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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/06/2020

05 de Junho de 2020

Coronavírus: uma crise de informação?

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Coronavírus: uma crise de informação?

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24/04/2020 18:42
Por: Padre Augusto Bezerra

Coronavírus: uma crise de informação? 0

O fenômeno comunicacional causado pelo coronavírus é marcado tanto por muita informação quanto por muita desinformação, numa verdadeira avalanche de conteúdos sobre o tema que tomou as redes sociais, a TV e o rádio nos três últimos meses. As fake news marcaram presença em diversas partes do mundo. E nem o Papa escapou dessa, pois, logo no início da crise, se tornou alvo de especulações sobre um possível contágio pelo coronavírus, depois de cancelar suas atividades por motivos de saúde, ao que a Sala de Imprensa do Vaticano classificou como uma “ligeira indisposição”, que na verdade se deu em decorrência de uma gripe. O suficiente para se ver conteúdos fakes difundidos nas redes que noticiavam as suspeitas de que o Papa sofre um contágio pela Covid-19.

Não obstante o pânico diante de uma enxurrada de informações de hora em hora, o momento que vivemos é de ação, de informações coerentes e transparentes, principalmente por parte das instituições públicas de todos os níveis e da imprensa. O fato é que estamos diante de uma pandemia global, não só da Covid-19, mas também da desinformação. As relações globais geram obrigações e responsabilidades de monitoramento e transparência nas informações, pois isso permite que outras nações e instituições internacionais realizem de modo seguro o seu trabalho em favor de seus cidadãos. Em outras palavras, o serviço de informação em relação a questões sanitárias e acerca do andamento dos casos se torna bastante relevante para uma relação de confiança entre as instituições globais e nacionais, e servem para pesquisas, bem como na elaboração de modelos matemáticos com o intuito de garantir um melhor conhecimento do que estamos enfrentando de fato e como superar esta crise.

A nível nacional, a comunicação transparente para com os cidadãos garante a mesma relação de confiança, além de garantir direitos democráticos, não só no acesso às informações de saúde pública diante de um fator epidemiológico, mas também de cobrar dos governantes o justo serviço para assegurar aos cidadãos os devidos cuidados sanitários quando o próprio acesso de todos os cidadãos ao sistema de saúde é um direito constitucional. Ora, uma agenda política seja ela logística, sanitária ou econômica que se empenhe em esconder informações relevantes da população compromete o juízo democrático dos cidadãos sobre as próprias ações dos governantes, diminuindo a participação pública no processo. E uma distorção de informações por parte da imprensa igualmente pode afetar o justo juízo acerca de ações dos poderes públicos. Assim, a imprensa, os meios de informação e o governo se veem num compromisso imediato com a verdade, um direito dos cidadãos.

Certamente, é de máximo interesse do governo proteger as suas instituições financeiras nacionais e o crescimento econômico, enquanto, tem ao mesmo tempo, o dever de salvaguardar a sua população de um risco epidêmico. Em outras palavras, os políticos “se veem entre a cruz e a espada”.
Sem dúvida, a saúde e a dignidade humana das pessoas vêm em primeiro lugar nessa hierarquia de valores. A tentação primeira de alguém que está na pele dos políticos num momento como esse é de acalmar o mar agitado das finanças para que todos não venham morrer afogados economicamente, antes mesmo de serem contagiados por um vírus microscópico. É uma posição complicada. Por isso, mais do que nunca os políticos precisam de nossa oração. Entramos no dilema do serviço público de informação, e daí surgem as primeiras perguntas: o quanto os políticos seriam capazes de serem transparentes quando colocados sob tão grande estresse político e econômico? O quanto serão capazes de gerar uma relação de confiança e credibilidade com o público? O quanto serão capazes de deixar agendas políticas para pensar no bem comum? O quanto a imprensa será capaz de abandonar os seus interesses ideológicos para entrar na luta contra algo que atinge a todos e assim abnegar-se de manipular informações?

Num cenário complexo como esse, que muitas pessoas até veem de uma maneira simplista, também a omissão de informações relevantes por parte das instituições públicas aos seus cidadãos pode tornar tudo mais caótico, pois pode suscitar um ciclo de desconfiança e uma crise de credibilidade das instituições que precisam ter o controle de tudo e devem fazer o possível para ter a garantia dessa credibilidade a fim de que tenham as condições necessárias de governar de modo eficaz durante a crise. A omissão de informações relevantes se descoberta pode desencadear igualmente um ciclo de desinformação e o aparecimento de fake news, atrapalhando ainda mais o funcionamento de serviços públicos ou mesmo atingindo a imagem pública das instituições. A credibilidade mantida com a transparência pode ajudar na relação de confiança, dando maior poder persuasivo em situações de crise para levar a esperança no combate aos desafios presentes e a promover a unidade entre os cidadãos. Ou seja, o momento vai exigir dos políticos uma maturidade e virtude além do que devem possuir habitualmente no caso do prosseguimento de uma mais grave epidemia.

Certamente, ainda é cedo para maiores conclusões, pois é um cenário em desenvolvimento. Mas precisamos ter em vista as principais chaves de leitura para ações políticas que se concentram em grande parte na administração dos bens nacionais e defesa de seus interesses a nível internacional para o próprio bem estar de seus cidadãos e contenção de crises econômicas. Tal situação pesará fortemente nas decisões e talvez no modo de tratar as informações de maneira ética ou antiética, o que exigirá nossa atenção. E talvez seja a justa ocasião de educar as pessoas a buscar meios mais seguros de informação, e não de ajudar o desserviço da desinformação na difusão de conteúdos.

Padre Augusto Bezerra,

mestrando em comunicação social institucional / PUSC (Roma)
Artigo adaptado de publicação feita em 28/2/2020 na língua italiana.


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