teologia da história, que para além de recordar acontecimentos, ensina a reler o passado, extraindo dele aplicações práticas para o aqui e agora da vida cotidiana (cfr. Sb 10,–19,22). Atribuído originalmente ao Rei Salomão, dado a seu prestígio como rei e por sua aparente locução no Capítulo 9, versículos de 7-8 e 12, atualmente a obra é atribuída a um Pseudo-Salomão, autor desconhecido que seguia o estilo do rei sábio, alguém em confronto aberto com a cultura politeísta. Assim sendo, o autor muito provavelmente é um judeu da diáspora que fixou morada no Egito, um grande conhecedor da cultura grega; homem formado na tradição de Israel e que, portanto, interpreta o Êxodo como intervenção poderosa de Deus e castigo aos idólatras, sendo capaz de traduzir tudo isso na linguagem da cultura grega, sem perder o contato com a tradição sapiencial de Israel. O Pseudo-Salomão pede a Deus sabedoria, recordando a história do povo escolhido, aqui interpretada como história sagrada na qual se manifesta a sabedoria de divina (cfr. Sb 7,7; 10).

Desde o início da obra, mostra-se a distinção entre corpo e alma e a imortalidade do homem criado à imagem divina, enfatizando-se, assim, o destino distinto reservado a justos e a injustos, a ser definido num juízo após a morte (cfr. Sb 2,23; 4,20). Sua estrutura se divide em três partes: a primeira intitulada “A sabedoria conduz à imortalidade” (1,1–6,21) trata da vida humana na perspectiva do fim dos tempos e do juízo final, expondo o equívoco do modo de pensar pagão, mostrando-se o distinto final reservado aos ímpios na hora da morte, momento em que reconhecerão o seu erro e serão castigados (Sb 5,1-23). A segunda parte ensina aos reis o modo de alcançar a sabedoria (6,22–9,18). Mostra-se aqui o Rei Salomão implorando a sabedoria divina, compreendida e amada por ele como um dom. A terceira parte do livro, “Sabedoria atuante na história: Israel e Egito” (Sb 10,1–19,22), desenvolve uma ampla visão da providência divina e das ações salvíficas na história do povo eleito. Critica-se os filósofos e sua idolatria, descrevendo-se o castigo infligido aos egípcios opressores do povo e a ação prodigiosa de Deus na Noite Pascal, bem como na caminhada pelo deserto. O livro é concluído com o reconhecimento dos benefícios divinos a Israel (19,22).

No conjunto do A.T., a obra nos ensina que a sabedoria leva o homem ao reconhecimento de Deus e a uma relação de obediência com Ele – eis o que significa a justiça que leva à imortalidade! O autor se dirige primeiramente aos governantes da Terra, exortando-lhes a amar e a buscar a justiça, que é identificação com a vontade de Deus. Para que isso seja possível é preciso que a Sabedoria atue no homem, ela que é como um sopro, um espírito (pneuma, ruaj), uma força que ama o ser humano e que o penetra, quando se dispõe a ser guiado. Esse amor da Sabedoria ao homem é chamado nos profetas amor materno de Deus para com o Seu povo (cfr. Is 49,15). Desse modo, quando o homem mantém a sua relação com Deus – justiça – ainda que sofra a morte do corpo gozará da imortalidade da alma, pois a justiça é imortal (cfr. Sb 1,15). Nesse trecho do livro chega-se ao ponto culminante da personificação da sabedoria, mostrando-a como um espírito que emana da própria essência divina e pode ser comparado ao próprio Deus (Sb 7,22). Mostra-se ainda sua participação na obra da criação e no governo providente do mundo, além de seu trabalho no íntimo do coração do homem. À luz do N.T., o Livro da Sabedoria nos mostra Jesus como o Verbo, a Palavra, a Sabedoria de Deus encarnada, evidenciando-se todos os pontos de semelhança entre à sabedoria do A.T. e a atividade terrena de Jesus, bem como Sua preexistência ao mundo criado e o cume da atuação da sabedoria na história humana, em Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Amados irmãos, tendo recebido abundantemente a visita íntima da Sabedoria divina nos sacramentos recebidos, deixemo-nos guiar por Ela, a força divina que em Cristo mostrou o seu rosto de ternura e misericórdia. Assim, vivendo a justiça para com Deus – adoração e obediência – seremos capazes de trilhar o caminho da vida, caminho de cruz e ressurreição, e chegar um dia à vida eterna.

Padre Igor Antônio Calgaro
Vigário paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Botafogo
'Pensando direito'


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