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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 08/08/2020

08 de Agosto de 2020

A Ressurreição e seu significado histórico (parte II)

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08 de Agosto de 2020

A Ressurreição e seu significado histórico (parte II)

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03/05/2020 17:49
Por: Redação

A Ressurreição e seu significado histórico (parte II) 0

Em meu último editorial, lancei dois questionamentos como proposta à reflexão do leitor a respeito da profundidade e veracidade do mistério da ressurreição. Eu questionava se nos era possível acreditar nos testemunhos neotestamentários, dada a nossa mentalidade dominada pelo cientificismo pós-moderno, e se constitui realmente a ciência as balizas do conhecimento em toda plenitude deste termo, de modo a determinar o que nos é possível ou não conhecer. Nas linhas que seguem procurarei, então, aprofundar o tema e responder a tais questionamentos.

Ora, é evidente que não pode haver contradições com aquilo que constitui um claro dado científico. Entretanto, os testemunhos neotestamentários sobre a ressurreição falam-nos de algo que não ocorre em nosso mundo, ou seja, dentro das limitações de nossas categorias. Trata-se de algo inteiramente novo, único; trata-se de uma nova dimensão da realidade que a nós se manifesta e nos é aberta. A fé na ressurreição não contradiz a realidade empírica, mas a supera. Sua dimensão é ulterior ao entendimento humano, por isso é considerada não na nossa categoria científica ou histórica, mas na categoria de mistério.

Do que afirmamos até aqui podemos perceber que os diversos testemunhos da ressurreição nos atestam que o Ressuscitado não é um cadáver reanimado e nem um fantasma ou espírito desencarnado pertencente ao mundo dos mortos, mas que pode Se manifestar no mundo dos vivos. Os encontros com Ele não se situam no nível das experiências místicas, em que o espírito humano é momentaneamente elevado acima de si mesmo e toma contato com o mundo divino. O Papa Emérito Bento XVI em sua obra "Jesus de Nazaré" nos recorda que a experiência mística, precisamente por ser “superação momentânea do âmbito da alma e das suas faculdades de percepção, não é um encontro com uma pessoa que externamente se aproxima de mim” (cf. Jesus de Nazaré, p. 244), em quem eu toco, com quem eu dialogo, com quem eu faço refeição. O Apóstolo Paulo, por exemplo, distingue com admirável clareza a diferença de suas experiências místicas do seu encontro pessoal com o Ressuscitado a caminho de Damasco, evento situado na História e por isso mesmo de grande significado histórico. Mas, a experiência com o Ressuscitado é diferente do encontro com um ser humano desta nossa história, de modo que ela não pode se limitar a conversas à mesa e a lembranças que logo teriam se transformado na ideia de que Ele não morreu e que daria continuidade a Sua missão. Tal interpretação nivelaria os acontecimentos numa perspectiva meramente humana, privando-os de seu conteúdo essencial (cf. Introdução ao Cristianismo, p. 228).

Embora a ressurreição seja histórica, ela supera a História. Bento XVI ao usar de uma linguagem analógica, reconhecidamente por ele mesmo como inapropriada, mas que auxilia a compreensão, considera a ressurreição como um tipo de salto qualitativo que abre acesso a uma nova dimensão da vida, do ser homem.

O corpo mesmo de Jesus é transformado em um novo gênero de realidade. A partir da ressurreição, o Homem Jesus, precisamente com o seu próprio corpo, pertence totalmente à esfera do divino, do eterno (cf. Jesus de Nazaré, p. 244). Já em 1967, na primeira edição de "Introdução ao Cristianismo", Ratzinger usava os termos bios, vida no sentido biológico, e zoë, no sentido de vida plena de Deus que supera os atributos de uma vida física e individual, de modo que a vida de Jesus não volta mais a ser bios, ou seja, a forma biológica de nossa vida mortal intra-histórica; agora ela é zoë, uma dimensão inteiramente diversa e nova de vida, vida definitiva que supera a morte no nível bios desta nossa história. Os testemunhos neotestamentários nos atestam que a vida de Jesus Ressuscitado já não mais pertence à história do bios, ela se desenrola acima e fora desta. No entanto, há que se reconhecer que a zoë precisou ser testemunhada na história, visto que ela existe para a História. Neste sentido, a própria pregação cristã é transmissão desse testemunho de vitória sobre a morte que muda radicalmente a situação do homem (cf. Introdução ao Cristianismo, p. 226).
As narrações da ressurreição no Novo Testamento testemunham um fato inteiramente novo que não brotou do coração dos discípulos, mas que chegou a eles de fora, que, contra toda dúvida, os seduziu e os fez crer que o Mestre ressuscitou verdadeiramente. Ele que passara ao outro mundo de Deus só é visto e tocado porque Se dá a ver e permite ser tocado, a fim de que os discípulos creiam que é realmente Ele e que o poder do amor é mais forte do que o poder da morte.

A ressurreição de Jesus inaugura uma nova dimensão de vida, costumeiramente chamada por nós de dimensão escatológica. Ela rompe a História e abre espaço para que esta possa se estender para além de si mesma, de modo que a ressurreição não é um fato histórico do mesmo gênero que o nascimento ou a crucificação de Jesus. Ela constitui um novo gênero de acontecimento, o que não significa que ela está fora ou acima da História.
Bento XVI considera que a própria missão apostólica, em todo seu ardor, entusiasmo e ousadia, só é compreendida a partir de um contato real das testemunhas com um evento prodigiosamente novo, algo inteiramente externo, não subjetivo, nem místico, mais precisamente, uma pessoa que os tocava e os impelia a comunicar aos irmãos o inesperado acontecido. Somente esta maravilhosa realidade é capaz de dar força e sentido à missão apostólica (cf. Jesus de Nazaré, p. 245-247).

A dinâmica do Reino nos desconcerta. O modo como Deus Se revela ao mundo é surpreendente. Cristo, sendo o Senhor da vida e da morte, poderia se opor com força e poder aos algozes que O levaram ao suplício da cruz. Mais ainda, podendo se revelar indiscutivelmente a todos os povos Ele optou por Se revelar primeiro a um pequeno povo oprimido por um grande império. Mas é próprio de Deus agir deste modo suave. É paulatinamente que Ele tece sua história na História dos homens. Sendo Deus vem a nós, fazendo-se homem, de modo a ser ignorado pelos homens. “Padece e morre, e, como Ressuscitado, quer chegar à Humanidade apenas através da fé dos seus, aos quais Se manifesta. Sem cessar, Ele bate suavemente às portas dos nossos corações e, se Lhe abrirmos, lentamente vai-nos tornando capazes de ‘ver’” (cf. Jesus de Nazaré, p. 245).

Porém, este é o modo como Deus se revela na nossa História. Não de maneira impositiva, mas propositiva, abrindo espaço para o uso da liberdade na aceitação da força da verdade, que edifica a comunidade universal dos fiéis que encontraram o Ressuscitado.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


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