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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

Na pandemia, lancemo-nos à Palavra

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31 de Outubro de 2020

Na pandemia, lancemo-nos à Palavra

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10/05/2020 00:00
Por: Redação

Na pandemia, lancemo-nos à Palavra 0

O novo coronavírus nos colocou em situação de isolamento social, alterando nossa rotina e privando-nos de muitas realidades fundamentais que conferem sentido à vida, como é o caso, de modo muito particular, das práticas religiosas, reconhecidas, recentemente, pelo Governo Federal como serviço essencial, conforme Decreto nº 10.329, de 28 de abril deste ano 2020. Mas, a despeito desta classificação por parte do Governo Federal, nós, no Rio, continuamos com as portas dos nossos templos fechadas. Pois, aqui há um decreto do Governo Estadual, do dia 13/03/2020, que proíbe aglomerações. A isto se soma a recomendação feita pelo Ministério Público Estadual à Arquidiocese do Rio no dia 20/03/2020 para o imediato fechamento de suas igrejas e imediata suspensão das atividades presenciais para os fiéis, enquanto durar o estado de emergência na Saúde Pública do Rio de Janeiro. De modo que, diante do conflito entre as resoluções do Governo Federal e governos estaduais, decidiu o STF que resoluções pertinentes à abertura ou fechamento de estabelecimentos que por sua natureza causem aglomerações, são de competência dos governos estaduais. Sendo assim, aqui continuamos com as nossas igrejas fechadas, como ocorre em vários outros países que mais sofrem com a pandemia da Covid-19. Até mesmo porque é ensinamento bíblico que “cada um se submeta às autoridades constituídas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as autoridades que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm, 13,1). E isto o próprio Senhor nos aponta no Evangelho quando responde a Pilatos: “Não terias poder algum sobre Mim, se do alto não te fosse dado” (Jo 19,11). 

Porém, há alguns que não compreendem a gravidade do momento. Tenho visto certo movimento de iniciativa laical dirigido ao episcopado e intitulado “Devolvam-nos a Missa”. É evidente que ficar impedido de ir à igreja, de receber os sacramentos e ver nossos templos fechados nos causa uma dor dilacerante e quase insuportável. Mas, é preciso ser minimamente razoável. Vivemos uma das mais graves crises, senão a mais grave, dos últimos cem anos. Já está mais do que esclarecido que a suspensão das atividades presenciais em nossas igrejas, e não somente em nossas igrejas, não se trata de decisão arbitrária dos bispos diocesanos, mas sim de um imperativo, inclusive por parte das autoridades civis, dada a gravidade do momento. O raciocínio é fácil: nossas atividades paroquiais, principalmente as missas, mas também reuniões, encontros de catequese etc, são atividades de aglomeração; o coronavírus, causador da Covid-19, é facilmente transmitido por contato com pessoas e superfícies contaminadas; boa parte das pessoas acometidas pela doença precisa de internação hospitalar, também em boa parte com o uso de respiradores por pelo menos 15 dias; não haverá leitos para todos, se multidões precisarem de internação; logo, com o colapso dos sistemas de Saúde Pública e privado, muitas pessoas morrerão, como já está acontecendo. Por mais cuidados que se tome para evitar o contágio, reunir pessoas em um mesmo ambiente é sempre muito arriscado. Pois, ainda não se sabe tudo a respeito dos meios de transmissão, e a cada semana surgem novidades sobre o assunto. Na última semana, por exemplo, foi noticiado que o vírus tem sido encontrado suspenso no ar, de modo que a contaminação pode se dar mesmo sem o contato direto com pessoas e superfícies contaminadas.

Ora, que a Eucaristia tem feito muita falta ao povo de Deus, isto é uma verdade demasiadamente lamentável, inegável e insuperável. Mas, há um antigo provérbio português que diz: “Não há um mal que não traga um bem”. Sendo assim, por que não lançar um olhar espiritual para esta provação que todos nós estamos vivendo? Será que a pandemia que priva o povo de Deus da Sagrada Eucaristia não é uma ocasião privilegiada para valorizarmos a Palavra de Deus que está tão facilmente ao nosso alcance, talvez até escondida ou esquecida numa gaveta ou prateleira em casa? Somos sim um povo demasiadamente eucarístico. E isso é maravilhoso! Mas, talvez tenhamos deixado de lado a Palavra, que é Jesus, onde o Senhor também está presente, para nos atermos apenas na forma da presença real do Senhor na eucaristia. É claro que há uma diferença substancial da forma como o Senhor se faz presente na Eucaristia para as outras formas. Na Eucaristia está o Senhor presente de forma real, substancial, eminente e permanente em corpo, alma e divindade. Mas, a Palavra também é de suma importância. Pois, antes mesmo que o Senhor Se fizesse homem e, depois, Se fizesse pão, Ele no “princípio era a Palavra” (Jo 1,1).

Pensemos nas comunidades que durante tanto tempo, às vezes décadas e até séculos, ficaram privadas da Eucaristia, por perseguição, falta de sacerdotes e tantos outros motivos. Como eles desenvolveram uma admirável intimidade com a Palavra, que para nós chega a ser desconcertante! Olhemos para as comunidades orientais e ortodoxas que tanto valorizam a Palavra na liturgia dando aí ao evangeliário a mesma dignidade das espécies eucarísticas. Será que não é da vontade do Senhor que aproveitemos este momento de crise para crescer na intimidade com a sua Palavra, desenvolvendo nós também verdadeiro amor e devoção às Sagradas Escrituras? De nada nos adianta dedicarmos um mês do ano (setembro) para formação bíblica, procissão da Bíblia, feira bíblica, altarzinho para a Bíblia etc., e tanto aí falar de animação bíblica das pastorais, se a Palavra de Deus não é a alma da nossa fé, espiritualidade e práticas devocionais e caritativas. Este é o momento privilegiado para a animação – no sentido mesmo de anima ('alma') da palavra – da nossa igreja doméstica. Reunir a família para ler de forma orante a Palavra de Deus, ou fazê-lo mesmo sozinho na intimidade e no silêncio do quarto.

Da mesma forma que os acometidos pela Covid-19, no seu mais grave sintoma, sentem falta daquilo que sempre esteve tão perto e abundante, ou seja, o ar, que esta pandemia também nos ajude a dar mais valor àquilo que está mais próximo de nós, isto é, a Palavra. Pois, “essa Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração: e tu a podes cumprir”(Dt 30,14). Ao sair desta situação de pandemia, voltemos às nossas celebrações presenciais para vivê-las em toda a sua realidade, vivacidade e completude: Palavra e Eucaristia.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


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