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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 31/10/2020

31 de Outubro de 2020

Em busca de sentido

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24/04/2020 18:38
Por: Padre Igor Antônio Calgaro

Em busca de sentido 0

Num tempo de tantas incertezas e tanto ruído social, no qual a guerra de narrativas ideológicas e a disputa política se instalaram como atores paradoxalmente mais fundamentais que a própria pandemia, que parece estar relegada a pano de fundo, muito nos angustia nossa situação econômica, o destino do país, do mundo, enfim, tantas perguntas nos fazemos e, infelizmente, não possuímos respostas fáceis nem imediatas. Em momentos como esse, creio ser recomendável uma atenta leitura do livro do Eclesiastes, um dos livros de sabedoria da Sagrada Escritura, comentado, brevemente, em artigos anteriores.

Lido frequentemente na festa judaica dos Tabernáculos a começos de outono – época do término das colheitas –, o livro do Eclesiastes, comumente datado do século III a.C., convidava o povo a usufruir com gratidão dos bens da terra, recordando sempre que tudo é dom proveniente de Deus. No conjunto dos livros sapienciais, sobretudo se considerado juntamente ao de Jó, representa uma importante crítica ao pensamento tradicional sobre o tema da retribuição, num momento em que ainda não se tem muita clareza da perspectiva após a morte. Uma tradução mais adequada do termo 'qohélet' (Eclesiastes), particípio feminino do verbo 'qahal' (convocar), porém com demais verbos relacionados em masculino, seria a de que 'qohélet', que significa a própria Sabedoria divina, a que congrega, reúne, a que convoca a assembleia e lhe fala em meio às ruas e diante dos mercados, tal como faziam os filósofos desse período, por meio da voz de um escriba, um homem do livro, para dar a Israel lições de sabedoria. O povo, encantado com a oratória e a capacidade retórica dos filósofos gregos, é advertido pelo autor do livro a respeito da vaidade e ilusão das ideias gregas que, muito sedutoras, não levam em conta o temor do Senhor, e, portanto, são vãs e insuficientes para a vida. O autor, tendo em conta todo o aporte cultural que alcançou Israel no período da helenização da Palestina (332 a.C. a 63 a.C.), onde todo o Oriente conheceu inevitavelmente novas filosofias (cinismo, ceticismo, hedonismo, estoicismo e principalmente o epicurismo), além da literatura egípcia antiga (“O canto do arpista” e “Diálogo de um homem com sua alma”), é capaz de integrar todo esse caldo de cultura popular em única obra sob a perspectiva do temor do Senhor. Assim, o referencial do sábio escriba que fala em Eclesiastes são as máximas derivadas da sabedoria tradicional de Israel, ainda que no momento em que escreve esteja em fase de reelaboração interior, razão pela qual manifesta certo desacordo com essa tradição, uma vez que a sabedoria que conheceu já não dá mais conta de solucionar suas questões interiores, seu afã de conhecimento e de felicidade. No entanto, essa sabedoria ainda lhe é útil para aproveitar as pequenas coisas do dia a dia, já que sua concepção de castigo e retribuição não ultrapassam a vida terrena!

Em meio a um turbilhão de ideais que lhe passam pela cabeça, o sábio escriba fica em dúvida, momentaneamente, sobre a sorte de justos e injustos. Às vezes, pensa que ambos terão a mesma retribuição, outras vezes enxerga, à luz da sabedoria tradicional, que ambos serão tratados por Deus de modo distinto. Por vezes, considera o importante esforço de adquirir a sabedoria, e em outros momentos a considera inútil, de tal modo que vai ficando evidente ao leitor a oscilação entre uma postura materialista pessimista e outra espiritual e otimista. Para o autor do Eclesiastes, é vão e inútil (vaidade é inconsistência, ilusão, irrealidade, algo incompreensível e absurdo) o próprio esforço por adquirir a sabedoria que entrou na moda em sua época, já que mesmo o ensinamento de gerações dado a Israel não lhe parece suficiente. De fato, o livro mostra o quão passageiras são todas as coisas nesta vida terrena: as ciências, os prazeres, o sucesso, o dinheiro e as riquezas, tudo por causa das injustiças humanas e da morte que parece ser o fim da linha. Escrevendo do mesmo modo que os gregos (diatriba), o sábio escriba fala como um mestre judeu que expõe brilhantemente os tesouros da sabedoria israelita em meio às vozes dissonantes de seu tempo, que também ressoam em seu coração, levando-nos, assim, a perceber novamente que temer a Deus e guardar seus mandamentos é o melhor caminho para o homem. Desse modo, o Eclesiastes entende que a busca por uma recompensa da parte de Deus deve se restringir a este mundo, uma vez que somente Ele premia ou castiga. Por essa razão, deve-se obedecer à lei divina nunca pensando num depois, porque não se sabe ao certo o que é possível esperar após a morte, quando tudo parece que se acaba – as noções de imortalidade da alma, de recompensa após a morte e ressurreição da carne começam a aparecer somente mais tarde com os livros da Sabedoria, de Daniel e o segundo aos Macabeus. Desse modo, para ser feliz nesta vida é preciso temer ao Senhor, aqui e agora!

Em sua busca de sentido, o sábio escriba sente a necessidade de avançar para águas mais profundas, uma vez que apenas uma certeza possuía: a de que não poderia abandonar o caminho do temor nesta busca tão dolorosa pelo sentido de sua vida. Em sua reflexão sobre o esforço inútil por adquirir a sabedoria, Qohélet acaba concluindo que é preciso tentar ser feliz reconhecendo que tudo provém de Deus, de modo que a única sabedoria válida para o autor é a que permite dar-se conta do caráter passageiro (inconsistente) de todas as coisas que o homem deseja nesta vida terrena, uma vez que a morte coloca a todos em igual condição, razão pela qual é melhor refletir sobre ela do que perder-se em alegrias passageiras. Assim, a fé do sábio deste livro se mantém acima das desilusões, que, no fundo, acabam servindo-lhe de ocasião para uma busca ainda maior de Deus. Por essa razão, o autor do Eclesiastes, longe de ser um pessimista, é no fundo um filósofo nato, um amante da verdade que se coloca diante da vida de modo realista com todas as suas limitações, injustiças e problemas insolúveis (morte). Alguém capaz de se questionar sobre o sentido da vida e sobre qual é a melhor postura para viver as alegrias e as tristezas, buscando enfrentar suas dificuldades com serenidade, sem desanimar diante do aparente absurdo do cotidiano. Alguém que sabe conviver com problemas não resolvidos, dos quais não se vislumbra um desenlace claro nem imediato, sem, contudo, arrefecer seu empenho nem sua alegria, tratando de viver o momento presente sem criar muitas expectativas. À luz do N.T., o livro do Eclesiastes nos oferece a verdade profunda do mistério insondável da vida e da morte que pertence só a Deus, e que o homem deve pleitear-se com todo realismo, mesmo não sendo capaz de entendê-Lo completamente. Eclesiastes é, por fim, uma obra que nos leva a ver como a revelação do sentido último de nossas vidas escapa às nossas próprias forças, razão pela qual necessitamos da graça do Senhor. Essa profunda consciência da vaidade da vida e das ações humanas expressas pelo Qohélet servirá muito a São Paulo a hora de enfatizar que o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas somente pela graça que recebe de Deus pela fé.

Imbuídos desta perspectiva, amados irmãos, mantenhamo-nos tementes a Deus, confiando sempre em Sua providência e bondade, pois tudo provém Dele. Em meio às turbulências que temos de atravessar, vivamos com sabedoria cada dia, valorizando as ocasiões simples de manifestar a caridade aos demais, pois tudo nessa vida passa. Tendo encontrado o sentido de nossas vidas em Nosso Senhor Jesus Cristo, O Verdadeiro Sábio que responde a todos os nossos interrogantes mais profundos com a entrega de amor na cruz, unamo-nos ainda mais a Ele na oração e sejamos capazes de filtrar tudo o que este mundo nos oferece. Façamos oferta ao Senhor de tudo o que não somos capazes de compreender agora, pondo tudo nas mãos do Senhor (Jo 16,12ss).

Tudo o que não é essencial passa! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!

Padre Igor Antônio Calgaro
Vigário paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Botafogo


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